Abril chuvoso, Maio ventoso e Junho amoroso, fazem um ano formoso
Abril frio e molhado, enche o celeiro e farta o gado
Abril frio: pão e vinho
Abril leva as peles a curtir
Abril molhado, sete vezes trovejado
Abril, Abril, está cheio o covil.
Abril, ora chora ora ri
Ao principio, ou ao fim: Abril costuma ser ruim
As manhãs de Abril são boas de dormir
Em Abril a natureza ri
Em Abril águas mil coadas por um funil.
Em Abril águas mil.
Em Abril queima a velha o carro e o carril.
Em Abril sai o bicho do covil.
Em Abril vai a velha onde quer ir e a sua casa vem dormir.
Em Abril cada pulga dá mil
Em Abril de uma nódoa tira mil
Em Abril lavra as altas, mesmo com água pelo machial.
Em Abril vai onde deves ir, mas volta ao teu covil.
Frio de Abril, nas pedras vá ferir
Guarda pão para Maio e lenha para Abril.
Inverno de Março e seca de Abril, deixam o lavrador a pedir.
Não há mês mais irritado do que Abril zangado.
Negócio de Abril só um é bom entre mil.
No princípio ou no fim, costuma Abril a ser ruim.
Por Abril, corta um cardo e nascerão mil.
Quando vem Março ventoso, Abril sai chuvoso.
Quem em Abril não varre a eira e em Maio não rega a leira, anda todo o ano em canseira.
Uma água de Maio e três de Abril valem por mil.
Vinha que rebenta em Abril dá pouco vinho para o barril.
sábado, 19 de abril de 2008
quinta-feira, 20 de março de 2008
ADÁGIOS DO MÊS DE MARÇO
A sabedoria do povo bem como a sua experiência de vida individual e colectiva revelam-se de várias formas, onde podemos incluir também os adágios, rifões, anexims, provérbios, ditames, etc. . Estes ditos populares encerram, em síntese, o seu modo de sentir e reagir às mais variadas situações bem como o aconselhamento à resolução dos problemas com que se deparam no seu dia a dia, veiculando assim determinadas práticas de geração em geração. Muitas destas “sentenças” são comuns a todo o espaço nacional. Outras, porém, são específicas de determinada região.
Ficam aqui alguns sobre o mês de Março. Daqueles que ouvimos e ainda temos em memória.
Em Março chove cada dia um pedaço.
Em Março queima a velha o maço
Março amoroso faz o ano formoso.
Março amoroso, Abril chuvoso, Maio ventoso e S. João calmoso, fazem o ano formoso.
Março marçagão, de manhã focinho de cão, de tarde sol de verão.
Março marçagão, de manhã focinho de cão, ao meio-dia de rainha e à noite de fuinha.
Março trovejado, ano melhorado.
Março ventoso, Abril chuvoso
Quando o Março sai ventoso, sai o Abril chuvoso
Quem poda em Março vindima no regaço.
Se ouvires trovejar em Março, semeia no alto e no baixo.
Se queres bom cabaço, semeia-o em Março.
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A ERMIDA DO ESPÍRITO SANTO EM ANGRA
Era o ano de mil seiscentos e quarenta, tempo da aclamação do rei D. João IV. Depois de assistir às solenidades da coroação, em Lisboa, Francisco Ornelas da Câmara, capitão-mor da Vila da Praia, regressou à Terceira com uma nobre missão: tal tinha sido o entusiasmo deste fidalgo que o rei o julgou capaz de submeter ao poder português o castelo de Angra, ainda dominado pelos castelhanos.
Ao chegar à ilha, Ornelas da Câmara comunicou ao capitão-mor da cidade de Angra, seu cunhado, João Bettencourt, a missão de que fora incumbido. Onze meses de dificuldades começaram, quer para os terceirenses que tentavam tomar o castelo, quer para os castelhanos que resistiam com bravura. Por fim estes, que haviam sofrido tantas necessidades, renderam-se honrosamente. Francisco Ornelas da Câmara tinha conseguido levar a bom termo a difícil missão, mas não gozou muito tempo o sabor da vitória. Logo apareceram invejosos e intriguistas, de entre os quais o Marquês de Castelo Rodrigo, que tentaram denegrir as qualidades do capitão-mor, conseguindo que fosse, com outros valentes terceirenses, considerado desleal à pátria e, por isso mesmo, encarcerado.
Os longos e penosos dias de prisão eram passados com amargura, mas com confiança de que o Espírito Santo seria seu protector. A filha, Emília de Ornelas, implorava a Deus a sua intercessão. Veio finalmente a sentença: a magistratura de Angra decidiu condenar à morte os acusados que apelaram para os tribunais da Corte.
Para Francisco de Ornelas e família a vida passou a resumir-se a uma difícil espera e confiança no Espírito Santo.
Os juízes de Lisboa tinham dúvidas, nada estava claro e o debate levou dias.
A vinte e três de Março, o Tribunal da Relação de Lisboa proferiu a sentença condenatória. Lavraram, com alguma relutância, a sentença. Quando os juízes iam assiná-la, entrou por uma janela da sala uma pomba alvíssima, que passando rasteira sobre a mesa, virou o tinteiro, tornando invisível o que estava escrito.
Os juízes ficaram maravilhados e concordaram que aquilo tinha sido um sinal de Deus. Lavraram então, com entusiasmo, a sentença de absolvição dos réus.
Francisco Ornelas da Câmara, devoto do Espírito Santo, ao saber o que se tinha passado, prometeu dar todos os anos um grande bodo de seis moios de trigo e seis bois, que ele serviria descalço aos pobres. Prometeu também edificar em honra ao Espírito Santo, na rua dos Quatro Cantos, uma formosa ermida e de trazer para sempre no seu brasão o emblema do Espírito Santo.
Ao chegar à ilha, Ornelas da Câmara comunicou ao capitão-mor da cidade de Angra, seu cunhado, João Bettencourt, a missão de que fora incumbido. Onze meses de dificuldades começaram, quer para os terceirenses que tentavam tomar o castelo, quer para os castelhanos que resistiam com bravura. Por fim estes, que haviam sofrido tantas necessidades, renderam-se honrosamente. Francisco Ornelas da Câmara tinha conseguido levar a bom termo a difícil missão, mas não gozou muito tempo o sabor da vitória. Logo apareceram invejosos e intriguistas, de entre os quais o Marquês de Castelo Rodrigo, que tentaram denegrir as qualidades do capitão-mor, conseguindo que fosse, com outros valentes terceirenses, considerado desleal à pátria e, por isso mesmo, encarcerado.
Os longos e penosos dias de prisão eram passados com amargura, mas com confiança de que o Espírito Santo seria seu protector. A filha, Emília de Ornelas, implorava a Deus a sua intercessão. Veio finalmente a sentença: a magistratura de Angra decidiu condenar à morte os acusados que apelaram para os tribunais da Corte.
Para Francisco de Ornelas e família a vida passou a resumir-se a uma difícil espera e confiança no Espírito Santo.
Os juízes de Lisboa tinham dúvidas, nada estava claro e o debate levou dias.
A vinte e três de Março, o Tribunal da Relação de Lisboa proferiu a sentença condenatória. Lavraram, com alguma relutância, a sentença. Quando os juízes iam assiná-la, entrou por uma janela da sala uma pomba alvíssima, que passando rasteira sobre a mesa, virou o tinteiro, tornando invisível o que estava escrito.
Os juízes ficaram maravilhados e concordaram que aquilo tinha sido um sinal de Deus. Lavraram então, com entusiasmo, a sentença de absolvição dos réus.
Francisco Ornelas da Câmara, devoto do Espírito Santo, ao saber o que se tinha passado, prometeu dar todos os anos um grande bodo de seis moios de trigo e seis bois, que ele serviria descalço aos pobres. Prometeu também edificar em honra ao Espírito Santo, na rua dos Quatro Cantos, uma formosa ermida e de trazer para sempre no seu brasão o emblema do Espírito Santo.
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terça-feira, 11 de março de 2008
PADRE ANTÓNIO VIEIRA
Comemora-se este ano o 4º centenário do nascimento do Padre António Vieira.Nascido na freguesia da Sé de Lisboa no dia 6 de Fevereiro de 1608, António é o primeiro filho de uma modesta família da capital. Cristóvão Ravasco e mulher Maria de Azevedo levam-no a baptizar, segundo se crê, na mesma pia baptismal onde um dia fora administrado o sacramento a Fernando Bulhões, o Santo António de Lisboa.
