terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

ANDAM A TRAMAR A TRADIÇÃO

A tradição do Carnaval na Ilha Terceira é um fenómeno interessante de resistência ao estereótipo brasileiro, contrariando o que acontece um pouco por toda a parte onde é festejado. Uma resistência pacífica, sem dirigismos nem tutela, que provém apenas da vontade do “povo”.
As manifestações de Entrudo na Terceira tomam a forma de “danças de espada”, “danças de pandeiro”, “bailhinhos” e “comédias” e são, na opinião abalizada de José Orlando Bretão (1939 - 1998) advogado e estudioso do folclore açoriano, em especial das danças de Carnaval, exemplos de teatro puro, reminiscências do teatro medieval. São também para este investigador, a única e a última manifestação de cultura verdadeiramente tradicional e popular desta Ilha. Como ele gostava de sublinhar este é “o maior festival de teatro do mundo”.
A sua vitalidade pode medir-se pelos números aproximados deste ano, que pecarão certamente por defeito: 60 grupos organizados, envolvendo cerca de 2 000 pessoas, de entre músicos, actores, costureiras, autores de enredos e das músicas, ajudantes, etc., etc.. Efectuaram-se cerca de 1 600 representações para um público estimado em mais de 30 000 espectadores, numa ilha com pouco mais de 60 000 habitantes. Isto em apenas 4 dias! É obra!
Perante tamanho vigor pode concluir-se que esta tradição está de pedra e cal.
Estará?
No que diz respeito ao empenho popular e ao seu envolvimento espontâneo nesta tradição, não restarão dúvidas que sim e, o que é muito importante, de uma forma transversal a todos os sexos, idades e condições sociais. Exemplos inteligentes de criatividade e inovação nos textos dos enredos e nas músicas também não faltam. A qualidade dos actores e dos executantes musicais é cada vez mais apurada. A evolução é endócrina, permanente e natural e é, ao fim e ao cabo, o que mantém viva a tradição evitando assim a sua “folkorização”.
Mas existem alguns sinais de perigo que, de forma dissimulada, começam a minar esta herança cultural. Sem exaustão vou referir apenas aqueles que, quanto a mim são os mais gritantes:

1 – A crescente banalização dos eventos com o prolongamento das exibições fora da quadra carnavalesca como vem acontecendo nos últimos anos. Neste capítulo julgo que muita da responsabilidade cabe aos próprios grupos que, provavelmente com a melhor das intenções, estão a satisfazer interesses que não os seus. É que, lá diz o velho ditado, “o melhor da festa é esperar por ela”. Tal como defendi em outro artigo deste blog – As Quadras – tudo tem o seu tempo próprio ou então cheira a mentira, a vigarice, a artificialismo. A continuar assim, daqui por algum tempo, poderemos ver danças e bailinhos de Carnaval o ano todo, transformados em espectáculos de teatro ligeiro e de variedades.

2 - A moderna tendência de classificar as “danças e os bailinhos” fomentada e veiculada pelos órgãos de comunicação social pode vir a tornar-se uma arma letal par a maioria destes. Por tradição os grupos organizam-se sem intuitos competitivos, tendo apenas como único objectivo o aspecto lúdico. A criação de uma “divisão de elite”, onde só caberão apenas alguns, irá resultar inexoravelmente no desaparecimento dos preteridos.

3 – Todas as tentativas de regulamentação da acção destes grupos devem ser evitadas. Mesmo que aparentemente inofensivas como é o caso da hipotética calendarização das exibições e a organização dos percursos. Cada grupo deve gerir internamente todos os passos que irá percorrer desde a hora em que os elementos se juntam e decidem organizar-se até à última actuação de terça-feira gorda.

4 – A concentração dos espectáculos em grandes pavilhões multiusos, auditórios ou teatros, em detrimento das Sociedades Recreativas das freguesias rurais, é uma tendência recente que vem prejudicar e descaracterizar toda a envolvente da festa. O Carnaval tradicional na Terceira é um autêntico festival dos sentidos: é ver e ouvir “danças e bailinhos”; é tocar e abraçar o amigo que já não se via há algum tempo; é cheirar os petiscos que se preparam nos bares das sociedades; é provar da merenda que o ocupante da cadeira ao lado preparou para estes dias.
Por outro lado as “danças e bailinhos” são espectáculos de proximidade, em que os “artistas” e o público quase se tocam. O convencionalismo dos grandes espaços cria um fosso entre o palco e a plateia impossibilitando essa simbiose.

O diagnóstico precoce destes ou de outros perigos que espreitam esta herança cultural e a sua consequente denúncia é a única arma ao nosso alcance para fazer frente àqueles que, voluntária ou involuntariamente, andam a tramar a tradição

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

CADA UM ESTÁ P'RÓ QUE NASCE

Francisco Lacerda (1869-1934), maestro das fajãs, Jorgense do mundo, teve como um dos seus ídolos um tal Francisco Ceguinho, terceirense, tocador de viola. E de tal modo o tinha em consideração que o fez seu hóspede durante uma visita que o Ceguinho efectuou a S. Jorge em altura que o genial músico se encontrava a espairecer na sua Ribeira Seca natal.
No silêncio da Ilha ouviram-se por esses dias, diz-se, as mais belas melodias alguma vez retiradas das cordas de uma viola.
Lacerda, na sua visão universal da música, tinha pelas cantigas simples do povo e pelos seus executantes uma grande paixão e um enorme respeito.
Vitorino Nemésio (1901-1978) inventor da açorianiedade, catedrático dos saberes do povo, homem de paixões exuberantes e arrebatadoras, também tinha por ídolo o popular José da Lata, bravo pastor de cantigas e de gado, “mandador de bailes”, dono de uma voz de anjo, doce e escorreita e que, embora com menos desembaraço, também “rasgava” à viola. Por ele revelava uma admiração imensa.
Nemésio e Lacerda nutriam um fascínio indisfarçável pela “viola da terra”.
Se para Lacerda a viola fosse apenas mais um veículo revelador dos seus dotes musicais, para o Professor constitui-se sempre como um obstáculo ao seu saber universal. Apesar disso nunca se inibiu de a tanger sempre com a benevolente complacência dos circunstantes, mau grado a sua frequência em 1964 na Classe de Viola do Prof. Emilio Pujol (1886-1980) do Conservatório Nacional. Lá diz o velho ditado: “cada um está p'ró que nasce”.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

COSTUMES



Isto de costumes tem muito que se lhe diga. Num periódico local de 1895 (A União) ainda se assinalava uma antiga costumeira nas celebrações matrimoniais ocorridas na freguesia dos Biscoitos, freguesia que se prezava não só nos verdelhos como também nos vinhateiros, pois foi essencialmente e ainda é dos lugares mais apreciados de vinho verdelho que adquiriu justa fama.
Conta-se então que por volta de 1860 «ninguém se casava de entre os principais do lugar que não fosse de sobrecasaca de pano fino azul e chapéu alto; mas um fato assim era caro e não havia meios para o obter: tudo se remediava, porém, pedindo-se emprestada a sobrecasaca e o chapéu alto de uso de certo indivíduo da freguesia, que de boa vontade emprestava esses aprestos dos noivos. De sorte que raro era o noivo em que não servisse aquela sobrecasaca e aquele chapéu. Era engraçado, caricato mesmo, mas não ofendia». Para tal traje masculino só não encontrámos ainda notícia de como seria o da noiva, naturalmente mais castiço e gracioso, mas, duvida-se, que emprestado!...

