sábado, 6 de dezembro de 2008

VERSOS DE BOAS FESTAS - 1

Era um costume antigo, nesta época do ano, os “carteiros, boletineiros, vendedores ou distribuidores de jornais, engraxadores, funileiros, os operários ou empregados das oficinas (de que se é freguês) etc.”, darem as “boas festas” e pedirem a consoada através de versos impressos. Os versos ou eram feitos pelo próprio interessado ou por pessoa entendida a quem ele recorresse.
De uma colecção destes versos, recolhidos e publicados por Cláudio Basto, vou transcrever alguns a partir de hoje:

BOAS FESTAS
(De um engraxador)

Neste viver desgraçado
Em que a vida é cruel
Vem um pobre escorraçado
Mendigar para o farnel

Limpo botas e sapatos
É a minha profissão;
Tapo todos os buracos
Fica tudo na perfeição

Não pode levar a mal
Com a minha exigência,
De na festa do Natal
Cumprimentar Vª. Exª.

Raimundo engraxador

Fonte: Rev. Lusitana

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

COMPARAÇÕES POPULARES

A comparação é uma forma popular utilizada, geralmente, para clarificar uma adjectivação tornando-a objectiva através da escolha do termo comparado. Pode também ser utilizada para enfatizar uma afirmação.
A maior parte das comparações da lista que se segue são comuns ao todo nacional sendo que, de muitas delas, se encontram exemplos similares em outros países.

Amarelo como cera
Amargo como fel
Azedo como vinagre
Bêbado como um cacho
Beber como uma esponja
Bom como melão
Bom como o milho
Branco como a cal
Branco como a neve
Bravo como um touro
Burro como uma porta
Cair com um anjinho
Cair como um pato
Cantar como um rouxinol
Caro como fogo
Chato como um prato
Chato como um prego
Claro como água
Comer como uma frieira
Comer como um padre
Comer como um pinto
Correr como uma zabaninha
Doce como mel
Dormir como um justo
Dormir como um porco
Escuro como breu
Esperto como um alho
Falar como um doutor
Feio como um bode
Feio como um burro
Feio como o pecado
Fino como um rato
Força como um cavalo
Forte como uma torre
Gordo como um batoque
Gordo como um texugo
Leve como uma pena
Lindo como uma estrela
Lindo como uma flor
Lindo como o sol
Magro como um cão
Mau como uma barata
Mau como as cobras
Molhado como um pinto
Nadar como um prego
Negro como um tição
Parir como uma porca
Pernas como um graveto
Preto como uma amora
Seco como a palha
Suar como um cavalo
Tapado como uma parede
Traiçoeiro como o mar
Traiçoeiro como a morte
Triste como a morte
Triste como a noite escura
Velho como os caminhos
Vermelho como um tomate

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

DEZEMBRO E SEUS SANTOS PROTECTORES

Dia 04 – Santa Bárbara – advogado contra trovões e raios e patrona dos artilheiros;
06 – S. Nicolau – advogado das donzellas pobres e desamparadas;
08 - Nossa Senhora da Conceição – Padroeira do Reino e Conquistas, e patrona dos correeiros;
13 – Santa Luzia – advogada contra as doenças de olhos;
23 – S. Sérvulo – advogado contra a paralysia;
27 – S. João, apostolo e evangelista – advogado contra o veneno e patrono dos typographos
31 – S. Silvestre – advogado contra os perigos de caminhos.

Coligido por Thomás Pires - Rev. Lusitana - Vol IV

A FÉ É QUE NOS SALVA


“Uma rapariga que estava muito doente e já desenganada dos médicos, pediu ao noivo, que ia a Jerusalém, que lhe trouxesse da cidade santa um pedaço da madeira da Cruz em que Christo foi pregado, para tomar em vinho, a ver se assim melhorava. O namorado esqueceu-se do pedido da moribunda e, na volta, cortou um bocado de madeira do navio em que vinha, para enganar a rapariga, e como esta se achasse curada completamente, depois de o tomar, dissolvido em vinho, elle então comentava: A fé é que nos salva neja o páo da barca”.