Aos 6 anos de idade António Vieira faz, com os pais e o irmão mais novo, a primeira de várias e penosas viagens que, durante a sua atribulada vida, irá realizar entre Portugal e o Brasil e vice-versa. Em quase todas elas irá sofrer um naufrágio.
António Vieira torna-se jesuíta por vocação e convicção desde o dia em fugiu de casa, com apenas 15 anos, e pediu refúgio aos padres da Companhia de Jesus detentores do melhor colégio da Baía.
Homem de invulgar inteligência e de uma vasta cultura foi pregador, missionário, diplomata, guerreiro e conselheiro do rei. Foi amado pelos pobres, oprimidos, escravos e índios ao lado de quem sempre lutou. Era odiado pelos nobres, ricos, colonos e até por alguns confrades jesuítas que não hesitaram em denunciá-lo e entregá-lo às garras da inquisição.
Do valioso legado que o Padre António Vieira nos deixou destacam-se os seus sermões.
Em 1654 planeia uma viagem secreta a Lisboa no sentido de sensibilizar a coroa para o caos moral que lavra por terras do Maranhão onde os colonos brancos desrespeitam, sem escrúpulos, a condição humana dos índios e negros, e ao mesmo tempo convencer o rei a legislar por forma a pôr cobro a esta situação de escravatura.
Antes, porém, na catedral de S. Luís irá pronunciar o seu mais belo sermão, o de “Santo António aos Peixes” - alusão parabólica ao estado das coisas na colónia.
À revelia das autoridades e dos brancos, embarca a 17 de Junho rumo a Lisboa, onde só chegará cinco meses depois.
Nesta longa e mais uma vez penosa viagem, a nau em que viaja enfrentará uma violenta tempestade ao largo da Ilha das Flores nos Açores. Passada a intempérie o navio é alvo de um ataque de piratas holandeses que tomam posse da embarcação. Os sobreviventes do saque, entre os quais se conta António Vieira, são embarcados num pequeno batel despojados de bens e roupas e deixados à sua sorte. Arrastados pelas correntes marítimas acabam por dar à costa da ilha Graciosa alguns dias depois sendo recolhidos pela população local. Ali permanecerão algum tempo durante o qual Vieira, depois de retemperadas as forças, exercendo o seu ónus sacerdotal, não se cansará de agradecer a Deus, por intersecção da Terceira Pessoa da Trindade, a protecção concedida. E fá-lo cantando o “terço”. Quando por fim, em Novembro, prosegue viagem para Lisboa os graciosences continuam esta prática que se generaliza primeiro a toda a ilha e depois às restantes do arquipélago. Assim começou uma tradição que perdurou até aos nossos dias.
Fontes: "Vidas Lusófonas"
Orlando Neves
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terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
ANDAM A TRAMAR A TRADIÇÃO
A tradição do Carnaval na Ilha Terceira é um fenómeno interessante de resistência ao estereótipo brasileiro, contrariando o que acontece um pouco por toda a parte onde é festejado. Uma resistência pacífica, sem dirigismos nem tutela, que provém apenas da vontade do “povo”.
As manifestações de Entrudo na Terceira tomam a forma de “danças de espada”, “danças de pandeiro”, “bailhinhos” e “comédias” e são, na opinião abalizada de José Orlando Bretão (1939 - 1998) advogado e estudioso do folclore açoriano, em especial das danças de Carnaval, exemplos de teatro puro, reminiscências do teatro medieval. São também para este investigador, a única e a última manifestação de cultura verdadeiramente tradicional e popular desta Ilha. Como ele gostava de sublinhar este é “o maior festival de teatro do mundo”.
A sua vitalidade pode medir-se pelos números aproximados deste ano, que pecarão certamente por defeito: 60 grupos organizados, envolvendo cerca de 2 000 pessoas, de entre músicos, actores, costureiras, autores de enredos e das músicas, ajudantes, etc., etc.. Efectuaram-se cerca de 1 600 representações para um público estimado em mais de 30 000 espectadores, numa ilha com pouco mais de 60 000 habitantes. Isto em apenas 4 dias! É obra!
Perante tamanho vigor pode concluir-se que esta tradição está de pedra e cal.
Estará?
No que diz respeito ao empenho popular e ao seu envolvimento espontâneo nesta tradição, não restarão dúvidas que sim e, o que é muito importante, de uma forma transversal a todos os sexos, idades e condições sociais. Exemplos inteligentes de criatividade e inovação nos textos dos enredos e nas músicas também não faltam. A qualidade dos actores e dos executantes musicais é cada vez mais apurada. A evolução é endócrina, permanente e natural e é, ao fim e ao cabo, o que mantém viva a tradição evitando assim a sua “folkorização”.
Mas existem alguns sinais de perigo que, de forma dissimulada, começam a minar esta herança cultural. Sem exaustão vou referir apenas aqueles que, quanto a mim são os mais gritantes:
1 – A crescente banalização dos eventos com o prolongamento das exibições fora da quadra carnavalesca como vem acontecendo nos últimos anos. Neste capítulo julgo que muita da responsabilidade cabe aos próprios grupos que, provavelmente com a melhor das intenções, estão a satisfazer interesses que não os seus. É que, lá diz o velho ditado, “o melhor da festa é esperar por ela”. Tal como defendi em outro artigo deste blog – As Quadras – tudo tem o seu tempo próprio ou então cheira a mentira, a vigarice, a artificialismo. A continuar assim, daqui por algum tempo, poderemos ver danças e bailinhos de Carnaval o ano todo, transformados em espectáculos de teatro ligeiro e de variedades.
2 - A moderna tendência de classificar as “danças e os bailinhos” fomentada e veiculada pelos órgãos de comunicação social pode vir a tornar-se uma arma letal par a maioria destes. Por tradição os grupos organizam-se sem intuitos competitivos, tendo apenas como único objectivo o aspecto lúdico. A criação de uma “divisão de elite”, onde só caberão apenas alguns, irá resultar inexoravelmente no desaparecimento dos preteridos.
3 – Todas as tentativas de regulamentação da acção destes grupos devem ser evitadas. Mesmo que aparentemente inofensivas como é o caso da hipotética calendarização das exibições e a organização dos percursos. Cada grupo deve gerir internamente todos os passos que irá percorrer desde a hora em que os elementos se juntam e decidem organizar-se até à última actuação de terça-feira gorda.
4 – A concentração dos espectáculos em grandes pavilhões multiusos, auditórios ou teatros, em detrimento das Sociedades Recreativas das freguesias rurais, é uma tendência recente que vem prejudicar e descaracterizar toda a envolvente da festa. O Carnaval tradicional na Terceira é um autêntico festival dos sentidos: é ver e ouvir “danças e bailinhos”; é tocar e abraçar o amigo que já não se via há algum tempo; é cheirar os petiscos que se preparam nos bares das sociedades; é provar da merenda que o ocupante da cadeira ao lado preparou para estes dias.
Por outro lado as “danças e bailinhos” são espectáculos de proximidade, em que os “artistas” e o público quase se tocam. O convencionalismo dos grandes espaços cria um fosso entre o palco e a plateia impossibilitando essa simbiose.
O diagnóstico precoce destes ou de outros perigos que espreitam esta herança cultural e a sua consequente denúncia é a única arma ao nosso alcance para fazer frente àqueles que, voluntária ou involuntariamente, andam a tramar a tradição
As manifestações de Entrudo na Terceira tomam a forma de “danças de espada”, “danças de pandeiro”, “bailhinhos” e “comédias” e são, na opinião abalizada de José Orlando Bretão (1939 - 1998) advogado e estudioso do folclore açoriano, em especial das danças de Carnaval, exemplos de teatro puro, reminiscências do teatro medieval. São também para este investigador, a única e a última manifestação de cultura verdadeiramente tradicional e popular desta Ilha. Como ele gostava de sublinhar este é “o maior festival de teatro do mundo”.
A sua vitalidade pode medir-se pelos números aproximados deste ano, que pecarão certamente por defeito: 60 grupos organizados, envolvendo cerca de 2 000 pessoas, de entre músicos, actores, costureiras, autores de enredos e das músicas, ajudantes, etc., etc.. Efectuaram-se cerca de 1 600 representações para um público estimado em mais de 30 000 espectadores, numa ilha com pouco mais de 60 000 habitantes. Isto em apenas 4 dias! É obra!
Perante tamanho vigor pode concluir-se que esta tradição está de pedra e cal.
Estará?
