quinta-feira, 6 de setembro de 2007

AS QUADRAS

Com o título “O MEIO ALQUEIRE” o meu amigo e distinto cronista Francisco dos Reis Maduro Dias escreveu a 3 de Setembro de 2000, no seu lugar semanal do Diário Insular "VELA DE ESTAI", um artigo no qual comentava o facto de se ter “construído” bem no meio da praça Velha, sobre a soberba manta de tear terceirense que ali se representa (por sinal da autoria de seu pai Mestre Maduro Dias), um “cerrado” onde decorreu uma “encenação” sobre o “ciclo do milho”.
Lá estavam as paredes de pedra bem tapada a delimitarem o cerrado, a terra, depois uns pés de milho e por fim decorreu a desfolhada.
Mais recentemente, por altura das Sanjoaninas de 2007, uma nova encenação desta feita a que chamaram o “ciclo da vinha”, em que se pretendia reconstituir na rua da Sé toda a faina agrícola que é inerente à cultura da vinha. Para tal apanharam uns pés de vinha e para compor o cenário uns araçaleiros e uns ramos de figueira, colocaram-nos ao longo do percurso e lá foram simulando todos os passos que o homem (ainda) dá desde a plantação da vinha até à colheita da uva.
Em qualquer uma destas reconstituições quem já sabia ficou a saber o mesmo, quem não sabia nada aprendeu. É que estas coisas, para terem o mínimo de credibilidade, e para atingirem os objectivos que se anunciam não podem ser só de faz de contas: faz de contas que estou a lavrar, faz de contas que o milho está a nascer, faz de contas que estou a sachar, faz de contas que aqui tem uvas, faz de contas que estou a vindimar, faz de contas…, faz de contas… .

Vem isto a propósito desta nova tendência que os grupos de folclore têm de recorrer às reconstituições.
Nada me move contra elas, antes pelo contrário, sou um forte defensor desta metodologia, desde que se tenham em linha de conta dois aspectos fundamentais: a "quadra" e o lugar.
Os “antigos” regulavam toda a sua actividade anual pelas “quadras” mais do que por qualquer folhinha do ano ou almanaque. Todas as coisas cabiam certinhas nos seus lugares e no seu tempo, na sua “quadra", numa sucessão harmoniosa de acontecimentos. Nada se repetia no mesmo ano. Por isso tudo era apetecível e aguardado sempre com entusiasmo e elevado grau de ansiedade. E isto tanto era verdade para as actividades de lazer como para as actividades agrícolas; para as épocas de reflexão e recolhimento como para as de exaltação e alegria.
Reconstituir é voltar a constituir, é repor, é voltar a fazer da mesma forma, nos mesmos ambientes, nos mesmos lugares, com o mesmo sentido, na mesma “quadra”, de uma forma coerente. Não faz sentido fazer uma reconstituição de uma vindima se não houver uvas; de uma matança de porco no pico do verão; de uma desfolhada na altura das sementeiras; de uma tosquia na força do Inverno. Matar o porco no Alto das Covas é tão falso como o “cerrado” da Praça Velha ou a vindima em pleno mês de Junho: nada faz sentido. Da mesma maneira que não faz sentido pôr um “maio” à janela no 1º de Abril, dizer petas no 1º de Maio, celebrar o Natal no 1º de Novembro ou pedir “pão-por-Deus a 25 de Dezembro. Se o objectivo é mostrar a quem nos visita estas actividades, e como não se consegue mostrá-las todas de uma só vez, então que se reconstitua cada coisa no seu tempo certo e em sítios adequados para cada situação.
Infelizmente hoje assistimos à generalização desta conduta: o “Entrudo” tanto se antecipa a ele próprio como entra pela Quaresma dentro; o S. João com as suas marchas invade todos os outros padroeiros; o próprio Espírito Santo está tão desorientado que também já perdeu a sua “quadra” e o seu lugar: já O temos visto, por aí, em desfiles e cortejos etnográficos.
Para além da minha preocupação como individuo e como cidadão, acresce a do “folclorista”: é que todas estas tropelias acontecem com a chancela dos Grupos de Folclore. São eles ou é a partir deles que quase todas estas coisas acontecem. Com todo o empenho e a melhor das intenções dos seus elementos, é certo, mas também com muita ignorância e ligeireza dos seus responsáveis.
Os Grupos de Folclore são agentes culturais que têm, entre outras, a função de perpetuar as características que nos identificam e nos diferenciam dos outros: primeiro para que nós não as esqueçamos. Só depois para que os outros as vejam. Mas sempre no mais escrupuloso respeito pela verdade.