Este conto tradicional, provavelmente incompleto, foi recolhido em S. Miguel, mas acreditamos que era conhecido nas restantes ilhas dos Açores e até mesmo no continente Português.

Outro conto que também justifica o rifão foi registado no Fundão:

“Duma ocasião mandaram um homem à cata dum saibio, pra curér’ mas maleitas. Na caminho perdeu-se e incontrou um rio. Atravessou-o atão n’ma barca, mas ‘squeceu-se de proguntar pelo saibio. Quando voltou, trouxe um bocadinho de pau da barca, mandou fazer um coz’mento, e dixe qu’o saibio é que tinha mandado. E com tam bôa fé o boêram, que figirem nas maleitas. E o homem dezia atão qu’a fé é que nos salva, e noêja o pau da barca”.

.O que ambos os contos têm em comum é o lapso de memória do personagem, sendo este acidente o elemento central que prepara e justifica a conclusão. Se no primeiro conto não encontramos pistas que nos levam a determinar qual a razão para o esquecimento do noivo, já no segundo, recorrendo à sabedoria popular, podemos descobrir a causa próxima que levou o homem a obliterar o motivo da sua missão: atravessar um rio. Com efeito Leite de Vasconcelos registou alguns factos curiosos sobre as crendices populares relacionadas com as águas, como esta: "Quem atravessar um rio deve apanhar um seixinho e metê-lo na boca para se não esquecer do modo de falar da sua terra". Ou esta outra tradição popular antiga em que se acredita que "atravessar um rio faz perder a memória a quem o passa".
Fonte: José Monteiro

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

QUEM VÊ OLHOS...

É frequente, nas formas de expressão popular – cantigas, adágios, rifões, etc.-, o povo denunciar a sua predilecção, simpatia ou antipatia pela cor dos olhos, e por ela fazer uma avaliação, embora não unânime, dos predicados morais do seu portador.

Para uns “olhos verdes: onde os virdes fugi deles” ou “olhos verdes, olhos de traidor” como lemos na colecção de provérbios de Perestrelo da Câmara.
A mesma opinião teve quem, sobre os olhos verdes cantou:

Olhos verdes não os quero
Pois são sinais de traição…
Dizem esperanças à vista
Tristezas ao coração

e ainda esta

Os teus olhos verdes, verdes
São duas grandes mentiras;
O verde é cor d’esperança
E tu a esp’rança me tiras

Desta antipatia aos olhos verdes discorda D. Francisco Manuel de Melo, (Lisboa, 23 de Novembro de 1608 – 24 de Agosto de 1666):
“Vossês são os que se agastam, nós é que podíamos queixar-nos; porque quem não gosta de uns olhos verdes, não tem bom gosto” escreveu ele na terceira parte da segunda fábula da sua “Feira de Annexins”.

Ainda sobre os olhos verdes

Olhos verdes, cor de esp’rança
Olhos verdes, cor do mar
Quem tem amores é criança
Sou criança por te amar

Também para os “olhos azuis” encontramos referências pouco abonatórias no adagiário português: “olhos azuis em gente portuguesa, é má natureza” ou ainda “olho azul em português, é má rês”.

Os olhos pretos são também acusados de infidelidade, a dar fé às seguintes quadras populares:

Quem diz ser de gala o preto
Entende pouco de cores;
Eu amei dois olhos pretos
Ambos me foram traidores

Teus olhos, contas escuras
São duas Ave-Marias,
Dois Rosários de amarguras
Que rezo todos os dias

No entanto são bem mais condescendentes para os olhos de cor negra as seguintes quadras que o povo canta:

Graças a Deus que chegou,
É chegado não sei quem…
Chegaram dois olhos pretos
A que os meus querem bem

Menina do lenço preto
E olhos da mesma cor,
Diga a seu pai que a case,
Eu serei o seu amor

Os teus olhos, negros, negros,
São como a noite fechada:
Apesar de serem negros,
Sem eles não vejo nada.