No que diz respeito ao empenho popular e ao seu envolvimento espontâneo nesta tradição, não restarão dúvidas que sim e, o que é muito importante, de uma forma transversal a todos os sexos, idades e condições sociais. Exemplos inteligentes de criatividade e inovação nos textos dos enredos e nas músicas também não faltam. A qualidade dos actores e dos executantes musicais é cada vez mais apurada. A evolução é endócrina, permanente e natural e é, ao fim e ao cabo, o que mantém viva a tradição evitando assim a sua “folkorização”.
Mas existem alguns sinais de perigo que, de forma dissimulada, começam a minar esta herança cultural. Sem exaustão vou referir apenas aqueles que, quanto a mim são os mais gritantes:
1 – A crescente banalização dos eventos com o prolongamento das exibições fora da quadra carnavalesca como vem acontecendo nos últimos anos. Neste capítulo julgo que muita da responsabilidade cabe aos próprios grupos que, provavelmente com a melhor das intenções, estão a satisfazer interesses que não os seus. É que, lá diz o velho ditado, “o melhor da festa é esperar por ela”. Tal como defendi em outro artigo deste blog – As Quadras – tudo tem o seu tempo próprio ou então cheira a mentira, a vigarice, a artificialismo. A continuar assim, daqui por algum tempo, poderemos ver danças e bailinhos de Carnaval o ano todo, transformados em espectáculos de teatro ligeiro e de variedades.
2 - A moderna tendência de classificar as “danças e os bailinhos” fomentada e veiculada pelos órgãos de comunicação social pode vir a tornar-se uma arma letal par a maioria destes. Por tradição os grupos organizam-se sem intuitos competitivos, tendo apenas como único objectivo o aspecto lúdico. A criação de uma “divisão de elite”, onde só caberão apenas alguns, irá resultar inexoravelmente no desaparecimento dos preteridos.
3 – Todas as tentativas de regulamentação da acção destes grupos devem ser evitadas. Mesmo que aparentemente inofensivas como é o caso da hipotética calendarização das exibições e a organização dos percursos. Cada grupo deve gerir internamente todos os passos que irá percorrer desde a hora em que os elementos se juntam e decidem organizar-se até à última actuação de terça-feira gorda.
4 – A concentração dos espectáculos em grandes pavilhões multiusos, auditórios ou teatros, em detrimento das Sociedades Recreativas das freguesias rurais, é uma tendência recente que vem prejudicar e descaracterizar toda a envolvente da festa. O Carnaval tradicional na Terceira é um autêntico festival dos sentidos: é ver e ouvir “danças e bailinhos”; é tocar e abraçar o amigo que já não se via há algum tempo; é cheirar os petiscos que se preparam nos bares das sociedades; é provar da merenda que o ocupante da cadeira ao lado preparou para estes dias.
Por outro lado as “danças e bailinhos” são espectáculos de proximidade, em que os “artistas” e o público quase se tocam. O convencionalismo dos grandes espaços cria um fosso entre o palco e a plateia impossibilitando essa simbiose.
O diagnóstico precoce destes ou de outros perigos que espreitam esta herança cultural e a sua consequente denúncia é a única arma ao nosso alcance para fazer frente àqueles que, voluntária ou involuntariamente, andam a tramar a tradição
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008
CADA UM ESTÁ P'RÓ QUE NASCE
Francisco Lacerda (1869-1934), maestro das fajãs, Jorgense do mundo, teve como um dos seus ídolos um tal Francisco Ceguinho, terceirense, tocador de viola. E de tal modo o tinha em consideração que o fez seu hóspede durante uma visita que o Ceguinho efectuou a S. Jorge em altura que o genial músico se encontrava a espairecer na sua Ribeira Seca natal.No silêncio da Ilha ouviram-se por esses dias, diz-se, as mais belas melodias alguma vez retiradas das cordas de uma viola.
Lacerda, na sua visão universal da música, tinha pelas cantigas simples do povo e pelos seus executantes uma grande paixão e um enorme respeito.
Vitorino Nemésio (1901-1978) inventor da açorianiedade, catedrático dos saberes do povo, homem de paixões exuberantes e arrebatadoras, também tinha por ídolo o popular José da Lata, bravo pastor de cantigas e de gado, “mandador de bailes”, dono de uma voz de anjo, doce e escorreita e que, embora com menos desembaraço, também “rasgava” à viola. Por ele revelava uma admiração imensa.
Nemésio e Lacerda nutriam um fascínio indisfarçável pela “viola da terra”.
Se para Lacerda a viola fosse apenas mais um veículo revelador dos seus dotes musicais, para o Professor constitui-se sempre como um obstáculo ao seu saber universal. Apesar disso nunca se inibiu de a tanger sempre com a benevolente complacência dos circunstantes, mau grado a sua frequência em 1964 na Classe de Viola do Prof. Emilio Pujol (1886-1980) do Conservatório Nacional. Lá diz o velho ditado: “cada um está p'ró que nasce”.
sexta-feira, 25 de janeiro de 2008
COSTUMES
Isto de costumes tem muito que se lhe diga. Num periódico local de 1895 (A União) ainda se assinalava uma antiga costumeira nas celebrações matrimoniais ocorridas na freguesia dos Biscoitos, freguesia que se prezava não só nos verdelhos como também nos vinhateiros, pois foi essencialmente e ainda é dos lugares mais apreciados de vinho verdelho que adquiriu justa fama.
Conta-se então que por volta de 1860 «ninguém se casava de entre os principais do lugar que não fosse de sobrecasaca de pano fino azul e chapéu alto; mas um fato assim era caro e não havia meios para o obter: tudo se remediava, porém, pedindo-se emprestada a sobrecasaca e o chapéu alto de uso de certo indivíduo da freguesia, que de boa vontade emprestava esses aprestos dos noivos. De sorte que raro era o noivo em que não servisse aquela sobrecasaca e aquele chapéu. Era engraçado, caricato mesmo, mas não ofendia». Para tal traje masculino só não encontrámos ainda notícia de como seria o da noiva, naturalmente mais castiço e gracioso, mas, duvida-se, que emprestado!...
V.M
(Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira 2004)
sexta-feira, 11 de janeiro de 2008
ELOGIO À VIOLA

Cantigas à minha viola
Ó viola encordoada
Com quinze cravos de aposta,
Com quinze cravos de aposta,
Minha pêra acinturada,
Minha maçã de Bemposta
Quando te toco nas cordas,
À boca do coração,
Vou-me sangrando em saúde
Que nem sumo de limão.
Tens os pontos doiradinhos,
Tens os espaços de luto,
Tens os espaços de luto,
Cada prima é uma flor,
Cada cravelha é um fruto...
Cada bordão é um zangão,
Cada toeira uma abelha,
Ó jardim de madrepérola
Da minha festa vermelha!
Letrinha de 8 somada
Pelas tuas seis parcelas
Mai-las minhas mãos cansadas,
Amarelas... amarelas...
Pendurada a tiracolo
No teu cordão cor de vinho,
És o meu saco de cego,
O meu burro e o meu moinho.
No florão da minha viola
Pus uma tira de espelho,
Para ver, de quando em quando,
Se estou novo, se estou velho.
Na caixa da minha viola
Há um letreiro que diz:
V. DA SILVA, VIOLEIRO,
ILHA TERCEIRA – PARIS.
Mas um tolo, um engraçado,
Colou com cuspo uns tarjões:
V. DA SILVA, CANGALHEIRO DE ALMAS,
FAZ VIOLAS E CAIXÕES.
Meu amor, deixa falar!
Dorme, não percas a esperança!
Morta, na minha viola,
Serás como uma criança.
Que seis meninas de arame
É que te levam à campa,
Com seis florinhas de pau
Espetadinhas na tampa.
E o limão, a violeta,
A madrepérola, o espelhinho
Hão-de te servir de terra
E de mortalha de linho.
Minha viola de luxo,
Minha enxada de cantar,
Meu instrumento de fogo,
Caixinha do meu chorar!
Viola, bordão de prata,
Vida violeta, violeta...
Prima, coração me mata...
Poeta! Poeta! Poeta!
(Vitorino Nemésio (1901-1978), Festa Redonda, Lisboa, 1950, pp. 77-79).
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domingo, 6 de janeiro de 2008
CANTAR OS REIS
Nesta época Natalícia e, segundo os organizadores, para se cumprir a tradição, vão realizar-se um pouco por todo o país as “cantatas de reis”. Estes eventos anunciados para se realizarem em salões de festas de sociedades recreativas, pavilhões polivalentes, sedes de juntas de freguesia, ginásios das escolas, auditórios, etc. ou tão só em forma de desfile pelas ruas principais das freguesias, vilas ou cidades são, quanto a nós, mais uma a juntar a tantas outras formas de se acabar definitivamente com a verdadeira “tradição de cantar os reis”.“Cantar os reis” tem, como qualquer outra actividade da cultura popular, um tempo, um espaço e uma função própria.