O COFIT E O FESTIVAL INTERNACIONAL DE FOLCLORE DOS AÇORES

Teve lugar no passado dia 18 de Agosto o espectáculo de encerramento do maior Festival de Folclore dos Açores, organizado pelo COFIT – Comité Organizador de Festivais da Ilha Terceira. A Praça Velha, cenário escolhido pelo terceiro ano consecutivo pela actual estrutura directiva do Festival, encheu-se de gente - mais de 1500 pessoas no dizer dos seus responsáveis - que, numa demonstração de apetência para este tipo de eventos, não regateou aplausos aos doze Grupos participantes.
Depois de alguns anos mais ou menos conturbados e de indefinições, em que as sucessivas direcções do Comité não puderam ou não souberam dar sequência aos bons auspícios dos primeiros anos, é de toda a justiça realçar e aplaudir o trabalho dos seus actuais responsáveis.
A questão fundamental é perceber como é que um festival de folclore nascido e criado no meio do Atlântico, nos Açores, contra todos os condicionalismos por demais conhecidos, conseguiu (com altos e baixos, é certo) sobreviver e, prestes a completar um quarto de século, demonstrar tamanha pujança. Esta questão é tão mais pertinente quando temos notícia de inúmeros festivais no continente, alguns deles carismáticos, que se vão afogando na sua própria saliva.
Claro que um empreendimento com a dimensão do evento deste ano não acontece do nada: tem atrás de si uma história, uma longa história, ela própria mais antiga do que o próprio festival.
Com efeito de 1 a 29 de Agosto de 1981 decorreram em Angra do Heroísmo, no Jardim Duque da Terceira, as “Primeiras Jornadas de Folclore da Ilha Terceira”, organizadas pelo realizador do programa “Nocturno 81” do Rádio Clube de Angra João Manuel Aranda e Silva. Neste evento participaram os Grupos Folclóricos Terceirenses: Doze Ribeiras, de Balhos e Cantares, Os Bravos, Canção Regional Terceirense e Sapateia Açoriana.
Sobre este acontecimento a imprensa escrita de então refere: “Foram enfim, jornadas que encheram de povo o jardim. Que agradaram a todos e até especialmente no último sábado – aos estrangeiros que por aqui passaram. A julgar pela opinião de todos os grupos é uma iniciativa a dar seguimento. E até porque não o embrião de um futuro festival de folclore?...” (DI de 1 de Set. de 1981).
No ano seguinte “Mais de duas mil e quinhentas pessoas encheram… a Praça de Touros de S. João, onde assistiram ao encerramento das Segundas jornadas Folclóricas Verão 82,… Em jeito de conclusão, merecem nota máxima estas jornadas. Porque se destinam a preservar a cultura popular e a aproximar o povo. …” (DI 24 de Agosto de 1982).
Depois do sucesso alcançado com estas Jornadas, embrião do Festival Internacional de Folclore dos Açores, manifestado sobretudo pela aderência popular, não era difícil adivinhar que este projecto, que crescia de audácia na mesma medida do entusiasmo dos seus colaboradores, tinha pernas para andar.
Porquê?
Porque o seu fundador e primeiro impulsionador, Aranda e Silva sugeria já uma estrutura básica e uma orgânica alicerçada em 5 aspectos fundamentais: 1- tinha objectivos; 2- percebia-se já uma organização directiva funcional; 3- tinha definido uma data de referência – 15 de Agosto – em torno da qual se construía todo o programa; 4- tinha em atenção questões de pormenor, tais como as condições de palco, de som, de cenário, etc; 5- tinha espírito crítico e de análise.
Por outro lado soube cultivar a ideia de que este seria o Festival de Folclore por excelência de todos os Grupos da Ilha, evitando-se assim a proliferação, vulgarização e a banalização dos festivais. Esse entendimento, que perdurou entre nós até há bem pouco tempo, não só conseguiu aquele objectivo como também concentrou nele todos os esforços e disponibilidades que fluíam dos próprios Grupos.