V.M
(Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira 2004)

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

ELOGIO À VIOLA



Cantigas à minha viola


Ó viola encordoada
Com quinze cravos de aposta,
Minha pêra acinturada,
Minha maçã de Bemposta

Quando te toco nas cordas,
À boca do coração,
Vou-me sangrando em saúde
Que nem sumo de limão.

Tens os pontos doiradinhos,
Tens os espaços de luto,
Cada prima é uma flor,
Cada cravelha é um fruto...

Cada bordão é um zangão,
Cada toeira uma abelha,
Ó jardim de madrepérola
Da minha festa vermelha!

Letrinha de 8 somada
Pelas tuas seis parcelas
Mai-las minhas mãos cansadas,
Amarelas... amarelas...

Pendurada a tiracolo
No teu cordão cor de vinho,
És o meu saco de cego,
O meu burro e o meu moinho.

No florão da minha viola
Pus uma tira de espelho,
Para ver, de quando em quando,
Se estou novo, se estou velho.

Na caixa da minha viola
Há um letreiro que diz:
V. DA SILVA, VIOLEIRO,
ILHA TERCEIRA – PARIS.

Mas um tolo, um engraçado,
Colou com cuspo uns tarjões:
V. DA SILVA, CANGALHEIRO DE ALMAS,
FAZ VIOLAS E CAIXÕES.

Meu amor, deixa falar!
Dorme, não percas a esperança!
Morta, na minha viola,
Serás como uma criança.

Que seis meninas de arame
É que te levam à campa,
Com seis florinhas de pau
Espetadinhas na tampa.

E o limão, a violeta,
A madrepérola, o espelhinho
Hão-de te servir de terra
E de mortalha de linho.

Minha viola de luxo,
Minha enxada de cantar,
Meu instrumento de fogo,
Caixinha do meu chorar!

Viola, bordão de prata,
Vida violeta, violeta...
Prima, coração me mata...
Poeta! Poeta! Poeta!


(Vitorino Nemésio (1901-1978), Festa Redonda, Lisboa, 1950, pp. 77-79).

domingo, 6 de janeiro de 2008

CANTAR OS REIS

Nesta época Natalícia e, segundo os organizadores, para se cumprir a tradição, vão realizar-se um pouco por todo o país as “cantatas de reis”. Estes eventos anunciados para se realizarem em salões de festas de sociedades recreativas, pavilhões polivalentes, sedes de juntas de freguesia, ginásios das escolas, auditórios, etc. ou tão só em forma de desfile pelas ruas principais das freguesias, vilas ou cidades são, quanto a nós, mais uma a juntar a tantas outras formas de se acabar definitivamente com a verdadeira “tradição de cantar os reis”.
“Cantar os reis” tem, como qualquer outra actividade da cultura popular, um tempo, um espaço e uma função própria.
O tempo é este, em que se comemora o nascimento de Jesus e que vai desde 25 de Dezembro até 6 de Janeiro, tradicionalmente o dia de Reis. A importância deste dia conferiu-lhe, durante muitos anos, o estatuto de “dia Santo”, logo dia feriado. Em muitos países é ainda este o dia mais importante da celebração do Natal.
Nalgumas localidades o cíclo Natalício só termina a 2 de Fevereiro, dia dedicado à luz, às estrelas ou às candeias. Dia em que a liturgia Católica comemora Nossa Senhora das Candeias ou da Candelária. Tradicionalmente era também durante este período que se realizavam as matanças do porco. Assim os ranchos de Reis tanto saíam para cantar loas ao “menino Jesus” como para enaltecer os “toucinhos” de uma matança. As toadas com que o faziam eram em todo semelhantes na estrutura, embora com variantes melódicas para cada uma das funções.
Os espaços em que se movimentavam estes ranchos eram as casas dos amigos e dos familiares em visitas, quase sempre de surpresa, para provar a “mija do menino”, ou no caso das matanças, para se avaliar e comparar os predicados do “porco”. Daí que a função desta manifestação fosse essencialmente social.
E hoje? Não será possível continuar a tradição sem a desvirtuar nestes princípios? Claro que sim. É perfeitamente possível. É o que temos feito de há 15 anos a esta parte, de uma forma pioneira e que, felizmente, tem motivado o aparecimento de outros ranchos: continua a celebrar-se o Natal e a haver matanças do porco; continua a haver amigos e a realizarem-se visitas; apesar dos tempos, o homem continua a ser “animal” social. Assim a tradição, a verdadeira tradição, não está, aparentemente, em perigo de se perder. A não ser que os poderes percam por completo o juízo e teimem em continuar a “meter a foice em seara alheia”.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

EGO EM ALTA


Em Agosto último a revista canadiana “Islands” colocou a açoriana Ilha do Pico numa lista das 20 melhores ilhas do mundo para se viver a par das Penang (Malasia); Utila (Honduras); Aruba (Caraíbas); St.Kitts (Antilhas); Taveuni (Fiji); Union Island (St. Vicent e Grenadines); Norfolk island (Austrália); Isla Colon (Panamá); Gozo (Malta); Carriacou (Grenadines); Dominica (Caraíbas); Éfaté (Vanuatu); Nova Zelandia, Long island (Bahamas); Big Island (Hawai); Cedar Key (Florida, EUA); Grand Cayman; Negros Oriental (Filipinas); Vieques (Porto Rico). " (...) O clima é considerado ameno e nebuloso e é destacada a honestidade e amabilidade das pessoas da ilha. A paisagem da Vinha património mundial da UNESCO não é esquecida mas o grande destaque vai para a montanha. "É uma ilha que dispõe dos ares mais puros do planeta"

Agora vem a revista “National Geografic Travel” colocar os Açores em segundo lugar, numa lista de 111 ilhas e arquipélagos analisados sob o ponto de vista do equilíbrio entre a sua condição de destino turístico e o desenvolvimento sustentável. Para apuramento dessa classificação, que a publicação divulga anualmente, foram ouvidos 522 especialistas em turismo sustentável que registam os destinos em risco de sucumbir à pressão turística e os que conseguiram encontrar um equilíbrio.
“Um sítio maravilhoso”, “ambiente em boa forma” e “habitantes muito sofisticados” são apenas algumas das conclusões a que chegaram os especialistas para, numa pontuação de zero a cem, atribuírem ao arquipélago 84 pontos. “O ecossistema está em grande forma. As baleias são ainda uma visão comum. A cultura local é forte e vibrante. È comum ser convidado para casa das pessoas para jantar, ou ser recebido com uma refeição comunal durante um festival” são ainda argumentos determinantes para esta classificação.

Nestas duas classificações que fizeram engordar o meu ego, confesso, são comuns os itens em análise de onde sobressaem as avaliações às pessoas e à cultura. É, ao fim e ao cabo, um julgamento à nossa consciência colectiva e um reconhecimento, à escala planetária, da forma como temos trabalhado na preservação da nossa própria identidade.

domingo, 28 de outubro de 2007

A VIOLA DE ARAME DA ILHA TERCEIRA


PEQUENO CONTRIBUTO PARA O ESTUDO DA ORIGEM E EVOLUÇÃO

O primeiro tratado escrito sobre um novo instrumento, denominado expressamente “Guitarra Espanhola”, data de 1586 e é da autoria de JUAN CARLOS AMAT . Este novo instrumento tem 5 ordens de cordas e afina “lá ré sol si mi” do grave para o agudo.

No séc. XVII está largamente difundido em Portugal.