O tempo é este, em que se comemora o nascimento de Jesus e que vai desde 25 de Dezembro até 6 de Janeiro, tradicionalmente o dia de Reis. A importância deste dia conferiu-lhe, durante muitos anos, o estatuto de “dia Santo”, logo dia feriado. Em muitos países é ainda este o dia mais importante da celebração do Natal.
Nalgumas localidades o cíclo Natalício só termina a 2 de Fevereiro, dia dedicado à luz, às estrelas ou às candeias. Dia em que a liturgia Católica comemora Nossa Senhora das Candeias ou da Candelária. Tradicionalmente era também durante este período que se realizavam as matanças do porco. Assim os ranchos de Reis tanto saíam para cantar loas ao “menino Jesus” como para enaltecer os “toucinhos” de uma matança. As toadas com que o faziam eram em todo semelhantes na estrutura, embora com variantes melódicas para cada uma das funções.
Os espaços em que se movimentavam estes ranchos eram as casas dos amigos e dos familiares em visitas, quase sempre de surpresa, para provar a “mija do menino”, ou no caso das matanças, para se avaliar e comparar os predicados do “porco”. Daí que a função desta manifestação fosse essencialmente social.
E hoje? Não será possível continuar a tradição sem a desvirtuar nestes princípios? Claro que sim. É perfeitamente possível. É o que temos feito de há 15 anos a esta parte, de uma forma pioneira e que, felizmente, tem motivado o aparecimento de outros ranchos: continua a celebrar-se o Natal e a haver matanças do porco; continua a haver amigos e a realizarem-se visitas; apesar dos tempos, o homem continua a ser “animal” social. Assim a tradição, a verdadeira tradição, não está, aparentemente, em perigo de se perder. A não ser que os poderes percam por completo o juízo e teimem em continuar a “meter a foice em seara alheia”.
quarta-feira, 7 de novembro de 2007
EGO EM ALTA

Em Agosto último a revista canadiana “Islands” colocou a açoriana Ilha do Pico numa lista das 20 melhores ilhas do mundo para se viver a par das Penang (Malasia); Utila (Honduras); Aruba (Caraíbas); St.Kitts (Antilhas); Taveuni (Fiji); Union Island (St. Vicent e Grenadines); Norfolk island (Austrália); Isla Colon (Panamá); Gozo (Malta); Carriacou (Grenadines); Dominica (Caraíbas); Éfaté (Vanuatu); Nova Zelandia, Long island (Bahamas); Big Island (Hawai); Cedar Key (Florida, EUA); Grand Cayman; Negros Oriental (Filipinas); Vieques (Porto Rico). " (...) O clima é considerado ameno e nebuloso e é destacada a honestidade e amabilidade das pessoas da ilha. A paisagem da Vinha património mundial da UNESCO não é esquecida mas o grande destaque vai para a montanha. "É uma ilha que dispõe dos ares mais puros do planeta"
Agora vem a revista “National Geografic Travel” colocar os Açores em segundo lugar, numa lista de 111 ilhas e arquipélagos analisados sob o ponto de vista do equilíbrio entre a sua condição de destino turístico e o desenvolvimento sustentável. Para apuramento dessa classificação, que a publicação divulga anualmente, foram ouvidos 522 especialistas em turismo sustentável que registam os destinos em risco de sucumbir à pressão turística e os que conseguiram encontrar um equilíbrio.
“Um sítio maravilhoso”, “ambiente em boa forma” e “habitantes muito sofisticados” são apenas algumas das conclusões a que chegaram os especialistas para, numa pontuação de zero a cem, atribuírem ao arquipélago 84 pontos. “O ecossistema está em grande forma. As baleias são ainda uma visão comum. A cultura local é forte e vibrante. È comum ser convidado para casa das pessoas para jantar, ou ser recebido com uma refeição comunal durante um festival” são ainda argumentos determinantes para esta classificação.
Nestas duas classificações que fizeram engordar o meu ego, confesso, são comuns os itens em análise de onde sobressaem as avaliações às pessoas e à cultura. É, ao fim e ao cabo, um julgamento à nossa consciência colectiva e um reconhecimento, à escala planetária, da forma como temos trabalhado na preservação da nossa própria identidade.
Agora vem a revista “National Geografic Travel” colocar os Açores em segundo lugar, numa lista de 111 ilhas e arquipélagos analisados sob o ponto de vista do equilíbrio entre a sua condição de destino turístico e o desenvolvimento sustentável. Para apuramento dessa classificação, que a publicação divulga anualmente, foram ouvidos 522 especialistas em turismo sustentável que registam os destinos em risco de sucumbir à pressão turística e os que conseguiram encontrar um equilíbrio.
“Um sítio maravilhoso”, “ambiente em boa forma” e “habitantes muito sofisticados” são apenas algumas das conclusões a que chegaram os especialistas para, numa pontuação de zero a cem, atribuírem ao arquipélago 84 pontos. “O ecossistema está em grande forma. As baleias são ainda uma visão comum. A cultura local é forte e vibrante. È comum ser convidado para casa das pessoas para jantar, ou ser recebido com uma refeição comunal durante um festival” são ainda argumentos determinantes para esta classificação.
Nestas duas classificações que fizeram engordar o meu ego, confesso, são comuns os itens em análise de onde sobressaem as avaliações às pessoas e à cultura. É, ao fim e ao cabo, um julgamento à nossa consciência colectiva e um reconhecimento, à escala planetária, da forma como temos trabalhado na preservação da nossa própria identidade.
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domingo, 28 de outubro de 2007
A VIOLA DE ARAME DA ILHA TERCEIRA

PEQUENO CONTRIBUTO PARA O ESTUDO DA ORIGEM E EVOLUÇÃO
O primeiro tratado escrito sobre um novo instrumento, denominado expressamente “Guitarra Espanhola”, data de 1586 e é da autoria de JUAN CARLOS AMAT . Este novo instrumento tem 5 ordens de cordas e afina “lá ré sol si mi” do grave para o agudo.
No séc. XVII está largamente difundido em Portugal.
Em 1789 publica-se em Coimbra a nova arte da viola, de MANUEL DA PAIXÃO RIBEIRO. Segundo ele, a viola tem 5 ordens de cordas, armando com 12, com a afinação do agudo para o grave mi si sol ré lá, sendo as três primeiras duplas e as duas últimas triplas.
“A viola, devido às suas possibilidades e regularidade cromática e maleabilidade de afinação, acompanhou e adaptou-se facilmente às transformações que a música sofreu no decurso dos séc. XVII e XVIII, apresentando-se hoje como o instrumento popular próprio da música do tipo recente, mais acessível ao gosto actual do povo, contrapondo-se aos instrumentos do ciclo pastoril - a gaita de foles, o tamboril, a flauta e o adufe, especificamente ajustados às escalas e exigências rítmicas da música arcaica, austera e cerimonial ou mesmo festiva.” (ERNESTO VEIGA DE OLIVEIRA)
A viola chega aos Açores provavelmente em finais do sec. XVI ou princípios do sec. XVII. No arquipélago toma características comuns a todas as ilhas, o que nos leva, com toda a certeza, a considerar a existência de uma “viola tradicional açoriana” e englobá-la na grande família das violas Portuguesas, - eventualmente uma irmã gémea da viola coimbrã. Esta viola manteve as suas características fundamentais primitivas em todas as Ilhas, mas aqui e acolá foi adquirindo particularidades estéticas diferenciadas, sabendo-se por elas a sua origem A afinação foi sofrendo também algumas alterações, prevalecendo no entanto na maioria das ilhas a afinação original.
É apenas na Ilha Terceira que nos aparece, provavelmente na segunda metade do séc. XIX, um instrumento semelhante às violas Açorianas, exibindo no entanto algumas diferenças fundamentais: é acrescentada às suas cinco parcelas mais uma ordem de 3 cordas que afinam em mi; a caixa de ressonância é aumentada, assim como o braço, aumentando simultaneamente o número de pontos – trastes - dando-lhe mais potencialidades para a execução dos exigentes temas musicais tradicionais terceirenses.