As expectativas criadas o ano passado e reforçadas com as deste ano de 2007, elevaram para bem mais alto a fasquia do Festival do próximo ano.
A eminente inclusão do Festival na lista do CIOF, batalha travada arduamente pela actual estrutura directiva do COFIT, vem dar outra responsabilidade aos seus organizadores. A concretizar-se, esta inclusão acontece por mérito próprio e não a troco de qualquer favor
O que queremos e fazemos votos é que, apesar das mudanças directivas que se irão verificar no COFIT num futuro próximo por via de eleições que estão marcadas para o fim deste ano, o próximo Festival Internacional de Folclore dos Açores mantenha a qualidade conseguida nos últimos três anos e continue a ser, (porque não dizê-lo?), “O Maior Festival de Folclore dos Açores" http://www.youtube.com/watch?v=2WNWgvPLhC8&eurl

UMA QUESTÃO DE PATERNIDADE


Entre 29 de Outubro a 5 de Dezembro de 1963, esteve nos Açores uma equipe coordenada por Ernesto Veiga de Oliveira com o objectivo de recolher elementos para a futura colecção de instrumentos Musicais Populares Portugueses. No seu relatório de trabalho de campo, e no que se refere à 2ª estadia na Ilha Terceira, que decorreu entre os dias 27 a 30 de Novembro, lê-se: “Num fim de tarde que se prolongou até cerca das 11 horas, reunimo-nos em casa do senhor Henrique Borba, com o José Martins Pereira – Zé da Lata – o Laureano Correia dos Reis e mais um rapaz e uma rapariga, irmãos, cantadores da Rádio Angra. O Zé da Lata estava constipado, mas sempre cantou algumas coisas, e assim ouvimos um pouco desse folclore terceirense, dolente, romântico, de um italianismo afadistado de interesse reduzido. Em todo o caso as pessoas foram gentilíssimas e o Zé da Lata que é uma personalidade rica e pitoresca, transfigura-se quando canta, que é o seu meio natural.”

Por essa altura comentava uma turista francesa ao ver o Grupo Folclórico da Ilha Terceira (de saudosa memória): “…c'est trés monotone…”

Eis pois um retrato da nossa música popular à época em que supostamente começou a germinar a semente do que viria a ser o “Grupo de Baile da Canção Regional Terceirense”, aquele que é neste momento o mais antigo grupo de folclore em actividade na ilha Terceira.

Ora a ideia e a proposta de criação de um grupo de folclore com as características das do GBCRT partiram da pessoa desse exímio músico que foi Henrique Borba, o anfitrião da equipa de Ernesto Veiga de Oliveira.
Apenas coincidência? A proximidade temporal entre os dois acontecimentos sugere-nos que não. O desalento das personalidades que constituíam a equipa de Ernesto Veiga de Oliveira, bem patente naquele relato, e o de Henrique Borba perante tão desanimador cenário terá sido objecto de conversa entre eles naquele fim de tarde de Novembro e, eventualmente, ter-se-ão aflorado algumas hipóteses no sentido de inverter tão preocupante situação.
A solução arquitectada por Henrique Borba era de absoluta rotura com todos os convencionalismos. De tal forma que sentiu necessidade de esclarecer sobre as motivações e os objectivos que nortearam todo o projecto. E fá-lo no discurso que proferiu no dia da primeira apresentação pública do Grupo de Baile da Canção Regional Terceirense, em 16 de Julho de 1966. Ouçamo-lo:

“Minhas Senhoras e meus Senhores

A comissão organizadora do grupo de bailados que vai apresentar-se deseja esclarecer o seguinte:
Não se pretende alterar o que uma tradição secular impôs como costume, mas apenas demonstrar como, dentro das nossas modas, se lhes pode dar uma interpretação coreográfica tão viva e animada como as do continente Português, ou tão subtil e delicada, como um passo de pavana ou um requebro de minuete.
Com o fim de pôr em prática tal demonstração, precisava-mos de uma entidade que nos dispensasse o seu auxílio e o seu apoio formal e absoluto para a consecução de um fim meramente cultural e também afectivo, pois pareceu-nos ser vantajoso e necessário, para despertar, tanto quanto possível na nossa mocidade, o interesse, a simpatia e o amor pelas canções da nossa Terra.
Porque, note-se, e isto é triste dizê-lo, a canção terceirense – aquilo que de mais representativo temos, em questão de arte, para nos distinguir neste isolamento insular em que vivemos – está em decadência e dentro de um quarto de século desaparecerá (embora latente na alma do povo rude), absorvida no cosmopolitismo do nosso meio, no cinema desbragado das cowboyadas, na canção exótica acompanhada a violas eléctricas e pancadaria de jazz trazidas através da rádio, sem um ideal e sem um sentimento que desperte no ânimo da gente moça uma parcela, mínima que seja, de conservar, a todo o transe, o património riquíssimo da canção terceirense.
Foi talvez pensando nisto que, exposta a ideia ao Senhor Manuel Vale, digníssimo Presidente da Direcção da Recreio dos Artistas, ele prontamente a acarinhou e a submeteu ao parecer dos membros da Direcção da sua presidência, que resolveram não só dar o palco do seu teatro ao ar livre para os ensaios do Grupo, como também patrocinar este empreendimento, concorrendo com as verbas necessárias para a sua realização e ainda com as despesas indispensáveis para a indumentária do Grupo….”

Sobre o papel – indispensável, afirmamos nós – desempenhado pela poetisa Maria Francisca Bettencourt, a Maria do Céu, Henrique Borba sente a mesma necessidade de esclarecer:

“A realização deste cometimento esteve a cargo de uma comissão composta pela Senhora D. Maria Francisca Bettencourt (Maria do Céu), pelo autor da ideia e pelos senhores Laureano Correia dos Reis, Rodolfo Brum e João Noronha de Borba, assistido pelo Senhor Cândido Félix, como delegado da Direcção da Recreio dos Artistas, de quem recebemos as maiores provas de interesse, de boa vontade e, sobretudo, de estímulo.”

Henrique Borba continua a sua esclarecimento aflorando algumas questões de pormenor, como sejam o nome a dar ao Grupo e o da adaptação da musical, e continua:

“Como prancha de salvação, surgiu-nos uma magnífica rapsódia para piano, em forma de suite, da autoria de Maria do Céu, génio de poetisa e de artista, em cuja alma Terceirense dançam e cantam constantemente as modas da sua querida terra, da ilha Rubra, como ela quer que lhe chamem nos lindos versos da sua autoria, que hoje serão recitados, em confirmação da cor rubra dos vestidos das raparigas deste grupo, executados também sob orientação de Maria do Céu.
Neste aspecto, o problema estava solucionado. A execução do piano poderia adaptar-se às violas de arame, bem como a um acordeão para tornar mais salientes os acompanhamentos e dar mais recreio sonoro ao conjunto musical, sobretudo para quando se houver de bailar sem piano.
Depois disto, tínhamos ainda o problema da interpretação coreográfica de cada moda.
Na verdade, como interpretar por um bailado animado melodias na sua maior parte constituídas por andamentos lentos, sem lhes alterar o ritmo? Foi ainda Maria do Céu que nos tirou de tal embaraço. Como deixámos dito, na sua alma de Terceirense, sensivelmente impressionada, bailam e cantam as nossas modas. Ela já as tinha cantado na sua rapsódia; faltava-lhe apenas exteriorizá-las coreograficamente. Foi isto o que fez e que V. Excias. dentro de momentos irão ver e apreciar, como apreciarão os versos de todas as cantigas que são também da sua autoria”.

Perfeitamente discutível quanto perigosa se utilizada de forma desadequada, esta nova metodologia teve e tem ainda, pelo menos, o mérito de agitar as consciências e de abrir novos caminhos para a representação “folclórica”.
Os 15 grupos de folclore que se formaram na ilha desde então e que mobilizam centenas de entusiastas, têm como referência esta nova matriz. Pena que, a maior parte deles, desconheçam por completo o trabalho que desenvolvem, embora o façam com paixão e irrepreensível entrega.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

CONSTRUÇÃO DE UMA IDENTIDADE


· A IDENTIDADE DE UM "POVO" ILHÉU

1. A origem dos povoadores
2. O isolamento
3. O mar
4. O clima
5. O potencial natural
6. Influências externas

· A IDENTIDADE DO "POVO" AÇORIANO

1. Origem dos povoadores
a- portugueses
do norte
do centro
do sul
b- da Europa
do norte
central

2. O isolamento
a- entre as ilhas
b- com o exterior

3. O mar
como fonte de subsistência e como fronteira
4. O clima
temperado, marítimo, alta % de humidade, temperaturas amenas
5. Potencial natural
origem vulcânica das ilhas, terrenos férteis; grande abundância de água
6. Influências
de Portugal continental por via do povoamento e da soberania;
de África, do Oriente, das Américas, por via dos descobrimentos e comércio;
de Espanha (Castela) por via da ocupação;
da Europa do Norte por via de transacções comerciais;