Olhos merecedores de plena confiança são os castanhos:

Olhos pretos são falsos
Os azuis são lisonjeiros
Os olhos acastanhados
São os leais verdadeiros

Olho branco é que convém não ter:

“Olhos brancos em cara portuguesa, ou filho de potra ou da natureza”

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

"THESAURUS PAUPERUM"

Papa João XXI
Ainda sobre os efeitos do alho no tratamento do carbúnculo achei interessante este exemplo extraído de “Thesaurus pauperum” – “Tesouro dos Pobres” (um receituário com indicações para muitas doenças comuns) da autoria de Pedro Julião, conhecido como Pedro Hispano, filósofo e médico nascido em Lisboa por volta de 1205, e que veio a ser eleito Papa a 13 de Setembro e coroado com o nome de João XXI a 20 do mesmo mês de 1276:

“Contra o antraz:
Primeiramente faça-se uma sangria no lugar em que está o antraz. Se a matéria vier da parte de cima do pescoço, faça-se a sangria da veia hepática. Se for do lado do coração, [faça-se da veia] cardíaca; feito isso, prepare para si o seguinte remédio: colocar por cima farelos cozidos com vinagre; da mesma forma, colocar alhos amassados com sal, siler e amoníaco, colocando por cima dissolvido em vinagre. Também vale beber ou colocar em volta teriaga. Também vale colocar diamante ou safira perto de qualquer pessoa. Também colocar por cima a crista de galo ou galinha atrai o veneno. Antes de colocar tudo isso, verifique se há lá veneno e atraia o mesmo com linha ou outra coisa. Repita-se, para não ficar lá, e aplique-se em volta ceruso, isto é, alvaiade, diluída com óleo de rosas, suco de erva-moura e um pouco de farinha de cevada; e aplique-se em um ponto sadio. Também dizem que a consolta menor triturada entre duas pedras, por milagre divino, cura o antraz. Diz-se que aplicar por cima dos carbúnculos gemas de ovo cruas, trituradas com igual quantidade de sal, faz bem.”

sábado, 15 de novembro de 2008

O SEGURO MORREU DE VELHO

O carbúnculo hemático é uma das zoonoses mais temidas pelos nossos lavradores. Devido às suas características sintomáticas é, por vezes, de tardio diagnóstico. A morte é quase sempre o desfecho natural e por vezes é tão rápida que só depois se percebem os sintomas.
Na ilha Terceira esta enfermidade era vulgarmente denominada por “cabrum” e, por isso, associada ao gado caprino e ovino. Daí que em quase todos os rebanhos de gado bovino houvesse sempre uma ou duas cabras ou ovelhas para que, no entender popular, se surgisse um surto desta terrível doença, eles fossem os primeiros animais a serem atingidos. Assim avisados os lavradores poderiam então tomar as devidas providências.
Aí pela década de 80 do sec. XX os Serviços Veterinários promoveram, como medida profilática, uma campanha de vacinação contra o carbúnculo, na qual eu também participei.
Um belo dia, num curral na zona do Paul, apercebemo-nos que, após a aplicação da vacina, os homens levavam o animal dominado para um outro canto do recinto onde, de uma forma mais ou menos dissimulada, consumavam um procedimento que nós não conseguia-mos identificar. Curioso, aproximei-me dos homens e vi que um deles, de navalha em punho, abria um pequeno golpe na pele da pá da mão do bovino onde introduzia um dente de alho.
A minha curiosidade levou-me a perguntar, de imediato, o porquê desta prática. A resposta saiu pronta da boca do lavrador:
- Desde pequeno que lido com rezes e sempre ouvi meu pai falar das doenças que elas têm. E também sempre ouvi dizer como é que elas se tratam. E para o “cabrum” sempre se vacinou com um dente de alho, concluiu o meu interlocutor com veemência.
Meio atordoado com a resposta, atrevi-me a perguntar de novo: “Então para quê este trabalho todo? Bastava fazer uma vacina!
- Pois…mas se uma não pegar pega a outra. O seguro morreu de velho!