Em 1789 publica-se em Coimbra a nova arte da viola, de MANUEL DA PAIXÃO RIBEIRO. Segundo ele, a viola tem 5 ordens de cordas, armando com 12, com a afinação do agudo para o grave mi si sol ré lá, sendo as três primeiras duplas e as duas últimas triplas.

“A viola, devido às suas possibilidades e regularidade cromática e maleabilidade de afinação, acompanhou e adaptou-se facilmente às transformações que a música sofreu no decurso dos séc. XVII e XVIII, apresentando-se hoje como o instrumento popular próprio da música do tipo recente, mais acessível ao gosto actual do povo, contrapondo-se aos instrumentos do ciclo pastoril - a gaita de foles, o tamboril, a flauta e o adufe, especificamente ajustados às escalas e exigências rítmicas da música arcaica, austera e cerimonial ou mesmo festiva.” (ERNESTO VEIGA DE OLIVEIRA)

A viola chega aos Açores provavelmente em finais do sec. XVI ou princípios do sec. XVII. No arquipélago toma características comuns a todas as ilhas, o que nos leva, com toda a certeza, a considerar a existência de uma “viola tradicional açoriana” e englobá-la na grande família das violas Portuguesas, - eventualmente uma irmã gémea da viola coimbrã. Esta viola manteve as suas características fundamentais primitivas em todas as Ilhas, mas aqui e acolá foi adquirindo particularidades estéticas diferenciadas, sabendo-se por elas a sua origem A afinação foi sofrendo também algumas alterações, prevalecendo no entanto na maioria das ilhas a afinação original.
É apenas na Ilha Terceira que nos aparece, provavelmente na segunda metade do séc. XIX, um instrumento semelhante às violas Açorianas, exibindo no entanto algumas diferenças fundamentais: é acrescentada às suas cinco parcelas mais uma ordem de 3 cordas que afinam em mi; a caixa de ressonância é aumentada, assim como o braço, aumentando simultaneamente o número de pontos – trastes - dando-lhe mais potencialidades para a execução dos exigentes temas musicais tradicionais terceirenses.
A forma de tocar assume aqui uma componente muito relevante: passa-se do rasgar puro e simples, quase sempre com o polegar, de cima para baixo, como acontece ainda hoje por exemplo nas ilhas de S. Miguel ou das Flores para um dedilhar de baixo para cima, utilizando o indicador, reservando o polegar para eventuais acompanhamentos nas cordas graves. Esta nova forma de tocar aumenta de executantes à medida que vão desaparecendo as motivações pelas quais as pessoas se juntavam e dançavam as modas tradicionais em que era bastante marcar, rasgando, o compasso e os tons da música que era cantada por todos, sem se dar grande importância à voz realçando-se acima de tudo o texto das quadras ou sextilhas que eram “atiradas” em permanente despique.
Mas é sobretudo com o aparecimento dos modernos meios de retenção e difusão áudio, que aparecem os virtuosos executantes deste instrumento. Retirados de todo o contexto, eles assumem aqui um papel de topo, tal como os cantadores. O que é importante agora é a execução musical e a voz do cantador. Às músicas simples do povo são acrescentados magníficos rendilhados tantos quantos o poder de criatividade do executante lhe permitissem.
É esta forma de tocar e este instrumento que nos é deixado como herança, e é sobre ele que recai hoje em dia toda a responsabilidade melódica das músicas populares terceirenses, dançadas e recriadas pelos grupos de Folclore.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

DOIS TEXTOS E UMA OPINIÃO


Não resisto à tentação de partilhar com todos os meus leitores dois textos de Maud Pauline Karpeles (1885-1976) com os quais dei de caras, há alguns dias atrás, num artigo publicado em 1957 na revista Brasileira de Porto Alegre “Província de São Pedro”.

1 - UMA RIQUEZA UNIVERSAL: A MÚSICA FOLCLÓRICA

Todo o esforço artístico pode vir a ser um factor de aproximação social: todos estão, sem dúvida, convencidos e não há necessidade de sublinhar que esta proposição é particularmente verdadeira no que se refere à música, a mais universal de todas as artes.
É preciso admitir, entretanto, que certas formas de música exercem, em geral, maior atractivo do que outras e que, em consequência, varia a sua influência como elemento de aproximação.
Proponho-me a mostrar que a natureza da música folclórica é capaz de agradar a todo o mundo, sem distinção de classe social ou de nível cultural.
Há alguns anos recolhi cantos folclóricos na Terra Nova. Achava-me em casa de uma família de pescadores, num lugarejo costeiro, muito afastado. Passamos uma tarde agradabilíssima, a cantar cada um por sua vez e no momento em que eu me ia recolher, dado o avançado da hora, o pescador, virando-se para a sua mulher, disse-lhe: “é verdadeiramente curioso que uma estrangeira pudesse ser a tal ponto tão igual a nós”. O pescador iletrado reconhecia assim que a música folclórica constitui um elemento de aproximação social, embora não tivesse empregue os termos citados.
É lamentável que os músicos cultos nem sempre apreciem a música folclórica com seu justo valor, pelo facto de terem assumido a seu respeito uma certa atitude condescendente; eu diria mesmo: um certo snobismo. Essa atitude resulta, em grande parte, da falsa ideia que fazem da natureza desta música. Consideram-na como música primitiva, como matéria-prima que o compositor pode utilizar e transformarem obra de arte, embora, por ela mesma, não sirva senão de distracção para crianças e para os que a desconhecem. Ouvi, um dia, um eminente músico exprimir deliberadamente essa opinião. “Não seria lamentável, dizia ele, que toda a nossa formação e todos os nossos estudos não nos tenham elevado acima desta música de camponeses ignorantes e incultos: “ Rouxinol, eu farei como o rouxinol…”.
O erro consiste precisamente em pensar que a expressão artística depende necessariamente do ensino de carácter escolar que se recebeu. Equivale a acreditar que o homem seria incapaz de se exprimir se o gramático não lhe viesse ensinar a fazer uso das palavras. É evidente que, se o homem canta e dança é porque o canto e a dança lhe são inatos. Recordemos aqui estas palavras de Epiceto: “Rouxinol eu faria como o rouxinol, Cisne, eu faria como o cisne. Mas como sou um ser racional, eu devo cantar para Deus”.
Entretanto, não se deve considerar a música folclórica como uma efusão espontânea e vaga da alma humana. A música folclórica tem suas leis e seus princípios que, por serem aplicados inconscientemente, não são por isso mesmo certos. Um canto ou uma dança folclórica não nasce espontaneamente de uma emoção qualquer. Neste domínio, todo o cantador ou dançarino, embora sendo grande a sua facilidade de improvisação, segue de maneira geral, certos modelos estabelecidos pela tradição que lhe chegaram por transmissão oral.
Um canto folclórico distingue-se de um trecho de canto clássico não porque fosse ele escrito sem arte, mas porque em lugar de ser uma obra de um só individuo é o produto complexo de diversas gerações de cantores que, após muitas apalpadelas, terminaram por achar a forma de expressão que convinha melhor ao génio da comunidade. É preciso aqui distinguir música folclórica autêntica e a chamada música popular.
A música folclórica é uma herança do passado, porém ela guardou a sua frescura e a sua vitalidade graças às transformações constantes que influiu nela no curso da transmissão oral. A música dita popular, ao contrário, é uma obra individual, que acometeu a imaginação popular, mas somente de maneira superficial; não tendo nenhuma raiz profunda no passado, não tardará geralmente em desaparecer.
Segundo o meu ponto de vista, seria utilíssimo para a causa da cultura e para o bem do público, em geral, que os educadores especializados reconheçam a verdadeira natureza da música folclórica e a apresentem como uma forma de arte tendo sua beleza intrínseca, digna de ser cultivada por ela mesma. Infelizmente, na maior parte dos países que são a vanguarda do progresso – ou, pelo menos, do que se possa assim chamar – a música folclórica, negligenciada, cai no esquecimento e não se mantém mais senão entre as populações rurais, menos sensíveis à influência da civilização moderna; assim à medida que a civilização se estende, a música folclórica desaparece.