· A IDENTIDADE DO "POVO" TERCEIRENSE

1. Os primeiros povoadores vieram maioritariamente do centro e sul de Portugal continental

2. O isolamento inicial foi gradualmente substituído pela importância da “angra” de Angra do Heroísmo no abrigo, reparação e aguada das naus do reino na torna viagem e, mais tarde, pelo incremento comercial com o Norte da Europa – comércio de pastel, laranja, vinho. A localização geográfica da ilha numa posição central do arquipélago aufere-lhe o estatuto de “capital”cosmopolita: Angra é a primeira cidade dos Açores, é constituída como sede do Bispado e é, por duas vezes, capital do Reino.

3. Foi pelo mar que chegaram e é pelo mar que vêem partir. O mar dá-lhes sustento e tira-lhes os homens. Pelo mar chega quem lhes traz e quem lhes tira. O mar que os separa é o mesmo que os une.

4. Um clima temperado, marítimo, com elevada % de humidade e com temperaturas amenas quase todo o ano são ingredientes propícios para a generalização dos nevoeiros e das neblinas. A associação de todos estes elementos provoca o que alguém chamou de “azorean torpor”.

5. As cinzas vulcânicas, a abundância de água – como sabemos a pluviosidade nos Açores é elevada – e todas as demais condições edafo-climáticas conjugadas tornam os terrenos extremamente férteis. A terra dá tudo o que o homem precisa para sobreviver: o pão para a boca, a madeira para o lume, o alimento para o gado, o vinho para o bodo, o fio para o tear, o barro para a faiança.

6. A aculturação é um fenómeno invisível que é comum a todos os povos: há sempre a tendência de experimentar o que, sendo de outros, é novo para nós. Foi e é assim: são as modas. O que se adapta à comum vivência é indelével e naturalmente assimilado e perpetuado: passa a ser nosso sem sabermos quando e onde começou. O resultado é, de uma forma metafórica, um “imenso rio que, tendo origem numa pequena nascente vai engrossando o seu caudal à custa dos seus afluentes”.

Para a caracterização da cultura do "povo" Terceirense há que ter em conta, desde logo: a diversidade da origem dos povoadores, a sua particular adaptação às condições físicas que se lhes depararam e a forma como a elas reagiram; as relações estabelecidas com o exterior (com quem e por quanto tempo) e por último, mas não menos importante o seu poder criativo. Sempre num processo evolutivo: em que cada dia, sendo diferente do anterior, prepara o dia seguinte. Foi e é ainda hoje assim: a cultura, qualquer que seja, não é estática nem imutável: é algo que acontece e se transforma a cada momento.
Esta caminhada que se iniciou no dia em que, pela primeira vez, o homem pisou esta terra só terá fim quando dela sair o último.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Conceitos 3

Para o Prof. TOMÁS RIBAS, a cultura popular é “aquela cultura espiritual, social e material que é a tradição (em constante transformação, é certo) dos usos, costumes, formas de pensar e agir, expressões de criação artística, normas de vida e organização social, modos de trabalho, artesanato, etc.... Assim de certo modo cultura é tradição.
O principal veículo da cultura é a linguagem, indispensável à comunicação dos indivíduos entre si. Outro básico veiculo da cultura é a tradição, já que é pela tradição que passa de geração em geração que se mantêm os usos e costumes de cada grupo étnico ou cada grupo social.

O Folclore é um departamento auxiliar da ETNOLOGIA:

O etnógrafo recolhe, detecta e elabora documentos: não faz doutrina.
O etnólogo pergunta, quer saber o porquê e o como dessas recolhas.

Enquanto a Etnologia estuda actividades e objectos concretos, materiais, o FOLCLORE estuda actividades e objectos espirituais e artísticos, tradições, usos e costumes, etc.