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

UM FAZEDOR DE SANTOS

O Tio Alvarino da Serreta

(foto retirada do livro "Filósofos da Rua" de Augusto Gomes)

Quando conheci o Tio Frederico,na década de 70 de 1900, já ele me parecia velho. Tinha “venda” de mercearia e bebidas na fronteira de Santa Bárbara com as Doze Ribeiras. Era um conforto os minutos que, por motivos profissionais, passava com ele na visita semanal das terças. Sempre cheio de “salamaleques” todas as conversas terminavam num irrecusável “mata-bicho”. Testemunhas deste cerimonial eram os três ou quatro pequenos cálices de vidro lascados que conheciam o hálito de todos os fregueses. Para mim estava sempre reservado o do Tio Alvarino. O tempo foi passando e com ele foi crescendo a minha curiosidade de conhecer o homem que ficara perpetuado num pequeno e lascado cálice de vidro da venda do Tio Frederico. Para não ser muito directo com receio de alguma indiscrição, perguntei um dia ao meu bom amigo: “deve ter sido uma pessoa importante, este Tio Alvarino? Pelo sorriso do meu interlocutor tive a certeza de que a pergunta pecava por tardia. O seu corpo baixo e franzino, agitou-se realçando o nervoso miudinho que o caracterizava.
- Mais um “calsinhos”, disse ele (para mim uma aguardente traçada com aniz e para ele um whisky, por lhe ter sido proibido pelo médico beber bebidas brancas).
- O tio Alvarino era um “carroceiro” da Serreta que todos os dias que Nosso Senhor “botava no mundo” aparelhava o seu inseparável “gigante” e, manhã cedo, ala até à cidade. Para baixo, sempre ligeiro, recolhia ele as notas de encomendas para comprar nas lojas de Angra. Ao fim do dia, no regresso, carroça carregada, a viagem era bem mais lenta. Em cada venda apeava-se o Tio Alvarino e, depois de entregue a mercadoria, bebia o seu “calsinho”, isto em todas as paragens e também na do Tio Frederico. Claro que o resultado final era uma diária e quase permanente carraspana. Aconselhavam-no os amigos: “Ó Alvarino, estás a dar cabo de ti!” mas nada, era sempre a mesma coisa todos os dias.
- “Ó Alvarino, coitada da tua mulher” – disse-lhe um dia o Tio Frederico enquanto atestava o cálice que hoje prepectua o seu nome – “Chegares a casa todos os dias bêbado, sem te lamberes. Para te sofrer, só mesmo uma santa!” – e reforçou – “Coitada! Ela é mesmo uma santa!
Sem espanto, e acenando em consentimento, enquanto limpava a boca à manga do surrado capote, respondeu de pronto o Tio Alvarino: -“É uma santa sim senhor! Mas... a mim o deve!”

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

PEDITÓRIO PARA A FESTA DO ESPÍRITO SANTO



No segundo domingo do mês de Novembro é costume fazer-se o peditório para o Bodo do Domingo da Trindade do Império de S. Luís. Este ano cumprir-se-há a tradição. Para tal já estão organizados os mordomos e seus ajudantes para percorrerem, a pé e de porta em porta, toda a freguesia de S. Bento.

Há alguns anos atrás este peditório era feito com um carro-de-bois enfeitado com ramos de faia da terra e bandeiras. O contributo dos irmãos era, sobretudo, constituído por productos da economia agricola familiar: milho, abóboras, feijão, batata doce e da terra, coelhos , galinhas, etc. que eram acomodados de forma criteriosa dentro da "sebe". Para os ovos, que também abundavam, levava-se um cesto de vimes acalchoado com verduras. O resultado do peditório era depois arrematado junto ao Império.