2 – MÚSICA CLÁSSICA, OU MÚSICA DE CLASSE?


Desta situação provém, em grande parte, parece-me, a atitude dos músicos profissionais de empregarem idioma musical estrangeiro, porque desconhecem a música folclórica do seu próprio país. Disto resulta que uma grande parte da população é indiferente à música de concertos como um abismo entre a música dos “intelectuais” e a música do “vulgo”. As massas operárias não conhecem nem a música de concerto, nem a música folclórica, mas se distraem a ouvir jazz, ou seus últimos sucedâneos e coisas sentimentais sem valor artístico. Ninguém gosta de ser considerado como “antiquado”: assim como o cidadão moderno é inclinado a desdenhar a música folclórica, o camponês apressa-se em imitá-lo.
Em compensação o menor estímulo é suficiente para o cantor ou o dançarino folclórico exaltar a fé na sua arte. Mas este encorajamento não deve tomar a aparência de uma paternidade condescendente. De nade serviria incentivar a música folclórica porque nós a julgaríamos melhor para certas classes da sociedade, mas não suficientes para nós mesmos.
Como acontece na música folclórica e como em todas as outras formas artísticas, seu campo é limitado. Mas, dentro destes limites, as melhores obras do folclore são comparáveis às dos grandes mestres.
Não considerei até aqui a música folclórica sobre o plano nacional, mas é de supor-se que existe em uma certa comunidade de pensamento e de um mesmo modo de vida. Apresenta-se a questão em saber se a música folclórica pode agir como elemento de aproximação social, quer no plano internacional quer no plano nacional. Pessoalmente, creio, com alguma reserva, que se deve conhecer perfeitamente a música folclórica do seu próprio país antes mesmo de tentar compreender a de outros. Ficar-se-á então habilitado apreciar esta divergência que concorre para a unidade, e não se limitará simplesmente a cultivar um gosto cosmopolita.
O canto folclórico fixa evidentemente um problema linguístico, mas ele pode constituir uma excelente introdução ao estudo de um idioma estrangeiro. Além disso é possível traduzir um canto folclórico sem que ele perca muito da sua inspiração e do seu sentido original.
Na dança folclórica, o obstáculo linguístico desaparece: também ela exerce um atractivo universal, ainda mais do que o canto folclórico. A falta de palavras a torna precisamente um meio de expressão mais comovente do que o canto, porque atinge o homem mais profundamente em seu subconsciente.
Não há, entretanto, nenhuma surpresa nisso, pois na base das danças folclóricas do mundo inteiro, há ritos religiosos que estiveram, outrora, ligados às crenças comuns a toda a humanidade. Estas crenças são expressas sob formas muito diferentes mas, em geral, elas todas se congregam no mesmo desejo de continuidade e unidade de vida que existe em cada ser humano.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

MUSEU DA MÚSICA

«Culturas Musicais da União Europeia: Uma Viagem Instrumental»
De 21 de Setembro a 29 de Dezembro de 2007

O Museu da Música é desde 21 de Setembro o palco de uma viagem-exposição ao mundo dos instrumentos e culturas musicais da União Europeia (UE), num itinerário que prevê pequenas paragens em cada um dos 27 países membros e regresso a casa para o encerramento da Presidência Portuguesa.Porque viagens há muitas, o bilhete quer desta vez levar o viajante ao encontro de uma pequena porção da diversidade musical e instrumental que se encontra pelos quatro cantos da UE, devidamente reproduzida à escala do Museu. Os embaixadores escolhidos são os instrumentos; afinal sem eles dificilmente se faz música.Da guitarra portuguesa ao cavaquinho (Portugal), com acompanhamento de, entre outros, castanholas (Espanha), kaval (Bulgária), laouto (Chipre), trstenke (Eslovénia), saxofone (Bélgica), kantele (Finlândia), bouzouki (Grécia), harpa (Irlanda), kokle (Letónia), zaqq (Malta), cobza (Roménia) ou nyckelharpa (Suécia), são vários os instrumentos a descobrir e, como tal, muita música “nova” para nos encher os ouvidos. Numa selecção que não se quer exaustiva e muito menos definitiva, estes embaixadores surgirão enquadrados com imagens e textos explicativos sobre a música de cada país-membro, numa unidade feita de diversidade instrumental, onde é possível encontrar raízes musicais comuns.Para animar o percurso até 29 de Dezembro, altura em que a viagem chega ao fim, prevê-se a realização de várias actividades sempre às sextas-feiras e sábados, com cada um dos dias dedicado em exclusivo a um dos 27.Como co-pilotos, o Museu contou com um sem número de apoios, em especial das Embaixadas dos países da UE em Portugal, mas também de vários museus da música europeus e de Embaixadas portuguesas na UE. Não deixe de se juntar a nós nesta viagem de descoberta musical visitando a exposição e o blog que criámos (http://museudamusica.blogspot.com/). Se puder, ajude-nos também a passar mensagem.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

OS ÚLTIMOS INFORMADORES




É permanente a nossa preocupação pelo estado em que se encontra e pela forma como é tratado o folclore e a etnografia enquanto disciplinas auxiliares da Antropologia Cultural ou Etnologia. Essa preocupação baseia-se não tanto em análises académicas dos conceitos, mas sobretudo em aspectos concretos e objectivos de interpretação das informações e dos legados, materializados em objectos como o vestuário para a etnografia e as músicas, cantigas e danças para o folclore, que são o veículo usual mais utilizado pelos grupos para a sua divulgação.
Assim assumem importância relevante as fontes que nos servem de base à pesquisa. Será consensual a ideia de que para o folclore a melhor fonte é aquela que advém da própria vivência, isto é, recolhida daqueles que um dia foram elementos activos desse legado. Das pessoas que foram receptoras de uma ancestral herança, transmitida naturalmente por via da oralidade, e só por esta via, que a utilizaram sem preconceitos e que a entregam, inevitavelmente com a sua marca, com a mesma simplicidade e orgulho aos seus sucessores.
É cada vez maior a dificuldade em encontrar o “informador ideal”. As transformações que ocorreram um pouco por toda a Europa no durante e pós-revolução industrial e com mais relevância no decurso do século passado foram, de uma forma epidémica, responsáveis pela mudança dos comportamentos sociais dos povos. Tal como uma pedra atirada ao charco, as ondas por ela provocadas irradiaram do centro do velho continente para a periferia, tendo chegado até nós apenas em meados do vigésimo século da nossa era. Este facto, para além das nefastas e óbvias consequências relativas ao nosso desenvolvimento, foi responsável pela preservação de características específicas e particulares que nos identificam e nos tornam diferentes dos outros. Ainda hoje é possível encontrar sobreviventes dessa época. Mas serão eles bons informadores?

