quarta-feira, 3 de setembro de 2008

OS DONS DO ESPÍRITO SANTO

José Orlando Bretão (Angra do Heroísmo, 14 de Abril de 1939 — Angra do Heroísmo, 24 de Outubro de 1998) foi um distinto advogado do movimento sindical e acérrimo defensor da democracia durante a vigência do Estado Novo.
Como estudioso do folclore açoriano, em especial das danças de Carnaval e das festividades do Espírito Santo, José Bretão deixou-nos imensa e preciosa informação recolhida junto do povo simples do "campo", como por exemplo este depoimento registado em 1996 de Gregório Machado Barcelos, lavrador octagenário, quando questionado sobre os "dons do Espírito Santo"(1):

"É bom que o senhor me pergunte, porque acho que na cidade falam, falam e acertam pouco. Sem ofensa, até acho que não sabem nada, de nada. Mas eu digo como é que meu pai dizia e o pai dele lembrava muitas vezes como era. Eu digo que os dons do Espírito Santo são sete e são sete porque é assim mesmo, é um número que vem dos antigos, como as sete partidas do Mundo ou os sete dias da semana e não vale a pena estar a aprofundar muito porque não se chega a lado nenhum e só complica. E o primeiro dom do Espírito Santo é a Sabedoria – é o dom da inteligência e da luz. Quem recebe este dom fica homem de sabença. Os apóstolos estavam muito atoleimados e cheios de cagança e veio o Divino que botou o lume nas cabeças deles e eles ficaram mais espertinhos. Depois vem o dom do Entendimento. Este está muito ligado ao outro, mas aqui, quer dizer mais a amizade, o entendimento, a paz entre os homens. Este é assim: o Senhor Espírito Santo não é de guerras e quem tiver pitafe dum vizinho deve de fazer logo as pazes que é para ser atendido. E o terceiro dom do Espírito Santo é o do Conselho – o Espírito Santo é que nos ilumina a indica o caminho. É a luz, o sopro ou seja, o espírito. É por isso que tem a forma de uma Pomba, porque tudo cria e é amor e carinho. O quarto dom é o da Fortaleza, que vem amparar a nossa natural fraqueza – com este dom a gente damos testemunho público, não temos medo. Quem tem o Senhor Espírito Santo consigo tem tudo e pode estar descansado. Depois vem o dom da Ciência, do trabalho e do estudo. O saber porque é que as coisas são assim e não assado. É não ser toleirão nem atorresmado como muitos que há para aí. O senhor sabe! O dom da Piedade e da humildade é o sexto dom. Quer dizer que o Senhor Espírito Santo não faz cerimónia nem tem caganças. Assim os irmãos devem ser simples e rectos. E depois, por derradeiro, vem o sétimo dom que é o Temor mas não é o temor de medo. É o temor de respeito – para cá e para lá. A gente respeita o Espírito Santo porque o Senhor Espírito Santo respeita a gente. Temor não é andar de joelhos esfolados ou pés descalços a fazer penitências tolas: é fazer mas é bodos discretos com respeito mas alegria que o Espírito Santo não tem toleimas nem maldades escondidas. É isto que são os sete dons do Espírito Santo e o senhor se perguntar por aí ninguém vai ao contrário, fique sabendo".


(1)Hélder da Fonseca Mendes, Festas do Espírito Santo nos Açores - Proposta para uma leitura teológico-pastoral. Angra do Heroísmo, 2001: 90-91

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

O POETA, O POVO E O VINHO


Babrius foi um poeta romano que viveu entre os séculos II e III d. C ,e que tinha a particularidade de escrever fábulas em grego.

É-lhe atribuído o seguinte pensamento que vai direitinho e por inteiro para “Bagos D' Uva”, um dos “blog’s” de visita diária obrigatória:

"O grau de civilização de um povo é sempre proporcional à qualidade e à quantidade dos vinhos que consome."


Quem sabe, sabe! À vossa!