A forma de tocar assume aqui uma componente muito relevante: passa-se do rasgar puro e simples, quase sempre com o polegar, de cima para baixo, como acontece ainda hoje por exemplo nas ilhas de S. Miguel ou das Flores para um dedilhar de baixo para cima, utilizando o indicador, reservando o polegar para eventuais acompanhamentos nas cordas graves. Esta nova forma de tocar aumenta de executantes à medida que vão desaparecendo as motivações pelas quais as pessoas se juntavam e dançavam as modas tradicionais em que era bastante marcar, rasgando, o compasso e os tons da música que era cantada por todos, sem se dar grande importância à voz realçando-se acima de tudo o texto das quadras ou sextilhas que eram “atiradas” em permanente despique.
Mas é sobretudo com o aparecimento dos modernos meios de retenção e difusão áudio, que aparecem os virtuosos executantes deste instrumento. Retirados de todo o contexto, eles assumem aqui um papel de topo, tal como os cantadores. O que é importante agora é a execução musical e a voz do cantador. Às músicas simples do povo são acrescentados magníficos rendilhados tantos quantos o poder de criatividade do executante lhe permitissem.
É esta forma de tocar e este instrumento que nos é deixado como herança, e é sobre ele que recai hoje em dia toda a responsabilidade melódica das músicas populares terceirenses, dançadas e recriadas pelos grupos de Folclore.
O primeiro tratado escrito sobre um novo instrumento, denominado expressamente “Guitarra Espanhola”, data de 1586 e é da autoria de JUAN CARLOS AMAT . Este novo instrumento tem 5 ordens de cordas e afina “lá ré sol si mi” do grave para o agudo.
No séc. XVII está largamente difundido em Portugal.
Em 1789 publica-se em Coimbra a nova arte da viola, de MANUEL DA PAIXÃO RIBEIRO. Segundo ele, a viola tem 5 ordens de cordas, armando com 12, com a afinação do agudo para o grave mi si sol ré lá, sendo as três primeiras duplas e as duas últimas triplas.
“A viola, devido às suas possibilidades e regularidade cromática e maleabilidade de afinação, acompanhou e adaptou-se facilmente às transformações que a música sofreu no decurso dos séc. XVII e XVIII, apresentando-se hoje como o instrumento popular próprio da música do tipo recente, mais acessível ao gosto actual do povo, contrapondo-se aos instrumentos do ciclo pastoril - a gaita de foles, o tamboril, a flauta e o adufe, especificamente ajustados às escalas e exigências rítmicas da música arcaica, austera e cerimonial ou mesmo festiva.” (ERNESTO VEIGA DE OLIVEIRA)
A viola chega aos Açores provavelmente em finais do sec. XVI ou princípios do sec. XVII. No arquipélago toma características comuns a todas as ilhas, o que nos leva, com toda a certeza, a considerar a existência de uma “viola tradicional açoriana” e englobá-la na grande família das violas Portuguesas, - eventualmente uma irmã gémea da viola coimbrã. Esta viola manteve as suas características fundamentais primitivas em todas as Ilhas, mas aqui e acolá foi adquirindo particularidades estéticas diferenciadas, sabendo-se por elas a sua origem A afinação foi sofrendo também algumas alterações, prevalecendo no entanto na maioria das ilhas a afinação original.
É apenas na Ilha Terceira que nos aparece, provavelmente na segunda metade do séc. XIX, um instrumento semelhante às violas Açorianas, exibindo no entanto algumas diferenças fundamentais: é acrescentada às suas cinco parcelas mais uma ordem de 3 cordas que afinam em mi; a caixa de ressonância é aumentada, assim como o braço, aumentando simultaneamente o número de pontos – trastes - dando-lhe mais potencialidades para a execução dos exigentes temas musicais tradicionais terceirenses.
A forma de tocar assume aqui uma componente muito relevante: passa-se do rasgar puro e simples, quase sempre com o polegar, de cima para baixo, como acontece ainda hoje por exemplo nas ilhas de S. Miguel ou das Flores para um dedilhar de baixo para cima, utilizando o indicador, reservando o polegar para eventuais acompanhamentos nas cordas graves. Esta nova forma de tocar aumenta de executantes à medida que vão desaparecendo as motivações pelas quais as pessoas se juntavam e dançavam as modas tradicionais em que era bastante marcar, rasgando, o compasso e os tons da música que era cantada por todos, sem se dar grande importância à voz realçando-se acima de tudo o texto das quadras ou sextilhas que eram “atiradas” em permanente despique.
Mas é sobretudo com o aparecimento dos modernos meios de retenção e difusão áudio, que aparecem os virtuosos executantes deste instrumento. Retirados de todo o contexto, eles assumem aqui um papel de topo, tal como os cantadores. O que é importante agora é a execução musical e a voz do cantador. Às músicas simples do povo são acrescentados magníficos rendilhados tantos quantos o poder de criatividade do executante lhe permitissem.
É esta forma de tocar e este instrumento que nos é deixado como herança, e é sobre ele que recai hoje em dia toda a responsabilidade melódica das músicas populares terceirenses, dançadas e recriadas pelos grupos de Folclore.
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quinta-feira, 11 de outubro de 2007
DOIS TEXTOS E UMA OPINIÃO

Não resisto à tentação de partilhar com todos os meus leitores dois textos de Maud Pauline Karpeles (1885-1976) com os quais dei de caras, há alguns dias atrás, num artigo publicado em 1957 na revista Brasileira de Porto Alegre “Província de São Pedro”.
1 - UMA RIQUEZA UNIVERSAL: A MÚSICA FOLCLÓRICA
Todo o esforço artístico pode vir a ser um factor de aproximação social: todos estão, sem dúvida, convencidos e não há necessidade de sublinhar que esta proposição é particularmente verdadeira no que se refere à música, a mais universal de todas as artes.
É preciso admitir, entretanto, que certas formas de música exercem, em geral, maior atractivo do que outras e que, em consequência, varia a sua influência como elemento de aproximação.
Proponho-me a mostrar que a natureza da música folclórica é capaz de agradar a todo o mundo, sem distinção de classe social ou de nível cultural.
Há alguns anos recolhi cantos folclóricos na Terra Nova. Achava-me em casa de uma família de pescadores, num lugarejo costeiro, muito afastado. Passamos uma tarde agradabilíssima, a cantar cada um por sua vez e no momento em que eu me ia recolher, dado o avançado da hora, o pescador, virando-se para a sua mulher, disse-lhe: “é verdadeiramente curioso que uma estrangeira pudesse ser a tal ponto tão igual a nós”. O pescador iletrado reconhecia assim que a música folclórica constitui um elemento de aproximação social, embora não tivesse empregue os termos citados.
É lamentável que os músicos cultos nem sempre apreciem a música folclórica com seu justo valor, pelo facto de terem assumido a seu respeito uma certa atitude condescendente; eu diria mesmo: um certo snobismo. Essa atitude resulta, em grande parte, da falsa ideia que fazem da natureza desta música. Consideram-na como música primitiva, como matéria-prima que o compositor pode utilizar e transformarem obra de arte, embora, por ela mesma, não sirva senão de distracção para crianças e para os que a desconhecem. Ouvi, um dia, um eminente músico exprimir deliberadamente essa opinião. “Não seria lamentável, dizia ele, que toda a nossa formação e todos os nossos estudos não nos tenham elevado acima desta música de camponeses ignorantes e incultos: “ Rouxinol, eu farei como o rouxinol…”.
O erro consiste precisamente em pensar que a expressão artística depende necessariamente do ensino de carácter escolar que se recebeu. Equivale a acreditar que o homem seria incapaz de se exprimir se o gramático não lhe viesse ensinar a fazer uso das palavras. É evidente que, se o homem canta e dança é porque o canto e a dança lhe são inatos. Recordemos aqui estas palavras de Epiceto: “Rouxinol eu faria como o rouxinol, Cisne, eu faria como o cisne. Mas como sou um ser racional, eu devo cantar para Deus”.
Entretanto, não se deve considerar a música folclórica como uma efusão espontânea e vaga da alma humana. A música folclórica tem suas leis e seus princípios que, por serem aplicados inconscientemente, não são por isso mesmo certos. Um canto ou uma dança folclórica não nasce espontaneamente de uma emoção qualquer. Neste domínio, todo o cantador ou dançarino, embora sendo grande a sua facilidade de improvisação, segue de maneira geral, certos modelos estabelecidos pela tradição que lhe chegaram por transmissão oral.
Um canto folclórico distingue-se de um trecho de canto clássico não porque fosse ele escrito sem arte, mas porque em lugar de ser uma obra de um só individuo é o produto complexo de diversas gerações de cantores que, após muitas apalpadelas, terminaram por achar a forma de expressão que convinha melhor ao génio da comunidade. É preciso aqui distinguir música folclórica autêntica e a chamada música popular.
