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sábado, 27 de fevereiro de 2010

PRESO POR TER CÃO...

No tempo em que os espanhóis governavam cá na nossa terra, era uma grande desgraça!
De cada tantos porcos, de cada tantas galinhas, ovelhas, reses ou chibos que a gente possuía tinha de dar um lance que era de cada quatro um.-Ninguém ajuntava pé de orelha. Era uma desgraça.E depois os moleiros eram obrigados a ter um cão, sob pena de ir para a cadeia. Mas um cão que não comesse farinha. E como não havia meio mais seguro de vigiar isso, era obrigação que o animal tivesse focinho preto.Uma certa vez, um moleiro que havia nesse tempo, tinha lá um canito que era muito bom, mas por infeliz sorte, tinha o focinho branco. Veio de lá a justiça um dia e bumba! Prende-o. O homenzinho tinha muito génio, e vai e mata o cão. Torna a justiça outra vez… o moleiro não tinha cão. E bumba! Cadeia outra vez com ele.
O homenzinho então costumava dizer:
- Isto é assim: preso por ter cão, preso por não ter cão.


terça-feira, 2 de dezembro de 2008

A FÉ É QUE NOS SALVA


“Uma rapariga que estava muito doente e já desenganada dos médicos, pediu ao noivo, que ia a Jerusalém, que lhe trouxesse da cidade santa um pedaço da madeira da Cruz em que Christo foi pregado, para tomar em vinho, a ver se assim melhorava. O namorado esqueceu-se do pedido da moribunda e, na volta, cortou um bocado de madeira do navio em que vinha, para enganar a rapariga, e como esta se achasse curada completamente, depois de o tomar, dissolvido em vinho, elle então comentava: A fé é que nos salva neja o páo da barca”.

Este conto tradicional, provavelmente incompleto, foi recolhido em S. Miguel, mas acreditamos que era conhecido nas restantes ilhas dos Açores e até mesmo no continente Português.

Outro conto que também justifica o rifão foi registado no Fundão:

“Duma ocasião mandaram um homem à cata dum saibio, pra curér’ mas maleitas. Na caminho perdeu-se e incontrou um rio. Atravessou-o atão n’ma barca, mas ‘squeceu-se de proguntar pelo saibio. Quando voltou, trouxe um bocadinho de pau da barca, mandou fazer um coz’mento, e dixe qu’o saibio é que tinha mandado. E com tam bôa fé o boêram, que figirem nas maleitas. E o homem dezia atão qu’a fé é que nos salva, e noêja o pau da barca”.

.O que ambos os contos têm em comum é o lapso de memória do personagem, sendo este acidente o elemento central que prepara e justifica a conclusão. Se no primeiro conto não encontramos pistas que nos levam a determinar qual a razão para o esquecimento do noivo, já no segundo, recorrendo à sabedoria popular, podemos descobrir a causa próxima que levou o homem a obliterar o motivo da sua missão: atravessar um rio. Com efeito Leite de Vasconcelos registou alguns factos curiosos sobre as crendices populares relacionadas com as águas, como esta: "Quem atravessar um rio deve apanhar um seixinho e metê-lo na boca para se não esquecer do modo de falar da sua terra". Ou esta outra tradição popular antiga em que se acredita que "atravessar um rio faz perder a memória a quem o passa".
Fonte: José Monteiro

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

QUEM VÊ OLHOS...

É frequente, nas formas de expressão popular – cantigas, adágios, rifões, etc.-, o povo denunciar a sua predilecção, simpatia ou antipatia pela cor dos olhos, e por ela fazer uma avaliação, embora não unânime, dos predicados morais do seu portador.

Para uns “olhos verdes: onde os virdes fugi deles” ou “olhos verdes, olhos de traidor” como lemos na colecção de provérbios de Perestrelo da Câmara.
A mesma opinião teve quem, sobre os olhos verdes cantou:

Olhos verdes não os quero
Pois são sinais de traição…
Dizem esperanças à vista
Tristezas ao coração

e ainda esta

Os teus olhos verdes, verdes
São duas grandes mentiras;
O verde é cor d’esperança
E tu a esp’rança me tiras

Desta antipatia aos olhos verdes discorda D. Francisco Manuel de Melo, (Lisboa, 23 de Novembro de 1608 – 24 de Agosto de 1666):
“Vossês são os que se agastam, nós é que podíamos queixar-nos; porque quem não gosta de uns olhos verdes, não tem bom gosto” escreveu ele na terceira parte da segunda fábula da sua “Feira de Annexins”.

Ainda sobre os olhos verdes

Olhos verdes, cor de esp’rança
Olhos verdes, cor do mar
Quem tem amores é criança
Sou criança por te amar

Também para os “olhos azuis” encontramos referências pouco abonatórias no adagiário português: “olhos azuis em gente portuguesa, é má natureza” ou ainda “olho azul em português, é má rês”.

Os olhos pretos são também acusados de infidelidade, a dar fé às seguintes quadras populares:

Quem diz ser de gala o preto
Entende pouco de cores;
Eu amei dois olhos pretos
Ambos me foram traidores

Teus olhos, contas escuras
São duas Ave-Marias,
Dois Rosários de amarguras
Que rezo todos os dias

No entanto são bem mais condescendentes para os olhos de cor negra as seguintes quadras que o povo canta:

Graças a Deus que chegou,
É chegado não sei quem…
Chegaram dois olhos pretos
A que os meus querem bem

Menina do lenço preto
E olhos da mesma cor,
Diga a seu pai que a case,
Eu serei o seu amor

Os teus olhos, negros, negros,
São como a noite fechada:
Apesar de serem negros,
Sem eles não vejo nada.

Olhos merecedores de plena confiança são os castanhos:

Olhos pretos são falsos
Os azuis são lisonjeiros
Os olhos acastanhados
São os leais verdadeiros

Olho branco é que convém não ter:

“Olhos brancos em cara portuguesa, ou filho de potra ou da natureza”