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quinta-feira, 1 de abril de 2010

O JUDEU ERRANTE


A figura do Tio Chico S. Miguel sempre me intrigou.
Conheci-o velho embora só muitos anos depois tivesse morrido de velhice.
Era um homem alto mas, curvado como andava por mor da habituação ao cabo da enchada, parecia de estatura mediana. Por baixo da barba, sempre por fazer, adivinhava-se o rasto do tempo.
Dava dias para fora.
A voz rouca e cavernosa impunha respeito.
Tinha feito a tropa no castelo como cozinheiro, onde conheceu muita gente das outras ilhas e até do continente. Uma passagem, embora fugaz, a trabalhar na "base" permitiu-lhe conhecer gente vinda do outro lado do mundo.
As histórias que contava, algumas reais, tinham sempre um enquadramento misterioso.

A figura do Tio Chico S. Miguel sugeria-me a do Judeu Errante que, a acreditar na sua convicção, ainda anda por aí.
Jurava mesmo já ter ouvido o barulho das suas pesadas botas: - "O fogo me pegue se isto não é verdade!"

" Um sapateiro de Jerusalém, chamado Ahasverus, estava na sua tenda trabalhando quando Jesus passou à sua porta a caminho do calvário. Deixou o que estava a fazer, veio para a rua e, juntando-se aqueles que insultavam Cristo, gritou: - "Vai! Vai-te embora daqui!" Jesus olhou para ele e sentenciou: - "Eu vou! Mas tu ficarás até minha volta!" E Ahasverus ficou, até hoje, errando pelo mundo, sem caminho certo, sem morrer, sem descanso, esperando a volta do Senhor."

O Judeu Errante é um velho alto e magro, andrajoso, com barba e cabelos compridos, que aparece durante a Quinta-Feira Maior e a Sexta-Feira da Paixão quando se celebra a morte de Jesus.

Hoje, sem querer, dei comigo a cismar com ele.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

A NOITE EM QUE A LUA PERDEU O ENCANTO

Estava no CISMI em Tavira a cumprir serviço militar, ao tempo, obrigatório. Poucos dias depois de ter terminado a especialidade de “atirador” do curso de “Cabos Milicianos” e, por isso, já autorizado a frequentar a “sala da classe”. Foi nessa sala, em directo, pela televisão, que pude testemunhar, ainda que incrédulo, os primeiros passos do homem na Lua.
O cansaço provocado pelas longas horas de vigília e a quantidade de cerveja ingerida não eram propícios à clarividência exigida a uma testemunha credível. E, reconheço hoje, com irreparável prejuízo para a minha memória que, pese embora os quarenta anos de distância, não consegue filtrar o essencial do acessório de forma a que me traga, com exactidão, a imagem do facto histórico e dos acontecimentos relevantes que o envolveram.
Mas não consigo esquecer que foi nessa noite quente do Julho algarvio que a lua perdeu, para mim, todo o seu encanto. Aquela veste de donzela imaculada que sempre a envolvera rompia-se ali, à vista de toda a gente, sem nenhuma reserva de pudor. A sua virgindade acabava de ser sacrilegamente conspurcada pelo pé de Neil Armstrong.
O meu avô, como era costume, acordou cedo no dia seguinte. Olhou para o crescente da lua e disse para os seus botões: a mim não me enganam! Só vou acreditar que lá chegaram quando encontrarem o tal homem com o molhe de couves às costas.
Desde então nunca mais voltamos a falar sobre a lua.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

O INVENTOR DO TEAR


Estando Satanás às voltas em como ocupar o tempo, pôs-se a inventar. Foi engendrando várias peças que, juntas, formaram uma máquina esquisita que baptizou de "tear". Dispôs-se então belzebu a tecer o primeiro pano mas, todas as vezes que tentava passar a “lançadeira” por entre a “urdidura”, a “canela” saltava-lhe fora. Impaciente como é, e perante o insucesso da sua invenção, o mafarrico pô-la de parte e nunca mais pensou nela.
Um dia S. José, que era carpinteiro, foi chamado a uma casa para exercer a sua arte e deparou-se com uma armação estranha, que nunca antes tinha visto. Curioso, perguntou para que servia. Responderam-lhe qual a sua finalidade mas que não era possível executá-la porque…e lá explicaram a deficiência a S. José. Pôs-se então o Patrono dos carpinteiros a cismar. Desmontou todas as peças da “máquina”. Estudou-as uma a uma e, algum tempo depois encontrou a solução para o problema: a “broca” – uma pequena peça que, introduzida nos dois extremos da cavidade da “lançadeira”, impedia e saída da “canela”.
Ofereceu então S. José o tear a Nossa Senhora que, a partir de então, passou a utilizá-lo para tecer todos os panos que haviam de vestir Nosso Senhor.