Luís Ferreira Machado Drumond, no seu “Estudo do Folclore Terceirense - O Baile Popular Terceirense”, publicado no Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira Volume XIII, de 1955, afirma: “Para compreender a psicologia do povo terceirense, para lhe conhecer o carácter alegre e a índole folgazã, em contraste com o seu modo de ser pacato e simples, é necessário estudar as suas canções populares, investigando qual a origem delas, as influências a que estiveram sujeitas e as naturais evoluções que sofreram.
Tal estudo torna-se difícil e complicado, porquanto, os nossos antepassados não se deram ao trabalho de registar o aparecimento e a evolução das suas modinhas populares.
A ausência de precisa documentação nos arquivos e bibliotecas, obriga a recorrer às fontes da suposição que, não primando pela veracidade, são as únicas capazes de suprir aquela deficiência
”.

Perfeitamente de acordo com Drumond quanto à necessidade do estudo das canções populares, como forma de compreensão do povo e também quanto à dificuldade que tal empresa representa. Mas estamos em crer que Drumond comete aqui um erro imperdoável: ter direccionado as suas pesquisas apenas para os arquivos e bibliotecas em detrimento de fontes populares. Acreditamos que por essa altura existiria ainda um considerável número de bons informadores. De homens e mulheres portadores dessa cultura secular que nenhuma escola ensina, que flúi naturalmente como a água jorra da fonte, que resulta da prática continuada e apaixonada, que se recebe e se dá como se fosse a nossa maior fortuna.

Hoje sim, será difícil, muito mais difícil encontrar informadores com este perfil.
Isto porque “ao contrário de outros documentos, escritos ou pintados guardados em arquivos; das pedras e utensílios expostos ou escondidos debaixo da terra, objecto da arqueologia; do património construído, mesmo que degradado, a música popular de tradição oral extingue-se com a morte dos intérpretes” como lemos num texto de Adelino Cardoso na Revista do Jornal Expresso de 25 de Outubro de 1997.
Esta opinião obtém eco e concordância num outro texto, este pela pena autorizada de José Alberto Sardinha, advogado de Torres Vedras que, nas horas vagas e ao longo de mais de 30 anos veste a pele de investigador e se dedica à recolha da música tradicional: “Todos os dias se perdem exemplares musicais de grande riqueza. Do que se perde muito há que nunca se saberá o que era. Há coisas, portanto, já irrecuperáveis. A música tradicional tem uma base funcional: quando uma função termina a música passa a um estado de vigília até morrer o portador. Sobrevive na memória dos últimos executantes e depois cessa por falta de transmissão. Parte do que ainda hoje se grava já só subsiste na memória dos tocadores, sobretudo nos cantos de trabalho, porque desapareceram as respectivas tarefas. As músicas bailadas vão subsistindo nos ranchos folclóricos, em estado de alguma degradação e adulteração, porque já não há bailes rurais; subsistem alguns grupos instrumentais e as tunas de convívio vicinal”.

Fica feito o aviso à navegação: não podemos perder mais tempo, se é que ainda nos resta alguma esperança de vir-mos a encontrar o último informador.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

RESERVA CULTURAL

Em 1997 participei no III Congresso da Federação do Folclore Português que se realizou na Auditório da Reitoria da Universidade de Coimbra. As naturais expectativas de que era portador saíram goradas. Disso mesmo dei conta no final da reunião magna do organismo que se diz defensor dos valores patrimoniais da cultura popular portuguesa. Nessa minha curta e única intervenção comecei por dizer com algum nervosismo: “Vim aqui com muitas dúvidas e saio daqui com o dobro delas”. Por toda a sala ecoou uma “bruá” provocado por uma risada que até hoje me mantém na dúvida se seria de consentimento ou de reprovação. Esse lapso de tempo foi suficiente para recuperar a coragem que é necessária para falar perante tão numerosa e “esclarecida” plateia. Puxei da folha A4 na qual havia anotado, minutos antes, uma ideia que me ocorrera e que agora partilho com todos os leitores deste espaço. Disse eu:
“- Venho de uma Ilha, de uma Região, e em particular de uma cidade que é património da humanidade. A primeira cidade portuguesa a ser incluída na honrosa lista da UNESCO;
- De uma Região e de uma cidade em que a consciência colectiva de preservação se confunde com o ar que respiramos, com o pão que comemos;
- De uma Região e de uma cidade em que todos os dias se levantam novas questões, muitas delas com origem nas soluções de ontem;
- A minha ilha, a terceira por ordem das descobertas, não tanto por outra qualquer ordem de valor, há 35/40 anos era uma das mais desenvolvidas do arquipélago;
-Tinha acesso, por exemplo, à imprensa escrita diária do continente, levada pelos navios Carvalho Araújo ou Lima, de 15 em 15 dias, isto se o tempo não virasse a sul ou sudeste e enchesse a angra, que deu nome à minha cidade, de branca espuma, qual lenço num aceno de “adeus” até à volta;
- E porque 15 dias passados no isolamento da ilha representam muitas saudades, liras e tiranas, não tanto as chamarritas porque essas são para enaltecer a alegria da chegada, do reencontro, do abraço;
- E porque 15 dias de isolamento na ilha nos obrigam a parar no tempo, a viver o presente continuando no passado, muito do que era ainda é;
- Não tanto na minha ilha, porque já é uma ilha “evoluída”, mas nas ilhas de baixo, nas mais afastadas do centro, naquelas em que ainda experimentam o isolamento de 15 dias, naquelas em que as gentes gastam o olhar no horizonte confundindo-o com a esperança;
- Nessas ilhas, não já na minha, ainda se toca, canta e “bailha” de forma espontânea.
Dois exemplos:
Graciosa – pequena ilha. São pouco mais de cinco mil os seus habitantes. Famosa pela alegria das suas gentes. A ilha em que o Carnaval começa a seguir à Páscoa. Sim, à Páscoa do ano anterior, quando, depois do descanso imposto pelo calendário litúrgico da Quaresma se começa a pensar, a idealizar e a organizar a folia do próximo ano, mantida em escrupuloso segredo até à hora. No intervalo dos muitos bailes, nas sociedades e clubes da ilha, enquanto os conjuntos descansam, entram tocadores de viola e cantadores e forma-se o baile de roda em que, novos e velhos, dançam espontaneamente as modas tradicionais;
O Corvo – 17km2, pouco mais de trezentos habitantes. A mais pequena das açorianas ilhas do Atlântico. Imaginem uma romaria no continente, pequena obrigatoriamente, assim é a ilha do Corvo. Todos bailam, cantam ou tocam de forma espontânea. Toda a vivência é condicionada pela tradição. Os mais velhos têm lugar de destaque Outeiro e a sua voz, os seus conselhos e, por vezes, apenas os seus olhares ainda têm significado. Aqui ainda não houve passado.
É neste contexto que formulo as seguintes questões:
1 – Deve-se ou não incentivar e apoiar a formação de Grupos Folclóricos nestas ilhas?
2 – Se sim, a que época se devem reportar as referências?
3 – Perante um caso único, particular e peculiar da cultura popular, onde ainda não aconteceu a inevitável rotura, podemos ou não pensar na criação de uma zona de “Reserva Cultural” na Ilha do Corvo?
Estarão aqui sedimentadas, porventura, as últimas reminiscências da cultura do “povo” português.”
Claro está que estas minhas questões não obtiveram eco, nem sequer foram merecedoras de resposta. Confesso que nem dela estava à espera.
O articulado, condimentado com sarcasmo e algum cinismo, admito, tinha tão só a intenção de provocar (e isso acho que consegui) aqueles que, do alto da sua cátedra, anunciam resposta para tudo.
No entanto as questões que levantei são, quanto a mim, verdadeiras, actuais e muito sérias merecendo, no mínimo, alguma reflexão. Ou não?