A música folclórica é uma herança do passado, porém ela guardou a sua frescura e a sua vitalidade graças às transformações constantes que influiu nela no curso da transmissão oral. A música dita popular, ao contrário, é uma obra individual, que acometeu a imaginação popular, mas somente de maneira superficial; não tendo nenhuma raiz profunda no passado, não tardará geralmente em desaparecer.
Segundo o meu ponto de vista, seria utilíssimo para a causa da cultura e para o bem do público, em geral, que os educadores especializados reconheçam a verdadeira natureza da música folclórica e a apresentem como uma forma de arte tendo sua beleza intrínseca, digna de ser cultivada por ela mesma. Infelizmente, na maior parte dos países que são a vanguarda do progresso – ou, pelo menos, do que se possa assim chamar – a música folclórica, negligenciada, cai no esquecimento e não se mantém mais senão entre as populações rurais, menos sensíveis à influência da civilização moderna; assim à medida que a civilização se estende, a música folclórica desaparece.
Todo o esforço artístico pode vir a ser um factor de aproximação social: todos estão, sem dúvida, convencidos e não há necessidade de sublinhar que esta proposição é particularmente verdadeira no que se refere à música, a mais universal de todas as artes.
É preciso admitir, entretanto, que certas formas de música exercem, em geral, maior atractivo do que outras e que, em consequência, varia a sua influência como elemento de aproximação.
Proponho-me a mostrar que a natureza da música folclórica é capaz de agradar a todo o mundo, sem distinção de classe social ou de nível cultural.
Há alguns anos recolhi cantos folclóricos na Terra Nova. Achava-me em casa de uma família de pescadores, num lugarejo costeiro, muito afastado. Passamos uma tarde agradabilíssima, a cantar cada um por sua vez e no momento em que eu me ia recolher, dado o avançado da hora, o pescador, virando-se para a sua mulher, disse-lhe: “é verdadeiramente curioso que uma estrangeira pudesse ser a tal ponto tão igual a nós”. O pescador iletrado reconhecia assim que a música folclórica constitui um elemento de aproximação social, embora não tivesse empregue os termos citados.
É lamentável que os músicos cultos nem sempre apreciem a música folclórica com seu justo valor, pelo facto de terem assumido a seu respeito uma certa atitude condescendente; eu diria mesmo: um certo snobismo. Essa atitude resulta, em grande parte, da falsa ideia que fazem da natureza desta música. Consideram-na como música primitiva, como matéria-prima que o compositor pode utilizar e transformarem obra de arte, embora, por ela mesma, não sirva senão de distracção para crianças e para os que a desconhecem. Ouvi, um dia, um eminente músico exprimir deliberadamente essa opinião. “Não seria lamentável, dizia ele, que toda a nossa formação e todos os nossos estudos não nos tenham elevado acima desta música de camponeses ignorantes e incultos: “ Rouxinol, eu farei como o rouxinol…”.
O erro consiste precisamente em pensar que a expressão artística depende necessariamente do ensino de carácter escolar que se recebeu. Equivale a acreditar que o homem seria incapaz de se exprimir se o gramático não lhe viesse ensinar a fazer uso das palavras. É evidente que, se o homem canta e dança é porque o canto e a dança lhe são inatos. Recordemos aqui estas palavras de Epiceto: “Rouxinol eu faria como o rouxinol, Cisne, eu faria como o cisne. Mas como sou um ser racional, eu devo cantar para Deus”.
Entretanto, não se deve considerar a música folclórica como uma efusão espontânea e vaga da alma humana. A música folclórica tem suas leis e seus princípios que, por serem aplicados inconscientemente, não são por isso mesmo certos. Um canto ou uma dança folclórica não nasce espontaneamente de uma emoção qualquer. Neste domínio, todo o cantador ou dançarino, embora sendo grande a sua facilidade de improvisação, segue de maneira geral, certos modelos estabelecidos pela tradição que lhe chegaram por transmissão oral.
Um canto folclórico distingue-se de um trecho de canto clássico não porque fosse ele escrito sem arte, mas porque em lugar de ser uma obra de um só individuo é o produto complexo de diversas gerações de cantores que, após muitas apalpadelas, terminaram por achar a forma de expressão que convinha melhor ao génio da comunidade. É preciso aqui distinguir música folclórica autêntica e a chamada música popular.
A música folclórica é uma herança do passado, porém ela guardou a sua frescura e a sua vitalidade graças às transformações constantes que influiu nela no curso da transmissão oral. A música dita popular, ao contrário, é uma obra individual, que acometeu a imaginação popular, mas somente de maneira superficial; não tendo nenhuma raiz profunda no passado, não tardará geralmente em desaparecer.
Segundo o meu ponto de vista, seria utilíssimo para a causa da cultura e para o bem do público, em geral, que os educadores especializados reconheçam a verdadeira natureza da música folclórica e a apresentem como uma forma de arte tendo sua beleza intrínseca, digna de ser cultivada por ela mesma. Infelizmente, na maior parte dos países que são a vanguarda do progresso – ou, pelo menos, do que se possa assim chamar – a música folclórica, negligenciada, cai no esquecimento e não se mantém mais senão entre as populações rurais, menos sensíveis à influência da civilização moderna; assim à medida que a civilização se estende, a música folclórica desaparece.
2 – MÚSICA CLÁSSICA, OU MÚSICA DE CLASSE?
Desta situação provém, em grande parte, parece-me, a atitude dos músicos profissionais de empregarem idioma musical estrangeiro, porque desconhecem a música folclórica do seu próprio país. Disto resulta que uma grande parte da população é indiferente à música de concertos como um abismo entre a música dos “intelectuais” e a música do “vulgo”. As massas operárias não conhecem nem a música de concerto, nem a música folclórica, mas se distraem a ouvir jazz, ou seus últimos sucedâneos e coisas sentimentais sem valor artístico. Ninguém gosta de ser considerado como “antiquado”: assim como o cidadão moderno é inclinado a desdenhar a música folclórica, o camponês apressa-se em imitá-lo.
Em compensação o menor estímulo é suficiente para o cantor ou o dançarino folclórico exaltar a fé na sua arte. Mas este encorajamento não deve tomar a aparência de uma paternidade condescendente. De nade serviria incentivar a música folclórica porque nós a julgaríamos melhor para certas classes da sociedade, mas não suficientes para nós mesmos.
Como acontece na música folclórica e como em todas as outras formas artísticas, seu campo é limitado. Mas, dentro destes limites, as melhores obras do folclore são comparáveis às dos grandes mestres.
Não considerei até aqui a música folclórica sobre o plano nacional, mas é de supor-se que existe em uma certa comunidade de pensamento e de um mesmo modo de vida. Apresenta-se a questão em saber se a música folclórica pode agir como elemento de aproximação social, quer no plano internacional quer no plano nacional. Pessoalmente, creio, com alguma reserva, que se deve conhecer perfeitamente a música folclórica do seu próprio país antes mesmo de tentar compreender a de outros. Ficar-se-á então habilitado apreciar esta divergência que concorre para a unidade, e não se limitará simplesmente a cultivar um gosto cosmopolita.
O canto folclórico fixa evidentemente um problema linguístico, mas ele pode constituir uma excelente introdução ao estudo de um idioma estrangeiro. Além disso é possível traduzir um canto folclórico sem que ele perca muito da sua inspiração e do seu sentido original.
Na dança folclórica, o obstáculo linguístico desaparece: também ela exerce um atractivo universal, ainda mais do que o canto folclórico. A falta de palavras a torna precisamente um meio de expressão mais comovente do que o canto, porque atinge o homem mais profundamente em seu subconsciente.
Não há, entretanto, nenhuma surpresa nisso, pois na base das danças folclóricas do mundo inteiro, há ritos religiosos que estiveram, outrora, ligados às crenças comuns a toda a humanidade. Estas crenças são expressas sob formas muito diferentes mas, em geral, elas todas se congregam no mesmo desejo de continuidade e unidade de vida que existe em cada ser humano.