CONSERVATÓRIO POPULAR


Houve e há, apesar das desordens que a civilização traz, pequenos povos encantadores que aprendem música tão naturalmente como se aprende a respirar. O seu conservatório é o ritmo eterno do mar, o vento nas folhas e mil pequenos ruídos que escutaram com atenção, sem jamais terem lido despóticos tratados.


Claude Débussy (n. Saint Germain-en-Laye 1862; m. Paris 1918)

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

XXIV FESTIVAL INTERNACIONAL DE FOLCLORE DOS AÇORES


A grande festa do folclore está de volta aos Açores. Desta feita com o carimbo oficial do CIOF. O cartaz promete: 8 grupos internacionais representantes da República Checa, Colômbia, França, Hungria, Itália, Polónia, Sérvia e Espanha; 4 nacionais: Grupo Típico de Ançã, Rancho Folclórico da Casa do Povo de Arcena, Rancho de Folclore e Etnografia "Os Ceifeiros da Bemposta" e, em representação da Região Autónoma, o Grupo Folclórico e Etnográfico "Ilha Morena" da Ilha do Pico.

A realização de um festival com esta envergadura numa região isolada no meio do Atlântico só é possível com muito trabalho da entidade organizadora - o COFIT que este ano comemora as bodas de prata -, dos seus colaboradores e, não menos importante, com o apoio indispensável de organismos oficiais e privados.

Faço votos para que, mais uma vez, o Festival seja um êxito e volte a ser considerado, por isso, de "O Melhor Festival de Folclore de Portugal".

quarta-feira, 16 de julho de 2008

PARABÉNS...



...ao Grupo de Baile da Canção Regional Terceirense, que prefaz hoje 42 anos após a sua primeira apresentação pública, e a todos os que com ele colaboraram ao longo da sua existência. Dos que ainda estão entre nós e, sobretudo, daqueles que já partiram para a grande viagem, de todos guardo em lugar de honra um terno sentimento de saudade. Mas recordo, sobretudo, a alegria que nos invadiu naquele memorável serão da celebração do 89º aniversário da nossa querida "RECREIO DOS ARTISTAS". Ainda sinto o arrepio dos "viva" e dos "bravo" e dos prolongados aplausos que, durante vários minutos, ecoaram pela esplanada completamente lotada da "Recreio".


...à Sociedade Recreio dos Artistas que comemora também hoje o seu 131º aniversário. Meritória Instituição Angrense a quem todos os terceirenses muito devem e que ao longo dos tempos nos tem honrado com as suas iniciativas. Por ela o Grupo de Baile da Canção Regional Terceirense nutre um saudável sentimento filial.


segunda-feira, 23 de junho de 2008

BANDEIRA À JANELA


O D.O.P. – Departamento de Oceanografia e Pescas do Pólo da Horta da Universidade dos Açores acaba de ser classificado pela insuspeita e respeitável revista científica Research como uma instituição de EXCELÊNCIA a par de outras congéneres mundiais. Esta distinção premeia o trabalho ali desenvolvido no estudo dos oceanos e no contributo dado à defesa da sua biodiversidade.
É para o D.O.P. e sobretudo para os seus investigadores que coloco a minha bandeira à janela!

terça-feira, 3 de junho de 2008

DO PÉ DESCALÇO À ALPERCATA

No final do paleolítico, como nos comprovam pinturas dessa ápoca descobertas em grutas do sul da Europa e da Peninsúla Ibérica, já o homem utilizava uma protecção para os pés que podemos considerar, sem relutância, como uma peça de calçado. Os materiais disponíveis então variavam entre cascas de árvore, folhas e fibras vegetais ou pedaços de couro que eram atados com tiras da mesma natureza.

Do outro lado do atlântico surgem-nos informações arqueológicas idênticas.


Sandália pré-histórica da América do Norte feita em esparto



Sandália de esparto, IX milénio a.C.

