Mostrar mensagens com a etiqueta Serreta. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Serreta. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

NOSSA SENHORA DOS MILAGRES DA SERRETA - A FESTA DA FÉ

Acabaram-se as férias. E logo na semana da Serreta, ainda a tempo de cumprir o sacramental sábado e de gozar o feriado (tolerância?) da segunda-feira.
A festa de Nossa Senhora dos Milagres da Serreta é, na ilha Terceira, um caso particular de fé, disfarçada por vezes em deleites profanos, cuja origem se esfuma na penumbra do tempo.

Do "Almanach Açores para 1904" respiguei o seguinte texto que nos dá conta da provável origem desta festividade e da sua evolução ao longo dos tempos:

“A risonha freguesia está situada no cabo ocidental da ilha, voltada a sudoeste, num terreno alto sobranceiro ao mar, tendo uma área de 12 quilómetros quadrados.
O seu nome tem origem na serra que lhe fica eminente pelo norte e da qual provem os nevoeiros ali tão frequentes.
Ao título do orago da freguesia – Nossa Senhora dos Milagres – estão ligadas recordações e tradições encantadoras.
Segundo a tradição, nos fins do século XVI, um piedoso sacerdote, vítima duma injusta perseguição, ali se foi estabelecer.
Eis a lenda piedosa e poética da devoção à Virgem dos Milagres:

Havia um velho padre, velho e bom santo homem que, para fugir do mundo e dos homens, tomou o seu bordão e foi por serras e montes à procura de um ermo onde pudesse orar. Foi-se embrenhando pelos matos, mais e mais até não ouvir outros ruídos que os do vento agitando as florestas e os do mar quebrando-se nos alcantilados rochedos.
O venerando sacerdote conseguiu o que tão ardentemente desejava, por entre penas, trabalhos e privações de toda a ordem. Chegou à Serreta exausto de forças, mas vigoroso de fé e de confiança. Era bem aquele lugar o que Nossa Senhora lhe havia indicado numa visão encantadora e doce, visão que lhe enchia a alma inteira, que o alentava, que o fortalecia. De suas próprias mãos, ali onde era mais áspera e selvagem a terra, erigiu uma modesta e pequenina capela, onde colocou a imagem da Virgem, que sempre o acompanhou. Foi ali que orou, prostrado ante a mãe de Deus durante o resto dos seus dias, "descuidoso" das glórias vãs do mundo, longe do bulício das povoações, na paz da consciência, no silêncio do ermo!
Anos depois da morte do piedoso sacerdote que construíra a primitiva e singela capela, onde acorria todos os anos muito povo em romagem, teve de transferir-se a imagem para a paroquial das Doze Ribeiras, porque os romeiros, pelo abandono em que estava a capela, praticavam ali actos pouco edificantes.
Em 1762, ao saber-se por comunicação do Conde de Oeiras, que as tropas espanholas tinham entrado em Portugal, várias pessoas importantes da ilha e oficiais da guarnição, no intuito de pôr a Terceira em estado de repelir um ataque, percorreram o litoral escolhendo os locais para construir fortificações. Chegando às Doze Ribeiras, invocaram auxílio de N.ª S.ª dos Milagres, obrigando-se a fazer-lhe festas solenes se a ilha não fosse atacada. Assim sucedeu. A paz foi assinada. Dois anos depois os peticionários que se ficaram chamando "Escravos da Senhora" lavraram um termo firmando aquele voto, com a data de 11 de Setembro de 1764. O voto cumpriu-se solenemente, com a maior grandeza e piedade.
Dez anos mais tarde, em 13 de Setembro de 1772, na freguesia das Doze Ribeiras, lavrou-se um acordam pelo qual os "Escravos" convieram na reedificação da ermida da Serreta, obtendo desde logo na ilha grandes donativos para a obra.
Não obstante tão excelentes propósitos, 25 anos depois, em 1797, ainda não estava reedificada a capela. Como por essa ocasião ameaçasse o reino o perigo da ocupação francesa, foi revalidado o voto com referência à festa, obrigando-se todos a cumprir o propósito da reedificação da pequena igreja. Este novo voto tinha data de 26 de Julho de 1797.
Passado, porém, o perigo os votos foram esquecidos. Em 1818 o general Francisco António de Araújo obedecendo ao plano geral de levantar as capelas mores das igrejas que ao povo competia acabar, nos lugares em que o desenvolvimento da população o exigisse, e sabendo dos votos feitos em 1762 e 1797, promoveu a construção duma igreja na Serreta, por meio de donativos de alguns devotos e do Estado, chegando a obter o levantamento das paredes. As perturbações políticas da época obstaram conclusão da obra.
Em 1842, o conselheiro José Silvestre Ribeiro, governador civil do distrito, conseguiu levar a efeito a construção da igreja coadjuvado pelos senhores Visconde de Bruges e brigadeiro Vital de Bettencourt Vasconcelos de Lemos, que por escritura de 30 de Agosto de 1842 fez doação de 4&000 reis anuais para património da nova igreja, e outros cavalheiros angrenses. A 10 de Setembro do mesmo ano realizava-se a trasladação da imagem de N.ª S.ª dos Milagres para a sua nova capela, sendo criado ali um "curato", até que por decreto de 16 de Outubro de 1861 e provisão do bispo D. Frei Estevam, de 24 de Dezembro do mesmo ano, foi criada a paróquia e freguesia denominada de Nossa Senhora dos Milagres, que principiou a funcionar em 1 de Janeiro de 1862.
Quando em 2 de Julho de 1847 o sempre lembrado sacerdote padre Francisco Rogério da Costa, tomou conta do "curato", encontrou a pequena ermida absolutamente carecida de tudo. Apenas existia a imagem de N.ª S.ª dos Milagres acomodada num nicho e alguns pobres paramentos.
Cinco anos depois, teve de abandonar o lugar, deixando feita a capela-mor, um camarim para o S. Sacramento, dois altares laterais onde se dizia missa e ornamentos suficientes para o culto. Junto à ermida tinha sido construído um belo passal.
Todos estes melhoramentos consegui-os o zelo fervoroso do padre Rogério, auxiliado largamente pelas esmolas de muitos cavalheiros de Angra e em geral, do povo de toda a ilha.
Durante muitos anos as festas eram feitas pelas principais famílias de Angra. Hoje, porém, são custeadas pelas esmolas dos fiéis.
As acanhadas dimensões da igreja e o aumento progressivo da população, reclamavam desde muito tempo a edificação de um novo templo.
Coube ao vigário reverendíssimo Francisco Lourenço do Rego, sacerdote de alto espírito, de extremada prudência e de inquebrantável tenacidade, levar a vias de realização o empreendimento.
Em 29 de Abril de 1895 procedia-se à cerimónia da bênção da primeira pedra da nova igreja.
As obras iniciaram-se logo e, sete anos passados, estão quase concluídas as paredes da nova e elegante igreja, que ficará sendo um dos mais formosos templos da ilha.