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segunda-feira, 1 de outubro de 2007
MUSEU DA MÚSICA
«Culturas Musicais da União Europeia: Uma Viagem Instrumental»
De 21 de Setembro a 29 de Dezembro de 2007
O Museu da Música é desde 21 de Setembro o palco de uma viagem-exposição ao mundo dos instrumentos e culturas musicais da União Europeia (UE), num itinerário que prevê pequenas paragens em cada um dos 27 países membros e regresso a casa para o encerramento da Presidência Portuguesa.Porque viagens há muitas, o bilhete quer desta vez levar o viajante ao encontro de uma pequena porção da diversidade musical e instrumental que se encontra pelos quatro cantos da UE, devidamente reproduzida à escala do Museu. Os embaixadores escolhidos são os instrumentos; afinal sem eles dificilmente se faz música.Da guitarra portuguesa ao cavaquinho (Portugal), com acompanhamento de, entre outros, castanholas (Espanha), kaval (Bulgária), laouto (Chipre), trstenke (Eslovénia), saxofone (Bélgica), kantele (Finlândia), bouzouki (Grécia), harpa (Irlanda), kokle (Letónia), zaqq (Malta), cobza (Roménia) ou nyckelharpa (Suécia), são vários os instrumentos a descobrir e, como tal, muita música “nova” para nos encher os ouvidos. Numa selecção que não se quer exaustiva e muito menos definitiva, estes embaixadores surgirão enquadrados com imagens e textos explicativos sobre a música de cada país-membro, numa unidade feita de diversidade instrumental, onde é possível encontrar raízes musicais comuns.Para animar o percurso até 29 de Dezembro, altura em que a viagem chega ao fim, prevê-se a realização de várias actividades sempre às sextas-feiras e sábados, com cada um dos dias dedicado em exclusivo a um dos 27.Como co-pilotos, o Museu contou com um sem número de apoios, em especial das Embaixadas dos países da UE em Portugal, mas também de vários museus da música europeus e de Embaixadas portuguesas na UE. Não deixe de se juntar a nós nesta viagem de descoberta musical visitando a exposição e o blog que criámos (http://museudamusica.blogspot.com/). Se puder, ajude-nos também a passar mensagem.
O Museu da Música é desde 21 de Setembro o palco de uma viagem-exposição ao mundo dos instrumentos e culturas musicais da União Europeia (UE), num itinerário que prevê pequenas paragens em cada um dos 27 países membros e regresso a casa para o encerramento da Presidência Portuguesa.Porque viagens há muitas, o bilhete quer desta vez levar o viajante ao encontro de uma pequena porção da diversidade musical e instrumental que se encontra pelos quatro cantos da UE, devidamente reproduzida à escala do Museu. Os embaixadores escolhidos são os instrumentos; afinal sem eles dificilmente se faz música.Da guitarra portuguesa ao cavaquinho (Portugal), com acompanhamento de, entre outros, castanholas (Espanha), kaval (Bulgária), laouto (Chipre), trstenke (Eslovénia), saxofone (Bélgica), kantele (Finlândia), bouzouki (Grécia), harpa (Irlanda), kokle (Letónia), zaqq (Malta), cobza (Roménia) ou nyckelharpa (Suécia), são vários os instrumentos a descobrir e, como tal, muita música “nova” para nos encher os ouvidos. Numa selecção que não se quer exaustiva e muito menos definitiva, estes embaixadores surgirão enquadrados com imagens e textos explicativos sobre a música de cada país-membro, numa unidade feita de diversidade instrumental, onde é possível encontrar raízes musicais comuns.Para animar o percurso até 29 de Dezembro, altura em que a viagem chega ao fim, prevê-se a realização de várias actividades sempre às sextas-feiras e sábados, com cada um dos dias dedicado em exclusivo a um dos 27.Como co-pilotos, o Museu contou com um sem número de apoios, em especial das Embaixadas dos países da UE em Portugal, mas também de vários museus da música europeus e de Embaixadas portuguesas na UE. Não deixe de se juntar a nós nesta viagem de descoberta musical visitando a exposição e o blog que criámos (http://museudamusica.blogspot.com/). Se puder, ajude-nos também a passar mensagem.
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Museu da Música
quinta-feira, 20 de setembro de 2007
OS ÚLTIMOS INFORMADORES
É permanente a nossa preocupação pelo estado em que se encontra e pela forma como é tratado o folclore e a etnografia enquanto disciplinas auxiliares da Antropologia Cultural ou Etnologia. Essa preocupação baseia-se não tanto em análises académicas dos conceitos, mas sobretudo em aspectos concretos e objectivos de interpretação das informações e dos legados, materializados em objectos como o vestuário para a etnografia e as músicas, cantigas e danças para o folclore, que são o veículo usual mais utilizado pelos grupos para a sua divulgação.
Assim assumem importância relevante as fontes que nos servem de base à pesquisa. Será consensual a ideia de que para o folclore a melhor fonte é aquela que advém da própria vivência, isto é, recolhida daqueles que um dia foram elementos activos desse legado. Das pessoas que foram receptoras de uma ancestral herança, transmitida naturalmente por via da oralidade, e só por esta via, que a utilizaram sem preconceitos e que a entregam, inevitavelmente com a sua marca, com a mesma simplicidade e orgulho aos seus sucessores.
É cada vez maior a dificuldade em encontrar o “informador ideal”. As transformações que ocorreram um pouco por toda a Europa no durante e pós-revolução industrial e com mais relevância no decurso do século passado foram, de uma forma epidémica, responsáveis pela mudança dos comportamentos sociais dos povos. Tal como uma pedra atirada ao charco, as ondas por ela provocadas irradiaram do centro do velho continente para a periferia, tendo chegado até nós apenas em meados do vigésimo século da nossa era. Este facto, para além das nefastas e óbvias consequências relativas ao nosso desenvolvimento, foi responsável pela preservação de características específicas e particulares que nos identificam e nos tornam diferentes dos outros. Ainda hoje é possível encontrar sobreviventes dessa época. Mas serão eles bons informadores?
Luís Ferreira Machado Drumond, no seu “Estudo do Folclore Terceirense - O Baile Popular Terceirense”, publicado no Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira Volume XIII, de 1955, afirma: “Para compreender a psicologia do povo terceirense, para lhe conhecer o carácter alegre e a índole folgazã, em contraste com o seu modo de ser pacato e simples, é necessário estudar as suas canções populares, investigando qual a origem delas, as influências a que estiveram sujeitas e as naturais evoluções que sofreram.
Tal estudo torna-se difícil e complicado, porquanto, os nossos antepassados não se deram ao trabalho de registar o aparecimento e a evolução das suas modinhas populares.
A ausência de precisa documentação nos arquivos e bibliotecas, obriga a recorrer às fontes da suposição que, não primando pela veracidade, são as únicas capazes de suprir aquela deficiência”.
Perfeitamente de acordo com Drumond quanto à necessidade do estudo das canções populares, como forma de compreensão do povo e também quanto à dificuldade que tal empresa representa. Mas estamos em crer que Drumond comete aqui um erro imperdoável: ter direccionado as suas pesquisas apenas para os arquivos e bibliotecas em detrimento de fontes populares. Acreditamos que por essa altura existiria ainda um considerável número de bons informadores. De homens e mulheres portadores dessa cultura secular que nenhuma escola ensina, que flúi naturalmente como a água jorra da fonte, que resulta da prática continuada e apaixonada, que se recebe e se dá como se fosse a nossa maior fortuna.
Hoje sim, será difícil, muito mais difícil encontrar informadores com este perfil.
Isto porque “ao contrário de outros documentos, escritos ou pintados guardados em arquivos; das pedras e utensílios expostos ou escondidos debaixo da terra, objecto da arqueologia; do património construído, mesmo que degradado, a música popular de tradição oral extingue-se com a morte dos intérpretes” como lemos num texto de Adelino Cardoso na Revista do Jornal Expresso de 25 de Outubro de 1997.
Esta opinião obtém eco e concordância num outro texto, este pela pena autorizada de José Alberto Sardinha, advogado de Torres Vedras que, nas horas vagas e ao longo de mais de 30 anos veste a pele de investigador e se dedica à recolha da música tradicional: “Todos os dias se perdem exemplares musicais de grande riqueza. Do que se perde muito há que nunca se saberá o que era. Há coisas, portanto, já irrecuperáveis. A música tradicional tem uma base funcional: quando uma função termina a música passa a um estado de vigília até morrer o portador. Sobrevive na memória dos últimos executantes e depois cessa por falta de transmissão. Parte do que ainda hoje se grava já só subsiste na memória dos tocadores, sobretudo nos cantos de trabalho, porque desapareceram as respectivas tarefas. As músicas bailadas vão subsistindo nos ranchos folclóricos, em estado de alguma degradação e adulteração, porque já não há bailes rurais; subsistem alguns grupos instrumentais e as tunas de convívio vicinal”.
Fica feito o aviso à navegação: não podemos perder mais tempo, se é que ainda nos resta alguma esperança de vir-mos a encontrar o último informador.