Em muitos achados arqueológicos foram identificados alguns utensílios que serviriam para raspar as peles o que indicia que a sua curtimenta terá sido uma das primeiras industrias do homem. Esta teoria é confirmada pela abundância de referências que se encontram nas pinturas descobertas em construções fúnebres - hipogeus - onde estão representados vários passos no preparo do couro e do calçado.

O que inicialmente era apenas um objecto utilitário de protecção dos pés evoluiu a par do desenvolvimento da humanidade. No Egipto e na antiga Roma o calçado era já indicativo da classe social.


Solea romana


Apesar da diversidade geográfica os modelos deste rudimento de sapato são muito semelhantes. A utilização do couro, mais resistente, generaliza-se e vem substituir os outros materiais.


Sandália de couro judia de 72 d.C.

Alpercata terceirense

No meio do Atlântico, na Ilha Terceira, tal como nas restantes que formam o arquipélago dos Açores, esta forma de calçado perdurou até aos nossos dias. E tal como aconteceu em toda a sua evolução, manteve-se praticamente inalterável na forma, apenas sofrendo alterações nas materias utilizados. As últimas que vimos eram feitas com borracha de pneus velhos.

sábado, 31 de maio de 2008

ADÁGIOS DE JUNHO


A chuva de S. João tolhe a vinha e não dá pão.
Ande o Verão por onde andar pelo S. João há-de chegar.
Chuva de Junho mordedura de víbora
Chuva junhal fome geral
Em Junho abafadiço fica a abelha no cortiço.
Em Junho foice no punho.
Enxame de Junho nem que seja como punho
Guarda lenha para Abril, pão para Maio e o melhor tição para o S. João.
Junho calmoso, ano famoso.
Junho chuvoso ano perigoso
Junho floreiro, paraíso verdadeiro.
Junho quente, Julho ardente.
Junho, dorme-se sobre o punho.
Lavra pelo S. João e terás palha e pão.
Pelo S. João deve o milho cobrir o chão.
Pintos de S. João pela Páscoa ovos dão.
Sol de Junho amadura tudo
Sol de Junho madruga muito.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

CARROS DE TOLDO

Os "carros de toldo" são um ex-libris dos bodos na ilha Terceira. Hoje com maior visibilidade nas freguesias do "ramo grande"mas noutros tempos comuns a toda a Ilha.

Até meados do séc. passado ir a uma "festa" era uma verdadeira festa. As famílias reuniam-se em grupo com os parentes mais chegados ou com os amigos e "botavam-se" ao caminho quase sempre ainda antes do sol nado. Chegar cedo era sinal de se "arranjar" os melhores lugares.


Os homens seguiam a pé ou a cavalo, se fosse caso de ter algum "a modes". As mulheres e as raparigas tinham o previlégio de tomarem assento nas carroças de besta, mais ligeiras e cómodas, ou então nos "vagarozos", mas mais aconchegados, carros-de-bois preparados e apetrechados para o efeito com suas "sebes de toldo" cobertas por vistosas colchas para protecção do sol.

Ao longo de todo o percurso eram frequentes as paragens para descanso e "beberagem" das "alimárias", aproveitadas para desentorpecimento das pernas das mulheres, dormentes de tanto tempo cruzadas. Cantava-se, bailhava-se e petiscava-se.

Chegados ao arraial os carros eram estacionados lado a lado, de forma organizada. Os bois, depois de "descangados", eram levados a logradouro próximo, farto de água e sombra. As "cangas" e as "aguilhadas", ricamente ornamentadas com metal amarelo, eram colocadas ao alto junto aos carros. As coberturas poeirentas e desbotadas dos "toldos" eram substituídos por "escoimadas" colchas brancas. Os farnéis eram abertos e dispostos no seu interior sobre alva toalha de linho. Toda a gente era convidada a partilhar da abundância.


Tendo perdido a sua função de meio de transporte de outros tempos, os "carros de toldo" continuam a ser peças do cenário dos terreiros e da própria festa mantendo a função de se transformarem em sala de visitas dos seus proprietários.