GRUPO FOLCLÓRICO DA ILHA TERCEIRA


No ano de 1955, na freguesia de S. Bartolomeu dos Regatos, com o patrocínio da então Comissão Regional de Turismo, apareceu com o nome de “Grupo Folclórico da Ilha Terceira” o nosso primeiro agrupamento de “folclore”. Alguns anos mais tarde mudou o nome para “Grupo Folclórico Padre Tomás de Borba” sendo vulgarmente conhecido como “Grupo do Tio José da Lata”. Homens como o Dr. Henrique Brás, Eduardo Gomes da Silva, Leonilde Martins, Heldo Braga, Laureano Correia dos Reis, José da Rocha Mancebo e José de Sousa Martins (conhecido por todos como José da Lata e que foi seu mandador durante algum tempo) entre outros, foram responsáveis pelo seu aparecimento e manutenção durante os onze anos da sua existência.
A sua indumentária era uniforme e foi idealizada pelo “mestre” Maduro Dias, com base no traje de cerimónia de finais do Sec. XVII, que é vulgarmente conhecido como “de barrete de orelhas”, para os homens e no “vestido de chita com saia de ombros” para as mulheres.
Durante esse período apareceu na freguesia de S. Sebastião um grupo folclórico infantil, sob a orientação do Padre Coelho de Sousa, que teve um tempo de vida muito curto, não mais do que dois ou três anos.
Nessa altura, e estamos a falar de meados da década de cinquenta do sec. XX, todas as pessoas adultas tinham ainda bem presente, por terem participado ou apenas por terem visto, a forma como, pelos mais variados motivos, as pessoas se juntavam em roda e dançavam, cantando e tocando, as modas de tradição regional.
Estávamos num período de pós guerra. Tudo mudava de uma forma mais rápida do que se vira até então. E nós, Terceirenses, sentíamo-nos protagonistas dessa mudança, mercê da presença dos Ingleses, primeiro, depois dos Americanos e mesmo dos Portugueses do continente que, em grande número, constituíam as forças militares aqui estacionadas e que nos ofereciam, a cada momento, a mais diversificada gama de novidades que iam desde os hábitos alimentares, de vestir, de falar até a novos hábitos sociais, onde poderemos englobar os novos gostos musicais.
O contacto com estes novos valores era cada vez maior tanto quanto era o número de Terceirenses a trabalhar para estas forças. Mas os que com eles não tinham uma relação de trabalho encontravam-na, com relativa facilidade, mercê da proliferação dos clubes sociais e dos eventos que neles se realizavam, não só dentro da Base militar como também no seu exterior, nas suas zonas limítrofes, nomeadamente nas então Vila da Praia da Vitória e freguesia das Lajes.
Os bailes ao som de violas e das cantigas tradicionais que aconteciam nas casas de mordomia ou nos terreiros, começam a ser substituídos pelos que se iam realizando ao som de “swings” e “fox-trots” que as novas orquestras interpretavam com maior ou menor desembaraço. Em alguns cafés de Angra e Praia da Vitória são colocados à disposição dos clientes pianos que são tocados por mãos vindas de outras paragens e que deles tiram sons novos e ritmos modernos.
Para além destes, a vulgarização dos aparelhos receptores de rádio, o cinema e, de uma forma mais restrita, mas não menos significativa, a televisão americana da base aérea, foram também veículos de introdução de novos valores que competiam com demolidora desigualdade com os que caracterizavam a nossa ancestral cultura.
Não é de estranhar pois o rompimento brusco com o antigo (entenda-se fora de moda) e a assimilação rápida de novas e, quiçá, mais atraentes formas de estar e de comportamento colectivo.
Julgamos ver nesta época, de uma forma clara, a passagem do tempo de um período de relativo isolamento, em que tudo acontecia de uma forma naturalmente lenta, ao ritmo do próprio tempo, para outro de progressiva massificação, prenúncio da actual globalização de comportamentos.
Mas voltemos ao “Grupo Folclórico da Ilha Terceira”. A pergunta que se nos coloca de uma forma pertinente é: O que teria levado um grupo de pessoas, elas próprias intervenientes espontâneos dos “balhos” populares, músicos, cantadores e mandadores, a criarem um agrupamento “folclórico” que é, pela sua génese e características, o principal responsável pela adulteração da forma e do modo, das motivações e dos próprios objectivos do canto e da dança enquanto elemento da cultura popular? Teriam eles por objectivo substituir o povo? Ou antes teriam eles a consciência de que as transformações que decorriam à sua volta eram, inevitavelmente, um perigo eminente para a própria cultura de que eles eram elementos activos? E o grupo infantil de S. Sebastião: o que levaria o Padre Coelho de Sousa e seus colaboradores a assumirem a responsabilidade de pôr crianças a dançar as modas tradicionais dos adultos? Certamente que as motivações de então em nada seriam semelhantes àquelas que hoje estão na base da criação de novos grupos de “folclore”.
Na época em que estes agrupamentos aparecem, havia de uma forma mais ou menos generalizada no seio dos intelectuais locais alguma preocupação com os assuntos relacionados com a etnografia e o “folclore”. Sentia-se que, se nada fosse feito, estaria eminente a perca irremediável e irreversível de vectores importantes da nossa identidade cultural, cimentada em quase cinco séculos de permanente adaptação ao nosso meio, às várias influências exteriores e ao natural senso criativo que caracteriza qualquer povo.
Por providencial coincidência (ou talvez não), é nessa década que a BBC encomenda ao Prof. Artur Santos registos e estudos da música tradicional Açoriana. Esse trabalho, que também foi apoiado pela antiga Junta Geral do Distrito Autónomo de Angra do Heroísmo, só agora começa a ser convenientemente estudado e divulgado. É curioso notar que aí iremos encontrar como informadores alguns dos então elementos do “Grupo Folclórico da Ilha Terceira”, nomeadamente o José da Lata.
Outros tempos! Tempo em que a credibilidade de um Grupo de Folclore e dos seus elementos não era posta em causa.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

AS QUADRAS

Com o título “O MEIO ALQUEIRE” o meu amigo e distinto cronista Francisco dos Reis Maduro Dias escreveu a 3 de Setembro de 2000, no seu lugar semanal do Diário Insular "VELA DE ESTAI", um artigo no qual comentava o facto de se ter “construído” bem no meio da praça Velha, sobre a soberba manta de tear terceirense que ali se representa (por sinal da autoria de seu pai Mestre Maduro Dias), um “cerrado” onde decorreu uma “encenação” sobre o “ciclo do milho”.
Lá estavam as paredes de pedra bem tapada a delimitarem o cerrado, a terra, depois uns pés de milho e por fim decorreu a desfolhada.
Mais recentemente, por altura das Sanjoaninas de 2007, uma nova encenação desta feita a que chamaram o “ciclo da vinha”, em que se pretendia reconstituir na rua da Sé toda a faina agrícola que é inerente à cultura da vinha. Para tal apanharam uns pés de vinha e para compor o cenário uns araçaleiros e uns ramos de figueira, colocaram-nos ao longo do percurso e lá foram simulando todos os passos que o homem (ainda) dá desde a plantação da vinha até à colheita da uva.
Em qualquer uma destas reconstituições quem já sabia ficou a saber o mesmo, quem não sabia nada aprendeu. É que estas coisas, para terem o mínimo de credibilidade, e para atingirem os objectivos que se anunciam não podem ser só de faz de contas: faz de contas que estou a lavrar, faz de contas que o milho está a nascer, faz de contas que estou a sachar, faz de contas que aqui tem uvas, faz de contas que estou a vindimar, faz de contas…, faz de contas… .

