segunda-feira, 20 de julho de 2009

A NOITE EM QUE A LUA PERDEU O ENCANTO

Estava no CISMI em Tavira a cumprir serviço militar, ao tempo, obrigatório. Poucos dias depois de ter terminado a especialidade de “atirador” do curso de “Cabos Milicianos” e, por isso, já autorizado a frequentar a “sala da classe”. Foi nessa sala, em directo, pela televisão, que pude testemunhar, ainda que incrédulo, os primeiros passos do homem na Lua.
O cansaço provocado pelas longas horas de vigília e a quantidade de cerveja ingerida não eram propícios à clarividência exigida a uma testemunha credível. E, reconheço hoje, com irreparável prejuízo para a minha memória que, pese embora os quarenta anos de distância, não consegue filtrar o essencial do acessório de forma a que me traga, com exactidão, a imagem do facto histórico e dos acontecimentos relevantes que o envolveram.
Mas não consigo esquecer que foi nessa noite quente do Julho algarvio que a lua perdeu, para mim, todo o seu encanto. Aquela veste de donzela imaculada que sempre a envolvera rompia-se ali, à vista de toda a gente, sem nenhuma reserva de pudor. A sua virgindade acabava de ser sacrilegamente conspurcada pelo pé de Neil Armstrong.
O meu avô, como era costume, acordou cedo no dia seguinte. Olhou para o crescente da lua e disse para os seus botões: a mim não me enganam! Só vou acreditar que lá chegaram quando encontrarem o tal homem com o molhe de couves às costas.
Desde então nunca mais voltamos a falar sobre a lua.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

PARABÉNS

O Grupo em 1967, vendo-se ao centro a poetisa Maria do Céu e ao seu lado direito Henrique Borba, seus principais mentores.

O Grupo de Baile da Canção Regional Terceirense (uma das minhas paixões) completa hoje 43 anos sobre a sua primeira apresentação pública, data com que oficialmente marca a sua fundação. Durante os primeiros 11 anos de actividade esteve ligado à Sociedade Recreio dos Artistas de Angra do Heroísmo, emancipando-se dela em 1978. A partir de então tem trabalhado ineterruptamente na recolha, estudo e divulgação dos vários legados que, no seu todo, constituem a cultura popular dos Açores, com especial infoco na da Ilha Terceira.
Este ano, o Grupo comemorará a efeméride na Ilha das Flores onde, a convite da respectiva Organização, vai participar na Festa do Emigrante.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

À VIOLA OU À GUITARRA...

...a riqueza melódica do cancioneiro popular açoriano não sofre contestação. Mas se necessário fosse ir além da avaliação resultante da nossa sensibilidade e intuição individuais, teriamos, como prova, o interesse que ele tem suscitado, desde sempre, aos eruditos da música.
Também os mais celebrados intérpretes nacionais frequentemente recorreram e recorrem a esta fonte para dela colherem inspiração que recriam para nosso deleite: Adriano, Zeca, Amália, Paredes, Júlio Pereira, Brigada de entre muitos outros, como esta interessante adaptação num arranjo e interpretação de Frias Gonçalves.

terça-feira, 7 de julho de 2009

MAESTRO PADRE TOMÁS BORBA


Tomás Borba (Conceição, Angra do Heroísmo, 23 de Novembro de 1867 — Lisboa, 12 de Fevereiro de 1950), foi um sacerdote católico, músico, compositor e professor. Destacou-se não apenas como erudito mas também como um inovador na pedagogia da Música em Portugal.Ao longo da sua carreira foi professor de vários vultos da música portuguesa como Fernando Lopes Graça (co-autor, com Tomás de Borba, do "Dicionário de Música"), os irmãos Luís e Pedro de Freitas Branco, Eduardo Libório, Rui Coelho e Ivo Cruz, além de Bento de Jesus Caraça.
Tal como Francisco Lacerda, o estatuto de vulto nacional, com reconhecimento internacional, na área da música erudita, nunca o afastou das suas raízes etno folclóricas. Pelo contrário, deu-lhes sempre uma atenção previligiada materializada em inúmeros textos publicados. Como o que a seguir transcrevo, respigado da Revista Insula de Julho/Agosto de 1932:

"O NOSSO FOLCLORE"
Há muita gente que, mesmo exercendo aqui funções de mando, orientadoras, ignora o que sejam aquelas pedras que, há quantos séculos ninguém sabe, amararam no atlântico e foram depois baptizadas, com nomes de formusura, pelos portuguêses que as encontraram então moirinhas, desconhecedorass do mundo, encamisadas de verdura e flores tão virgens de contactos maleficientes, que nunca conhecera outro senhor que o seu noivo único, Portugal, em cujos braços se acalentaram num lindo sonho de amor, de que nunca mais foi possível despertar.