Conceitos 2

GERVÁSIO LIMA em PRIMEIRAS PALAVRAS do seu livro CANTADORES diz: “... E qual terá mais direito ao nosso carinhoso afecto, mais juz à admiração publica e mais razão para a olharmos demoradamente?
Será a flor que no reservado canteiro dos jardins, no alimento suave das regas ou no conforto das estufas, brota rodeada de atenções e cuidados, ou aquela que na aldeia humilde surge, ao abandono, entre ervagens rústicas e daninhas e rebanhos devastadores e selvagens.
Não nos admira a cor, a forma, o perfume duma planta criada entre abrigos e afagos, sob o amparo protector de alguém e até o especial adubo tonificante e o artificial colorido; mas espanta-nos o ver como de entre silvados e abrolhos, entre rochedos e fraguas, açoutadas pela tempestade, vergastadas pela nortada, causticadas pelas canículas, calcadas aos pés, torturadas pela necessidade d’amparo ou abrigo, há flores que vegetam em luta contra todos os elementos, triunfando de tudo, erguendo-se e distinguindo-se, deslumbrando pela maravilha da apresentação.”

Conceitos 1


Na revista INSULA de Abril de 1932, o Dr. AGNELO CASIMIRO, distinto advogado e jornalista, nascido no continente mas, por motivos afectivos e laços familiares AÇOREANO confesso, e a pretexto da apresentação do livro de Gervásio Lima “POETAS E CANTADORES” levado à estampa no ano anterior pela EDITORA ANDRADE, dizia: “O folklore é, com efeito, um aspecto da vida intelectual dos povos, que tem merecido o interesse dos mais esclarecidos espíritos da humanidade, desde que MACPHERSON, os IRMÃOS GRIMM, HERDER e outros souberam encontrar nas manifestações da alma popular o mais precioso elemento para definir o “estro” específico de uma raça e as afinidades étnicas que as aproximam.”
Em Portugal, continua mais à frente o Dr. AGNELO CASIMIRO, foi GARRETT quem na luta formidanda do “romantismo” contra o “classicismo” soube fazer vingar e triunfar uma nova renascença da poesia nacional e popular, partindo do princípio de que “nenhuma cousa pode ser nacional se não é popular”. É ainda GARRETT que afirma com notável segurança e fé que quem não tem olhado senão à superfície da nossa literatura, quem cego do brilho clássico das nossas tantas epopeias, seduzido pela flauta mágica dos nossos bucólicos, entusiasmado pelo estro tão rico e variado dos inumeráveis poetas que, nos quartetos e tercetos sicilianos da elegia, da epístola e do soneto, rivalizam, e tantas vezes com vantagem com o próprio PETRARCHA... não crê, não suspeita, há-de ficar maravilhado de ouvir dizer, como eu quero dizer e provar no presente trabalho (O ROMANCEIRO) que ao pé, por baixo dessa aristocracia de poetas, que nem a viam talvez, andava, cantava, e nem com o desprezo morria, outra literatura que era a verdadeira nacional, a popular..."



sábado, 18 de agosto de 2007

A PRAGA

A proliferação de Grupos de Folclore na Ilha Terceira nos últimos anos ameaça tornar-se numa praga. E, tal como outras pragas, se não for tomada nenhuma medida de prevenção, a infestação tomará tal dimensão que nada nem ninguém conseguirá pôr-lhe termo. E assim teremos daqui a alguns anos, tal como temos hoje em relação a outras pragas - a criptoméria e a hortênsia, por exemplo de entre outras muitas - , a convicção de que elas, as pragas, é que são autênticas, genuínas, endémicas, muito nossas. Serão?
Este espaço que agora ouso criar é, ou melhor, pretende ser preferencialmente de debate de ideias, porque as há e muito diversas, sempre no respeito mútuo que deve orientar qualquer discussão bem fundamentada.
Aqui traremos as nossas opiniões, resultantes de reflecções pessoais principalmente sobre a problemática da criação e da sustentação destes grupos - os motivos, os objectivos, as recolhas, as reposições, os espectáculos, a representatividade, os trajes, os utensílios, as posturas, etc., - baseadas em muitos anos de experiência vivida intensamente no seio de um grupo.
Claro que falaremos preferencialmente da Ilha Terceira por a conhecermos melhor, mas os seus problemas são iguais aos das outras ilhas, assim como o são em relação aos do continente Português. Por isso mesmo esperamos ter comentários e participações de qualquer pessoa que, apaixonada como nós por esta matéria, queira dar o seu contributo.

Largada. A todo o pano.