Em Lisboa, em meados do sec. XIX, conforme a "estampa" de João Palhares (1810 -1875), depositada na Biblioteca Nacional com data de 1850, também se pedia para a Festa do Espírito Santo. À excepção da gaita de foles, todos os outros elementos representados nesta iconografia, são-nos familiares: a opa, a bandeira, a saca vermelha e até o rapaz transportando a cesta dos ovos.

No próximo domingo os únicos adereços que os mordomos levarão serão as "sacas" vermelhas, suficientes para guardar e transportar o resultado da coleta e bastantes para fazer crer tratar-se de uma "comissão de império" que anda a fazer o peditório para a festa do Espírito Santo.

UM GALO BRANCO PARA S. LUÍS

Recorrer a S. Luís para resolver o problema da fala tardia de uma criança é um costume que, embora com menos frequência, ainda se manifesta na ilha Terceira.

Não sei se esta tradição prevalece noutras paragens onde, em tempos idos, também era comum, apesar dos diferentes procedimentos.

Por exemplo no Cadaval, no século XIX, devia alguém, de preferência a mãe, pegar ao colo na criança com o atraso e gritar-lhe ao ouvido: “S. Luís, S. Luís: dai fala ao meu menino para eu saber o que ele diz”.

D. Francisco Manuel de Melo, (Lisboa, 23 de Novembro de 1608 – 24 de Agosto de 1666) perfeito conhecedor da vida popular portuguesa do sec. XVII diz na sua “Feira de annexins”, pag 97: “Ora você não falla? S. Luís dae falla ao menino”.

Em França Henri Gaidoz em “Un vieux rite medical” pag. 48, revela-nos o costume de fazer passar a criança de fala retardada debaixo do andor de S. Luís em procissão.

Na ilha Terceira o problema não se resolve com palavras: a criança não falará enquanto não for deixado na ermida própria um galo branco a S. Luís.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

UMA COISINHA DE PÃO POR DEUS


Pedir "pão-por-Deus" é talvez a única tradição popular infantil, transversal a várias gerações, que se mantém bem viva entre nós.

Todos os anos, pelo dia de Todos-os-Santos, saem à rua bandos de crianças de todas as condições sociais munidas de "sacas" previamente acauteladas, que vão de porta em porta apelar à dádiva em nome de Deus.
A expectativa de quem pede hoje fica-se por alguma moeda ou guloseima (influência do "halloween"?). Para tal bastará ter uma pequena "saca" onde caberá todo o pecúlio.
Há uns cinquenta anos atrás, principalmente no meio rural, era necessário uma "saca" bem maior. Nela teria de caber: milho em soca ou já debulhado, feijão, batata doce crua ou - que delícia - já assada, alguma castanha, abóbora e tudo o que a economia doméstica pudesse produzir.
Pedir "pão-por-Deus" era, com ainda hoje é, um exercício de partilha. Quem pede fá-lo sem constrangimento; quem dá não não o faz por caridade.
Se por qualquer motivo uma porta não se abrisse ou houvesse uma recusa ao pedido, ontem tal como hoje, a resposta da rapaziada não se fazia esperar: soca vermelha, soca rajada, tranca no cú, a quem não dá nada! E "ala botes, pernas para que vos quero" bater a outra casa e pedir mais "uma coisinha-de-pão-por-Deus".

MÊS DE NOVEMBRO E SEUS SANTOS PROTECTORES

Dia 3 – S. Clemente – advogado contra os naufrágios;
4 – S. Carlos Borromeu – advogado contra a peste;
10 – S. André Avelino – advogado contra a apoplexia;
11 – S. Martinho – protector dos bêbados;
24 – S. Romão, presbítero – advogado contra os perigos da água;
25 – Santa Catarina de Alexandria – advogada contra acidentes de trabalho e protectora das moças solteiras;
29 – S. Brás – advogado contra a afonia e doenças da garganta;

sábado, 25 de outubro de 2008

ADEUS CEGO, ADEUS VIOLA...