Assim reza a lenda!
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sábado, 4 de abril de 2009

A TEIA E A ARANHA


Quando S. José, Nossa Senhora e o Menino Jesus fugiam para o Egipto, e na eminência da sua captura pelos soldados de Herodes, encontraram refúgio numa gruta. Uma aranha teceu uma teia na entrada, dissimulando-a, impedindo assim que os perseguidores cumprissem as ordens do tirano. Nossa Senhora abençoou então a aranha e a sua teia.
A partir de então:
Matar ou desmanchar uma teia de aranha pode trazer azar para quem o faz.
Uma teia de aranha é sinal de felicidade e de fortuna. É também uma excelente armadilha para exterminar moscas, mosquitos e outros insectos nocivos.
A teia de aranha também tem efeitos curativos e anti-hemorrágicos. Por exemplo: posta sobre a ferida de uma “topada” faz estancar o sangue e acelera a cicatrização.

Depois veio a ASAE e mandou matar todas as aranhas.

Agora percebo porque não consigo acertar no euro milhões; a felicidade anda pelas ruas da amargura; a fortuna foi engolida pela crise e o número de insectos aumentou exponencialmente. Quanto à topada, resta-nos o consolo de que, não havendo teias de aranha, podemos sempre optar por ir engrossar as filas de espera de qualquer serviço de urgência hospitalar.




quinta-feira, 20 de março de 2008

A ERMIDA DO ESPÍRITO SANTO EM ANGRA

Era o ano de mil seiscentos e quarenta, tempo da aclamação do rei D. João IV. Depois de assistir às solenidades da coroação, em Lisboa, Francisco Ornelas da Câmara, capitão-mor da Vila da Praia, regressou à Terceira com uma nobre missão: tal tinha sido o entusiasmo deste fidalgo que o rei o julgou capaz de submeter ao poder português o castelo de Angra, ainda dominado pelos castelhanos.
Ao chegar à ilha, Ornelas da Câmara comunicou ao capitão-mor da cidade de Angra, seu cunhado, João Bettencourt, a missão de que fora incumbido. Onze meses de dificuldades começaram, quer para os terceirenses que tentavam tomar o castelo, quer para os castelhanos que resistiam com bravura. Por fim estes, que haviam sofrido tantas necessidades, renderam-se honrosamente. Francisco Ornelas da Câmara tinha conseguido levar a bom termo a difícil missão, mas não gozou muito tempo o sabor da vitória. Logo apareceram invejosos e intriguistas, de entre os quais o Marquês de Castelo Rodrigo, que tentaram denegrir as qualidades do capitão-mor, conseguindo que fosse, com outros valentes terceirenses, considerado desleal à pátria e, por isso mesmo, encarcerado.
Os longos e penosos dias de prisão eram passados com amargura, mas com confiança de que o Espírito Santo seria seu protector. A filha, Emília de Ornelas, implorava a Deus a sua intercessão. Veio finalmente a sentença: a magistratura de Angra decidiu condenar à morte os acusados que apelaram para os tribunais da Corte.
Para Francisco de Ornelas e família a vida passou a resumir-se a uma difícil espera e confiança no Espírito Santo.
Os juízes de Lisboa tinham dúvidas, nada estava claro e o debate levou dias.
A vinte e três de Março, o Tribunal da Relação de Lisboa proferiu a sentença condenatória. Lavraram, com alguma relutância, a sentença. Quando os juízes iam assiná-la, entrou por uma janela da sala uma pomba alvíssima, que passando rasteira sobre a mesa, virou o tinteiro, tornando invisível o que estava escrito.
Os juízes ficaram maravilhados e concordaram que aquilo tinha sido um sinal de Deus. Lavraram então, com entusiasmo, a sentença de absolvição dos réus.
Francisco Ornelas da Câmara, devoto do Espírito Santo, ao saber o que se tinha passado, prometeu dar todos os anos um grande bodo de seis moios de trigo e seis bois, que ele serviria descalço aos pobres. Prometeu também edificar em honra ao Espírito Santo, na rua dos Quatro Cantos, uma formosa ermida e de trazer para sempre no seu brasão o emblema do Espírito Santo.