As festas anuais que ali se celebram são imponentíssimas. Por essa ocasião, um dos aspectos que fica perdurável no espírito do “turiste” é, sem dúvida, o Pico da Serreta, no dia da corrida de touros, onde por entre o verde escuro do mato que o reveste, se destacam as variegadas cores claras e vivas, dos trajos de milhares de pessoas de todos os pontos da ilha que dali vão gozar alegremente a popular diversão tão querida do povo terceirense e complemento fatal de todas as festas quer profanas quer religiosas.

Dr. Ferreira-Deusdado”

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

UM FAZEDOR DE SANTOS

O Tio Alvarino da Serreta

(foto retirada do livro "Filósofos da Rua" de Augusto Gomes)

Quando conheci o Tio Frederico,na década de 70 de 1900, já ele me parecia velho. Tinha “venda” de mercearia e bebidas na fronteira de Santa Bárbara com as Doze Ribeiras. Era um conforto os minutos que, por motivos profissionais, passava com ele na visita semanal das terças. Sempre cheio de “salamaleques” todas as conversas terminavam num irrecusável “mata-bicho”. Testemunhas deste cerimonial eram os três ou quatro pequenos cálices de vidro lascados que conheciam o hálito de todos os fregueses. Para mim estava sempre reservado o do Tio Alvarino. O tempo foi passando e com ele foi crescendo a minha curiosidade de conhecer o homem que ficara perpetuado num pequeno e lascado cálice de vidro da venda do Tio Frederico. Para não ser muito directo com receio de alguma indiscrição, perguntei um dia ao meu bom amigo: “deve ter sido uma pessoa importante, este Tio Alvarino? Pelo sorriso do meu interlocutor tive a certeza de que a pergunta pecava por tardia. O seu corpo baixo e franzino, agitou-se realçando o nervoso miudinho que o caracterizava.
- Mais um “calsinhos”, disse ele (para mim uma aguardente traçada com aniz e para ele um whisky, por lhe ter sido proibido pelo médico beber bebidas brancas).
- O tio Alvarino era um “carroceiro” da Serreta que todos os dias que Nosso Senhor “botava no mundo” aparelhava o seu inseparável “gigante” e, manhã cedo, ala até à cidade. Para baixo, sempre ligeiro, recolhia ele as notas de encomendas para comprar nas lojas de Angra. Ao fim do dia, no regresso, carroça carregada, a viagem era bem mais lenta. Em cada venda apeava-se o Tio Alvarino e, depois de entregue a mercadoria, bebia o seu “calsinho”, isto em todas as paragens e também na do Tio Frederico. Claro que o resultado final era uma diária e quase permanente carraspana. Aconselhavam-no os amigos: “Ó Alvarino, estás a dar cabo de ti!” mas nada, era sempre a mesma coisa todos os dias.
- “Ó Alvarino, coitada da tua mulher” – disse-lhe um dia o Tio Frederico enquanto atestava o cálice que hoje prepectua o seu nome – “Chegares a casa todos os dias bêbado, sem te lamberes. Para te sofrer, só mesmo uma santa!” – e reforçou – “Coitada! Ela é mesmo uma santa!
Sem espanto, e acenando em consentimento, enquanto limpava a boca à manga do surrado capote, respondeu de pronto o Tio Alvarino: -“É uma santa sim senhor! Mas... a mim o deve!”