Ano após ano cresce o número de "carros de toldo" colocados nos terreiros. E são também cada vez maiores os cuidados dispensados na sua preparação.



Uma verdadeira mostra do relicário que são as rendas e bordados feitos pelas mãos das mulheres da Terceira.



segunda-feira, 19 de maio de 2008

AFINAL...

Carro do Pão


Afinal a tradição ainda é o que era. Depois de ter publicado "O MAL MENOR" fiquei agradavelmente surpeendido pelo que vi: a distribuição do "bodo" do Domingo da Trindade do Império de S. Luís estava a ser feita em "carros-de-bois". Embora sem a exuberância de outros tempos os carros apresentavam-se dignos do propósito. Em louvor do Divino Espírito Santo.

Carro do Vinho

domingo, 18 de maio de 2008

E VIVA O SENHOR ESPÍRITO SANTO



Fui nomeado mordomo do Domingo da Trindade do Império de S. Luís.
E Viva o Senhor Espírito Santo!

sexta-feira, 16 de maio de 2008

O MAL MENOR

Longe vai o tempo em que os "carros-de-bois" eram utilizados para a distribuição do pão e do vinho dos "bodos". A passada "pachorrenta" dos bois, a policromia dos arranjos de papel e das bandeiras, o cheiro intenso da "faia da terra" e o chiar caracteristíco produzido pelo atrito do eixo nas "cantadeiras" apenas perduram na recordação dos mais idosos. Para os mais novos, para que tenham uma ideia de como era, ficam as miniaturas. Do mal o menos.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

MAIOS


Com reminiscências pagãs cuja origem se perde no tempo, a tradição dos “Maios” entre nós (das “Maias” noutras regiões) ainda revela substantiva vitalidade, como se comprova pela foto que recolhi na freguesia de Vila Nova na ilha Terceira no 1º dia deste mês.

A única forma de perpectuar uma tradição é executá-la sempre com o mesmo espírito e dentro do mesmo contexto. No caso dos "maios" este é um elequente exemplo.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

CANTIGAS DE MAIO

ZECA AFONSO
Cantigas de Maio
(letra do refrão: popular)

Eu fui ver a minha amada
Lá p'rós baixos dum jardim
Dei-lhe uma rosa encarnada
Para se lembrar de mim

Eu fui ver o meu benzinho
Lá p'rós lados dum passal
Dei-lhe o meu lenço de linho
Que é do mais fino bragal

Eu fui ver uma donzela
Numa barquinha a dormir
Dei-lhe uma colcha de seda
Para nela se cobrir

Eu fui ver uma solteira
Numa salinha a fiar
Dei-lhe uma rosa vermelha
Para de mim se encantar

Eu fui ver a minha amada
Lá nos campos eu fui ver
Dei-lhe uma rosa encarnada
Para de mim se prender

Verdes prados, verdes campos
Onde está minha paixão
As andorinhas não param
Umas voltam outras não

Refrão:Minha mãe quando eu morrer
Ai chore por quem muito amargou
Para então dizer ao mundo
Ai Deus mo deu Ai Deus mo levou

CANTIGAS DE MAIO

Maio, Maduro Maio / Zeca Afonso

Maio maduro Maio
Quem te pintou
Quem te quebrou o encanto
Nunca te amou
Raiava o Sol já no Sul
E uma falua vinha
Lá de Istambul

Sempre depois da sesta
Chamando as flores
Era o dia da festa
Maio de amores
Era o dia de cantar
E uma falua andava
Ao longe a varar

Maio com meu amigo
Quem dera já
Sempre depois do trigo
Se cantará
Qu’importa a fúria do mar
Que a voz não te esmoreça
Vamos lutar

Numa rua comprida
El-rei pastor
Vende o soro da vida
Que mata a dor
Venham ver, Maio nasceu
Que a voz não te esmoreça
A turba rompeu