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Luís Ferreira Drumond
sexta-feira, 14 de setembro de 2007
RESERVA CULTURAL
Em 1997 participei no III Congresso da Federação do Folclore Português que se realizou na Auditório da Reitoria da Universidade de Coimbra. As naturais expectativas de que era portador saíram goradas. Disso mesmo dei conta no final da reunião magna do organismo que se diz defensor dos valores patrimoniais da cultura popular portuguesa. Nessa minha curta e única intervenção comecei por dizer com algum nervosismo: “Vim aqui com muitas dúvidas e saio daqui com o dobro delas”. Por toda a sala ecoou uma “bruá” provocado por uma risada que até hoje me mantém na dúvida se seria de consentimento ou de reprovação. Esse lapso de tempo foi suficiente para recuperar a coragem que é necessária para falar perante tão numerosa e “esclarecida” plateia. Puxei da folha A4 na qual havia anotado, minutos antes, uma ideia que me ocorrera e que agora partilho com todos os leitores deste espaço. Disse eu:
“- Venho de uma Ilha, de uma Região, e em particular de uma cidade que é património da humanidade. A primeira cidade portuguesa a ser incluída na honrosa lista da UNESCO;
- De uma Região e de uma cidade em que a consciência colectiva de preservação se confunde com o ar que respiramos, com o pão que comemos;
- De uma Região e de uma cidade em que todos os dias se levantam novas questões, muitas delas com origem nas soluções de ontem;
- A minha ilha, a terceira por ordem das descobertas, não tanto por outra qualquer ordem de valor, há 35/40 anos era uma das mais desenvolvidas do arquipélago;
-Tinha acesso, por exemplo, à imprensa escrita diária do continente, levada pelos navios Carvalho Araújo ou Lima, de 15 em 15 dias, isto se o tempo não virasse a sul ou sudeste e enchesse a angra, que deu nome à minha cidade, de branca espuma, qual lenço num aceno de “adeus” até à volta;
- E porque 15 dias passados no isolamento da ilha representam muitas saudades, liras e tiranas, não tanto as chamarritas porque essas são para enaltecer a alegria da chegada, do reencontro, do abraço;
- E porque 15 dias de isolamento na ilha nos obrigam a parar no tempo, a viver o presente continuando no passado, muito do que era ainda é;
- Não tanto na minha ilha, porque já é uma ilha “evoluída”, mas nas ilhas de baixo, nas mais afastadas do centro, naquelas em que ainda experimentam o isolamento de 15 dias, naquelas em que as gentes gastam o olhar no horizonte confundindo-o com a esperança;
- Nessas ilhas, não já na minha, ainda se toca, canta e “bailha” de forma espontânea.
Dois exemplos:
Graciosa – pequena ilha. São pouco mais de cinco mil os seus habitantes. Famosa pela alegria das suas gentes. A ilha em que o Carnaval começa a seguir à Páscoa. Sim, à Páscoa do ano anterior, quando, depois do descanso imposto pelo calendário litúrgico da Quaresma se começa a pensar, a idealizar e a organizar a folia do próximo ano, mantida em escrupuloso segredo até à hora. No intervalo dos muitos bailes, nas sociedades e clubes da ilha, enquanto os conjuntos descansam, entram tocadores de viola e cantadores e forma-se o baile de roda em que, novos e velhos, dançam espontaneamente as modas tradicionais;
O Corvo – 17km2, pouco mais de trezentos habitantes. A mais pequena das açorianas ilhas do Atlântico. Imaginem uma romaria no continente, pequena obrigatoriamente, assim é a ilha do Corvo. Todos bailam, cantam ou tocam de forma espontânea. Toda a vivência é condicionada pela tradição. Os mais velhos têm lugar de destaque Outeiro e a sua voz, os seus conselhos e, por vezes, apenas os seus olhares ainda têm significado. Aqui ainda não houve passado.
É neste contexto que formulo as seguintes questões:
1 – Deve-se ou não incentivar e apoiar a formação de Grupos Folclóricos nestas ilhas?
2 – Se sim, a que época se devem reportar as referências?
3 – Perante um caso único, particular e peculiar da cultura popular, onde ainda não aconteceu a inevitável rotura, podemos ou não pensar na criação de uma zona de “Reserva Cultural” na Ilha do Corvo?
Estarão aqui sedimentadas, porventura, as últimas reminiscências da cultura do “povo” português.”
Claro está que estas minhas questões não obtiveram eco, nem sequer foram merecedoras de resposta. Confesso que nem dela estava à espera.
O articulado, condimentado com sarcasmo e algum cinismo, admito, tinha tão só a intenção de provocar (e isso acho que consegui) aqueles que, do alto da sua cátedra, anunciam resposta para tudo.
No entanto as questões que levantei são, quanto a mim, verdadeiras, actuais e muito sérias merecendo, no mínimo, alguma reflexão. Ou não?
“- Venho de uma Ilha, de uma Região, e em particular de uma cidade que é património da humanidade. A primeira cidade portuguesa a ser incluída na honrosa lista da UNESCO;
- De uma Região e de uma cidade em que a consciência colectiva de preservação se confunde com o ar que respiramos, com o pão que comemos;
- De uma Região e de uma cidade em que todos os dias se levantam novas questões, muitas delas com origem nas soluções de ontem;
- A minha ilha, a terceira por ordem das descobertas, não tanto por outra qualquer ordem de valor, há 35/40 anos era uma das mais desenvolvidas do arquipélago;
-Tinha acesso, por exemplo, à imprensa escrita diária do continente, levada pelos navios Carvalho Araújo ou Lima, de 15 em 15 dias, isto se o tempo não virasse a sul ou sudeste e enchesse a angra, que deu nome à minha cidade, de branca espuma, qual lenço num aceno de “adeus” até à volta;
- E porque 15 dias passados no isolamento da ilha representam muitas saudades, liras e tiranas, não tanto as chamarritas porque essas são para enaltecer a alegria da chegada, do reencontro, do abraço;
- E porque 15 dias de isolamento na ilha nos obrigam a parar no tempo, a viver o presente continuando no passado, muito do que era ainda é;
- Não tanto na minha ilha, porque já é uma ilha “evoluída”, mas nas ilhas de baixo, nas mais afastadas do centro, naquelas em que ainda experimentam o isolamento de 15 dias, naquelas em que as gentes gastam o olhar no horizonte confundindo-o com a esperança;
- Nessas ilhas, não já na minha, ainda se toca, canta e “bailha” de forma espontânea.
Dois exemplos:
Graciosa – pequena ilha. São pouco mais de cinco mil os seus habitantes. Famosa pela alegria das suas gentes. A ilha em que o Carnaval começa a seguir à Páscoa. Sim, à Páscoa do ano anterior, quando, depois do descanso imposto pelo calendário litúrgico da Quaresma se começa a pensar, a idealizar e a organizar a folia do próximo ano, mantida em escrupuloso segredo até à hora. No intervalo dos muitos bailes, nas sociedades e clubes da ilha, enquanto os conjuntos descansam, entram tocadores de viola e cantadores e forma-se o baile de roda em que, novos e velhos, dançam espontaneamente as modas tradicionais;
O Corvo – 17km2, pouco mais de trezentos habitantes. A mais pequena das açorianas ilhas do Atlântico. Imaginem uma romaria no continente, pequena obrigatoriamente, assim é a ilha do Corvo. Todos bailam, cantam ou tocam de forma espontânea. Toda a vivência é condicionada pela tradição. Os mais velhos têm lugar de destaque Outeiro e a sua voz, os seus conselhos e, por vezes, apenas os seus olhares ainda têm significado. Aqui ainda não houve passado.
É neste contexto que formulo as seguintes questões:
1 – Deve-se ou não incentivar e apoiar a formação de Grupos Folclóricos nestas ilhas?
2 – Se sim, a que época se devem reportar as referências?
3 – Perante um caso único, particular e peculiar da cultura popular, onde ainda não aconteceu a inevitável rotura, podemos ou não pensar na criação de uma zona de “Reserva Cultural” na Ilha do Corvo?
Estarão aqui sedimentadas, porventura, as últimas reminiscências da cultura do “povo” português.”
Claro está que estas minhas questões não obtiveram eco, nem sequer foram merecedoras de resposta. Confesso que nem dela estava à espera.
O articulado, condimentado com sarcasmo e algum cinismo, admito, tinha tão só a intenção de provocar (e isso acho que consegui) aqueles que, do alto da sua cátedra, anunciam resposta para tudo.
No entanto as questões que levantei são, quanto a mim, verdadeiras, actuais e muito sérias merecendo, no mínimo, alguma reflexão. Ou não?
Etiquetas:
Carvalho Araújo,
Federação Folclore Português,
Gervásio Lima
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