…diz-se quando algo está irremediavelmente perdido. Não sei precisar se este é um dito local mas bem poderia ter nascido de uma situação caricata protagonizada pelo Francisco Ceguinho, tocador de viola e cantador.
Nos finais do século XIX as festas do Império da Caridade das Figueiras do Paím da Praia da Vitória, que se realizavam, tal como hoje, no último domingo do mês de Setembro, terminavam invariavelmente com uma “toirada” à corda. Em determinado ano entenderam os mordomos substituir esta tradição por uma corrida de praça. Para tal o Largo das Figueiras do Paím foi transformado numa arena delimitada por palanques e camarotes que se encheram com pessoas da Vila e de fora dela.
O Francisco Ceguinho também não quis faltar à festa. Dentro do recinto, antes e no intervalo dos toiros, sempre guiado por um rapaz, parava o Cego em frente dos palanques cantando às pessoas de maior estatuto, começando sempre com a mesma cantiga, mudando apenas o terceiro verso onde cabia o nome do visado:

Fé, esperança e caridade
São três armas da virtude;
Senhor…fulano de tal
Lá vai à vossa saúde.

Entre cada quadra advertia o Cego o seu guia para que este tivesse atenção à saída do toiro.
Em determinada altura sai-se com esta:

Ò rapaz, toma cautela,
Repara bem p’rá gaiola;
Se eles soltam o bicho,
Adeus cego, adeus viola.

Isto dito rebenta um foguete e, no mesmo instante, sai para a arena um valente toiro puro que não vê mais ninguém à sua frente do que o nosso indefeso cantador. Resultado: Cego para um lado, viola para o outro feita em mil pedaços.
Até parece que estava a adivinhar!

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

"AMANHÃ JEJUA O PRETO"...

…diz-se a quem adia sucessivamente uma obrigação. Este ditado, que ouvimos em todo o país, tem, como muitos outros, uma história que o justifica.
Conta-se que “certa vez um preto foi à confissão e recebeu do padre como penitência jejuar no dia seguinte. O penitente, com medo de se esquecer, pediu ao padre que lhe escrevesse num papel o dia em que haveria de cumprir a penitência. O padre escreveu:
“Amanhã jejuará o preto!”
Todos os dias lia o preto o papel. Como nele dizia “amanhã” descansava o preto:
“Inda bem que nã ser hoje”.
E nunca jejuou.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

VÁ DENTRO!

(Foto: Bagos d'Uva)


Vender vinho à “porta” é hoje, tal como ontem, prática comum nas casas agrícolas onde a produção excede o auto consumo. Para dar a conhecer este intento aos possíveis compradores basta colocar à porta de casa, de forma bem visível, um ramo de videira. É também assim que as pequenas mercearias de freguesia e alguma “tasca manhosa” – das poucas que ainda resistem – anunciam a chegada do “vinho novo”.
As tascas e tabernas que abundaram em Angra do Heroísmo até à década de 70 de século passado, e que desapareceram por completo após o grande terramoto de 1980, utilizavam o mesmo recurso com o mesmo fim.

Sobre esta prática tradicional escreveu Sousa Viterbo um artigo intitulado “Estudos Ethnográphicos” publicado na Revista Lusitana Vol XXIII de 1920:

Numa porta se põe o ramo, e noutra se vende o vinho”

Este provérbio alude ao antiquíssimo costume de se pendurar um ramo à porta das tabernas, como sinal de venda de vinho.