Vem isto a propósito desta nova tendência que os grupos de folclore têm de recorrer às reconstituições.
Nada me move contra elas, antes pelo contrário, sou um forte defensor desta metodologia, desde que se tenham em linha de conta dois aspectos fundamentais: a "quadra" e o lugar.
Os “antigos” regulavam toda a sua actividade anual pelas “quadras” mais do que por qualquer folhinha do ano ou almanaque. Todas as coisas cabiam certinhas nos seus lugares e no seu tempo, na sua “quadra", numa sucessão harmoniosa de acontecimentos. Nada se repetia no mesmo ano. Por isso tudo era apetecível e aguardado sempre com entusiasmo e elevado grau de ansiedade. E isto tanto era verdade para as actividades de lazer como para as actividades agrícolas; para as épocas de reflexão e recolhimento como para as de exaltação e alegria.
Reconstituir é voltar a constituir, é repor, é voltar a fazer da mesma forma, nos mesmos ambientes, nos mesmos lugares, com o mesmo sentido, na mesma “quadra”, de uma forma coerente. Não faz sentido fazer uma reconstituição de uma vindima se não houver uvas; de uma matança de porco no pico do verão; de uma desfolhada na altura das sementeiras; de uma tosquia na força do Inverno. Matar o porco no Alto das Covas é tão falso como o “cerrado” da Praça Velha ou a vindima em pleno mês de Junho: nada faz sentido. Da mesma maneira que não faz sentido pôr um “maio” à janela no 1º de Abril, dizer petas no 1º de Maio, celebrar o Natal no 1º de Novembro ou pedir “pão-por-Deus a 25 de Dezembro. Se o objectivo é mostrar a quem nos visita estas actividades, e como não se consegue mostrá-las todas de uma só vez, então que se reconstitua cada coisa no seu tempo certo e em sítios adequados para cada situação.
Infelizmente hoje assistimos à generalização desta conduta: o “Entrudo” tanto se antecipa a ele próprio como entra pela Quaresma dentro; o S. João com as suas marchas invade todos os outros padroeiros; o próprio Espírito Santo está tão desorientado que também já perdeu a sua “quadra” e o seu lugar: já O temos visto, por aí, em desfiles e cortejos etnográficos.
Para além da minha preocupação como individuo e como cidadão, acresce a do “folclorista”: é que todas estas tropelias acontecem com a chancela dos Grupos de Folclore. São eles ou é a partir deles que quase todas estas coisas acontecem. Com todo o empenho e a melhor das intenções dos seus elementos, é certo, mas também com muita ignorância e ligeireza dos seus responsáveis.
Os Grupos de Folclore são agentes culturais que têm, entre outras, a função de perpetuar as características que nos identificam e nos diferenciam dos outros: primeiro para que nós não as esqueçamos. Só depois para que os outros as vejam. Mas sempre no mais escrupuloso respeito pela verdade.

O COFIT E O FESTIVAL INTERNACIONAL DE FOLCLORE DOS AÇORES

Teve lugar no passado dia 18 de Agosto o espectáculo de encerramento do maior Festival de Folclore dos Açores, organizado pelo COFIT – Comité Organizador de Festivais da Ilha Terceira. A Praça Velha, cenário escolhido pelo terceiro ano consecutivo pela actual estrutura directiva do Festival, encheu-se de gente - mais de 1500 pessoas no dizer dos seus responsáveis - que, numa demonstração de apetência para este tipo de eventos, não regateou aplausos aos doze Grupos participantes.
Depois de alguns anos mais ou menos conturbados e de indefinições, em que as sucessivas direcções do Comité não puderam ou não souberam dar sequência aos bons auspícios dos primeiros anos, é de toda a justiça realçar e aplaudir o trabalho dos seus actuais responsáveis.
A questão fundamental é perceber como é que um festival de folclore nascido e criado no meio do Atlântico, nos Açores, contra todos os condicionalismos por demais conhecidos, conseguiu (com altos e baixos, é certo) sobreviver e, prestes a completar um quarto de século, demonstrar tamanha pujança. Esta questão é tão mais pertinente quando temos notícia de inúmeros festivais no continente, alguns deles carismáticos, que se vão afogando na sua própria saliva.
Claro que um empreendimento com a dimensão do evento deste ano não acontece do nada: tem atrás de si uma história, uma longa história, ela própria mais antiga do que o próprio festival.
Com efeito de 1 a 29 de Agosto de 1981 decorreram em Angra do Heroísmo, no Jardim Duque da Terceira, as “Primeiras Jornadas de Folclore da Ilha Terceira”, organizadas pelo realizador do programa “Nocturno 81” do Rádio Clube de Angra João Manuel Aranda e Silva. Neste evento participaram os Grupos Folclóricos Terceirenses: Doze Ribeiras, de Balhos e Cantares, Os Bravos, Canção Regional Terceirense e Sapateia Açoriana.
Sobre este acontecimento a imprensa escrita de então refere: “Foram enfim, jornadas que encheram de povo o jardim. Que agradaram a todos e até especialmente no último sábado – aos estrangeiros que por aqui passaram. A julgar pela opinião de todos os grupos é uma iniciativa a dar seguimento. E até porque não o embrião de um futuro festival de folclore?...” (DI de 1 de Set. de 1981).
No ano seguinte “Mais de duas mil e quinhentas pessoas encheram… a Praça de Touros de S. João, onde assistiram ao encerramento das Segundas jornadas Folclóricas Verão 82,… Em jeito de conclusão, merecem nota máxima estas jornadas. Porque se destinam a preservar a cultura popular e a aproximar o povo. …” (DI 24 de Agosto de 1982).
Depois do sucesso alcançado com estas Jornadas, embrião do Festival Internacional de Folclore dos Açores, manifestado sobretudo pela aderência popular, não era difícil adivinhar que este projecto, que crescia de audácia na mesma medida do entusiasmo dos seus colaboradores, tinha pernas para andar.
Porquê?
Porque o seu fundador e primeiro impulsionador, Aranda e Silva sugeria já uma estrutura básica e uma orgânica alicerçada em 5 aspectos fundamentais: 1- tinha objectivos; 2- percebia-se já uma organização directiva funcional; 3- tinha definido uma data de referência – 15 de Agosto – em torno da qual se construía todo o programa; 4- tinha em atenção questões de pormenor, tais como as condições de palco, de som, de cenário, etc; 5- tinha espírito crítico e de análise.
Por outro lado soube cultivar a ideia de que este seria o Festival de Folclore por excelência de todos os Grupos da Ilha, evitando-se assim a proliferação, vulgarização e a banalização dos festivais. Esse entendimento, que perdurou entre nós até há bem pouco tempo, não só conseguiu aquele objectivo como também concentrou nele todos os esforços e disponibilidades que fluíam dos próprios Grupos.

