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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

CADA UM ESTÁ P'RÓ QUE NASCE

Francisco Lacerda (1869-1934), maestro das fajãs, Jorgense do mundo, teve como um dos seus ídolos um tal Francisco Ceguinho, terceirense, tocador de viola. E de tal modo o tinha em consideração que o fez seu hóspede durante uma visita que o Ceguinho efectuou a S. Jorge em altura que o genial músico se encontrava a espairecer na sua Ribeira Seca natal.
No silêncio da Ilha ouviram-se por esses dias, diz-se, as mais belas melodias alguma vez retiradas das cordas de uma viola.
Lacerda, na sua visão universal da música, tinha pelas cantigas simples do povo e pelos seus executantes uma grande paixão e um enorme respeito.
Vitorino Nemésio (1901-1978) inventor da açorianiedade, catedrático dos saberes do povo, homem de paixões exuberantes e arrebatadoras, também tinha por ídolo o popular José da Lata, bravo pastor de cantigas e de gado, “mandador de bailes”, dono de uma voz de anjo, doce e escorreita e que, embora com menos desembaraço, também “rasgava” à viola. Por ele revelava uma admiração imensa.
Nemésio e Lacerda nutriam um fascínio indisfarçável pela “viola da terra”.
Se para Lacerda a viola fosse apenas mais um veículo revelador dos seus dotes musicais, para o Professor constitui-se sempre como um obstáculo ao seu saber universal. Apesar disso nunca se inibiu de a tanger sempre com a benevolente complacência dos circunstantes, mau grado a sua frequência em 1964 na Classe de Viola do Prof. Emilio Pujol (1886-1980) do Conservatório Nacional. Lá diz o velho ditado: “cada um está p'ró que nasce”.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

ELOGIO À VIOLA



Cantigas à minha viola


Ó viola encordoada
Com quinze cravos de aposta,
Minha pêra acinturada,
Minha maçã de Bemposta

Quando te toco nas cordas,
À boca do coração,
Vou-me sangrando em saúde
Que nem sumo de limão.

Tens os pontos doiradinhos,
Tens os espaços de luto,
Cada prima é uma flor,
Cada cravelha é um fruto...

Cada bordão é um zangão,
Cada toeira uma abelha,
Ó jardim de madrepérola
Da minha festa vermelha!

Letrinha de 8 somada
Pelas tuas seis parcelas
Mai-las minhas mãos cansadas,
Amarelas... amarelas...

Pendurada a tiracolo
No teu cordão cor de vinho,
És o meu saco de cego,
O meu burro e o meu moinho.

No florão da minha viola
Pus uma tira de espelho,
Para ver, de quando em quando,
Se estou novo, se estou velho.

Na caixa da minha viola
Há um letreiro que diz:
V. DA SILVA, VIOLEIRO,
ILHA TERCEIRA – PARIS.

Mas um tolo, um engraçado,
Colou com cuspo uns tarjões:
V. DA SILVA, CANGALHEIRO DE ALMAS,
FAZ VIOLAS E CAIXÕES.

Meu amor, deixa falar!
Dorme, não percas a esperança!
Morta, na minha viola,
Serás como uma criança.

Que seis meninas de arame
É que te levam à campa,
Com seis florinhas de pau
Espetadinhas na tampa.

E o limão, a violeta,
A madrepérola, o espelhinho
Hão-de te servir de terra
E de mortalha de linho.

Minha viola de luxo,
Minha enxada de cantar,
Meu instrumento de fogo,
Caixinha do meu chorar!

Viola, bordão de prata,
Vida violeta, violeta...
Prima, coração me mata...
Poeta! Poeta! Poeta!


(Vitorino Nemésio (1901-1978), Festa Redonda, Lisboa, 1950, pp. 77-79).