Entre nós usava-se, geralmente, o ramo de louro, certamente porque esta planta era uma das dedicadas a Baco pelo paganismo. Também se usava um ramo de pinho.
Baco, Sileno, os Faunos, os Sátiros, as Bacantes e, em geral, os deuses campestres, representavam-se rodeados de louro.
Não sei se os romanos empregavam louro como insígnia da venda de vinho, mas do uso da hera (que também era consagrada a Baco) há o testemunho dos provérbios: a) Vino vendibili non opus est hedera; b) Laudato vino non opus est hedera; c) Vino vendibili suspensa hedera nihil opus.

Na Pranto de Maria Parda, de Gil Vicente, Maria Parda vendo as ruas de Lisboa com poucos ramos nas tabernas e o vinho tão caro, lamenta-se amargamente:

Ó travessa Zanguizarra
De Mata-porcos escura,
Como estás de ma ventura
Sem ramos de barra a barra”

E mais adiante:

“Que foi do vosso vinho,
E tanto ramo de pinho,
Laranja, papel e cana,
Onde bebemos Joanna
E eu cento e hum cinquinho


Camões (Filodemo, act. II, sc.2ª) alude também ao ramo de pinho: “Oh maravilhosa pessoa! Vós he certo que vos prezais de mais certo em casa, que pinheiro em porta de taverna…”.

Conta Garcia de Rezende que certo fidalgo, indo uma vez falar a D. João II, depois d ter conferenciado com a botelha mais do que seria justo, mascou uma porção de loiro para disfarçar o cheiro. Era já nesse tempo, como agora, o ramo de louro a insígnia ovante dos templos de Baco. O rei percebeu logo o louro e o que ele ocultavae, virando-se para o fidalgo, perguntou-lhe, com um sorriso: “Fulano, debiaxo desse louro, quanto vale e canada?”

Os provérbios atestam a generalização, em outros países, do uso de um ramo à porta, como insígnias dos taberneiros.
Em França, já no século XVIII se dizia: A bom vin il ne faut point de bouchon – e isto porque naquele país era tradicional o ramo à porta das tabernas, como se vê do Dictionnaire Universel, de Furetiére (Rotterdam, 1708, vb. “bouchon”: “Bouchon de taverne,est un signe qu’ont met à une maison pour montrer qu’on y vend du vin à port. Il est fait de lierre, de houx, de ciprés, & quelquefois d’un chou. Les Taverniers payent un droit de bouchon”.

Francesco de Alberti, no seu Nuovo Dizionario Italiano-Francese (Bassano, 1777), vb.
“ frasca”, insere o provérbio “al buon vino non bisogna frasca” e revela-nos nos seguintes termos o uso do ramo em Itália: “Il buon vino non há bisogno d’allettamento, e di contrassegno, tolta la metaf. Da quella frasca, che mettono i Tavernaj sopra le porte, quando fanno qualche manomessa di vino per allettare la gente”.

Bohn, no seu livro “A polyglot of foreign proverbs”, inclui o provérbio holandês “goede wijn behoeft geen kraus” (o bom vinho não precisa ramo).

Expressa-se nos mesmos termos o provérbio inglês “good wine needs no bush”.

Do uso do ramo em Espanha não tenho presente nenhum provérbio comprovativo, mas dele fala António de Trueba, num conto publicado in “La Ilustración Española y Americana” ano XIX, nº 31: “Una hermosa tarde del verannilo de San Martin, que es precisamente cuando la justicia permite poner ramo para la venta de los vinos nuevos…”.

O missionário Fr. João dos Santos testemunha o uso do ramo à porta das tabernas, na Índia, quando, na sua Etiópia Oriental (Évora, 1609) liv. I, cap.XV, refere o seguinte: “Outro elefante houve nesta ribeira, chamado Perico, muito nomeado e conhecido na Índia. Este era grande bêbado: e todas as vezes que passava por alguma casa onde estivesse ramo de vinho, se punha á porta, metia dentro a tromba, e não se bulia dali até lhe darem de beber”.


Digo eu: não hei-de estranhar o dia em que, num qualquer país deste mundo de Deus, para além do ramo à porta, ouça também alguém gritar: “VÁ DENTRO!”.