As expectativas criadas o ano passado e reforçadas com as deste ano de 2007, elevaram para bem mais alto a fasquia do Festival do próximo ano.
A eminente inclusão do Festival na lista do CIOF, batalha travada arduamente pela actual estrutura directiva do COFIT, vem dar outra responsabilidade aos seus organizadores. A concretizar-se, esta inclusão acontece por mérito próprio e não a troco de qualquer favor
O que queremos e fazemos votos é que, apesar das mudanças directivas que se irão verificar no COFIT num futuro próximo por via de eleições que estão marcadas para o fim deste ano, o próximo Festival Internacional de Folclore dos Açores mantenha a qualidade conseguida nos últimos três anos e continue a ser, (porque não dizê-lo?), “O Maior Festival de Folclore dos Açores" http://www.youtube.com/watch?v=2WNWgvPLhC8&eurl

UMA QUESTÃO DE PATERNIDADE


Entre 29 de Outubro a 5 de Dezembro de 1963, esteve nos Açores uma equipe coordenada por Ernesto Veiga de Oliveira com o objectivo de recolher elementos para a futura colecção de instrumentos Musicais Populares Portugueses. No seu relatório de trabalho de campo, e no que se refere à 2ª estadia na Ilha Terceira, que decorreu entre os dias 27 a 30 de Novembro, lê-se: “Num fim de tarde que se prolongou até cerca das 11 horas, reunimo-nos em casa do senhor Henrique Borba, com o José Martins Pereira – Zé da Lata – o Laureano Correia dos Reis e mais um rapaz e uma rapariga, irmãos, cantadores da Rádio Angra. O Zé da Lata estava constipado, mas sempre cantou algumas coisas, e assim ouvimos um pouco desse folclore terceirense, dolente, romântico, de um italianismo afadistado de interesse reduzido. Em todo o caso as pessoas foram gentilíssimas e o Zé da Lata que é uma personalidade rica e pitoresca, transfigura-se quando canta, que é o seu meio natural.”

Por essa altura comentava uma turista francesa ao ver o Grupo Folclórico da Ilha Terceira (de saudosa memória): “…c'est trés monotone…”

Eis pois um retrato da nossa música popular à época em que supostamente começou a germinar a semente do que viria a ser o “Grupo de Baile da Canção Regional Terceirense”, aquele que é neste momento o mais antigo grupo de folclore em actividade na ilha Terceira.

Ora a ideia e a proposta de criação de um grupo de folclore com as características das do GBCRT partiram da pessoa desse exímio músico que foi Henrique Borba, o anfitrião da equipa de Ernesto Veiga de Oliveira.
Apenas coincidência? A proximidade temporal entre os dois acontecimentos sugere-nos que não. O desalento das personalidades que constituíam a equipa de Ernesto Veiga de Oliveira, bem patente naquele relato, e o de Henrique Borba perante tão desanimador cenário terá sido objecto de conversa entre eles naquele fim de tarde de Novembro e, eventualmente, ter-se-ão aflorado algumas hipóteses no sentido de inverter tão preocupante situação.
A solução arquitectada por Henrique Borba era de absoluta rotura com todos os convencionalismos. De tal forma que sentiu necessidade de esclarecer sobre as motivações e os objectivos que nortearam todo o projecto. E fá-lo no discurso que proferiu no dia da primeira apresentação pública do Grupo de Baile da Canção Regional Terceirense, em 16 de Julho de 1966. Ouçamo-lo:

“Minhas Senhoras e meus Senhores

A comissão organizadora do grupo de bailados que vai apresentar-se deseja esclarecer o seguinte:
Não se pretende alterar o que uma tradição secular impôs como costume, mas apenas demonstrar como, dentro das nossas modas, se lhes pode dar uma interpretação coreográfica tão viva e animada como as do continente Português, ou tão subtil e delicada, como um passo de pavana ou um requebro de minuete.
Com o fim de pôr em prática tal demonstração, precisava-mos de uma entidade que nos dispensasse o seu auxílio e o seu apoio formal e absoluto para a consecução de um fim meramente cultural e também afectivo, pois pareceu-nos ser vantajoso e necessário, para despertar, tanto quanto possível na nossa mocidade, o interesse, a simpatia e o amor pelas canções da nossa Terra.
Porque, note-se, e isto é triste dizê-lo, a canção terceirense – aquilo que de mais representativo temos, em questão de arte, para nos distinguir neste isolamento insular em que vivemos – está em decadência e dentro de um quarto de século desaparecerá (embora latente na alma do povo rude), absorvida no cosmopolitismo do nosso meio, no cinema desbragado das cowboyadas, na canção exótica acompanhada a violas eléctricas e pancadaria de jazz trazidas através da rádio, sem um ideal e sem um sentimento que desperte no ânimo da gente moça uma parcela, mínima que seja, de conservar, a todo o transe, o património riquíssimo da canção terceirense.
Foi talvez pensando nisto que, exposta a ideia ao Senhor Manuel Vale, digníssimo Presidente da Direcção da Recreio dos Artistas, ele prontamente a acarinhou e a submeteu ao parecer dos membros da Direcção da sua presidência, que resolveram não só dar o palco do seu teatro ao ar livre para os ensaios do Grupo, como também patrocinar este empreendimento, concorrendo com as verbas necessárias para a sua realização e ainda com as despesas indispensáveis para a indumentária do Grupo….”

Sobre o papel – indispensável, afirmamos nós – desempenhado pela poetisa Maria Francisca Bettencourt, a Maria do Céu, Henrique Borba sente a mesma necessidade de esclarecer:

“A realização deste cometimento esteve a cargo de uma comissão composta pela Senhora D. Maria Francisca Bettencourt (Maria do Céu), pelo autor da ideia e pelos senhores Laureano Correia dos Reis, Rodolfo Brum e João Noronha de Borba, assistido pelo Senhor Cândido Félix, como delegado da Direcção da Recreio dos Artistas, de quem recebemos as maiores provas de interesse, de boa vontade e, sobretudo, de estímulo.”

Henrique Borba continua a sua esclarecimento aflorando algumas questões de pormenor, como sejam o nome a dar ao Grupo e o da adaptação da musical, e continua:

“Como prancha de salvação, surgiu-nos uma magnífica rapsódia para piano, em forma de suite, da autoria de Maria do Céu, génio de poetisa e de artista, em cuja alma Terceirense dançam e cantam constantemente as modas da sua querida terra, da ilha Rubra, como ela quer que lhe chamem nos lindos versos da sua autoria, que hoje serão recitados, em confirmação da cor rubra dos vestidos das raparigas deste grupo, executados também sob orientação de Maria do Céu.
Neste aspecto, o problema estava solucionado. A execução do piano poderia adaptar-se às violas de arame, bem como a um acordeão para tornar mais salientes os acompanhamentos e dar mais recreio sonoro ao conjunto musical, sobretudo para quando se houver de bailar sem piano.
Depois disto, tínhamos ainda o problema da interpretação coreográfica de cada moda.
Na verdade, como interpretar por um bailado animado melodias na sua maior parte constituídas por andamentos lentos, sem lhes alterar o ritmo? Foi ainda Maria do Céu que nos tirou de tal embaraço. Como deixámos dito, na sua alma de Terceirense, sensivelmente impressionada, bailam e cantam as nossas modas. Ela já as tinha cantado na sua rapsódia; faltava-lhe apenas exteriorizá-las coreograficamente. Foi isto o que fez e que V. Excias. dentro de momentos irão ver e apreciar, como apreciarão os versos de todas as cantigas que são também da sua autoria”.

Perfeitamente discutível quanto perigosa se utilizada de forma desadequada, esta nova metodologia teve e tem ainda, pelo menos, o mérito de agitar as consciências e de abrir novos caminhos para a representação “folclórica”.
Os 15 grupos de folclore que se formaram na ilha desde então e que mobilizam centenas de entusiastas, têm como referência esta nova matriz. Pena que, a maior parte deles, desconheçam por completo o trabalho que desenvolvem, embora o façam com paixão e irrepreensível entrega.