Foram sempre portuguêsas as ilhas adjacentes. O continente mandou para lá, não colonisantes, mas povoadores, que ali se fixaram, irmanados no mesmo sentimento de Patria, acobertando-se sob a mesma bandeira quinada, professando a mesma religião, falando a mesma língua, cantando os mesmos heroís, as mesmas alegrias, as mesmas aventuras.

Não há, nas ilhas, sombra de formas dialectais.

Se não fora o oceano, poderia dizer-se que a província açoriana está mais próxima da metrópole que muitas províncias arraianas. E é ainda esta massa de água que banha os calhaus floridos, que os lava e lustra, que lhes dá as características profundas de que o seu folclore é insígnia. Os mesmos temas todavia, trata-os a alma açoriana com ritmos e formas melódicas diversas do serrano do continente.
Na nossa cantiga há sempre amargura e tristeza, amargura que lhe vem da saudade atávica, tristeza que lhe vem do mar das mil cores.

O mar das ilhas envolve tudo, tudo cerca e tudo possue: almas e corações. É ele que dá ao emigrante dali e aos seus imigrantes também, o sentir dolente, amargo e saudoso que lhe imprime o carácter próprio; esteriotipado até no sotaque de largos traços melódicos que confunde os sábios da fonologia. O ilhéu fala cantando, porque foi no mar que os seua sentidos estéticos, a vista e o ouvido, se desenvolveram, se educaram e se formara. É de frente ao mar que o ilhéu, rezando, proclama a grandeza infinita do Criador, e chorando, canta, resignado, a saudade dos filhos que partem para longe, às vezes para sempre:

Não planteis a saudade
Que a saudade é má flor.
Que uma viva saudade
Me matou o meu amor

Quanta filosofia indescortinada, nesta velha quadra anónima!

Mas nos cantares açorianos também há alegria, muita alegria, por vezes. E há expressões delicadas, módulos que, naquela gente chã, foram imprimindo os velhos fidalgos, donatários, senhores de antanho, morgados de fino tracto que ainda hoje se distinguem por sua nobreza de maneiras, seus modos firmes, graciosamente altivos e inspiradores de veneração e respeito.

A viola de arame é o instrumento açoriano, essencialmente popular. É o mesmo instrumento que os franceses chamam guitarra, com a mesma forma de 8, e mesma afinação, etc. A diferença que existe entre um e outro está apenas na corda que não é de tripa, na viola açoriana, mas metálica. Porém esta distinção é profunda para a vida do nosso folclore, porque permite à imaginação criadora do virtuoso compôr as mais belas e ricas variações que pode imaginar-se, sem sair do tipo temático que a graça do povo encontrou anònimamente.

Há, neste género, verdadeiros artistas.

A guitarra portugueza, periforme, não se popularisou nas ilhas, nem a forma do fado que ela ampara. Muito menos se podia adaptar ao nosso cancioneiro, nem sequer infiltrar-se no folclore regional; porque as nossas melodias, em grande parte inspiradas no modo menor, por vezes até no doristi da herança greco-cristã, estão ipso factu, incompatibilisadas com o inimigo da sua expansão magnífica. O acordeão, embora hoje enriquecido de melhores recursos é, na sua origem, na fase em que o legitimaram os senhores padeiros, essencialmente diatónico, encueirado no sol e dos acordes de tónica dominante.

É por esta razão que este diabo de instrumento, onde entrou, matou tudo.

O açoriano cantando as suas melodias sob a tutela generosa da viola, que sempre adoptou, resistiu a todos os ataques do tedesco. E assim é que hoje, como há um século, dois séculos, três séculos, modula as mesmas canções coreadas que nosso avós cantaram e os seus netos hão-de certamente respeitar e amar. Para o ilhéu nada há que musicalmente valha a sua charamba, o seu pésinho, a tirana, a saudade, a fofa, a chama-rita, a sapateia.

E quando, um dia, se faça o centão de todas as nossas belezas folclorísticas, ver-se-há quanto tudo isto vale.


Lisboa 4-7-32


Tomás Borba"

segunda-feira, 6 de julho de 2009

PRÉMIO LEMNISCATA

Só por amizade de alguém detentor de uma imensurável generozidade se explica a atribuição de uma distinção a este modesto espaço da blogosfera. Mesmo tratando-se do "Prémio Lemniscata". No entanto aceito-o com o mesmo orgulho de quem acaba de receber um "Óscar".

Assim, para cumprimento das obrigações que a aceitação do galardão exige:

1 - afixo o respectivo "selo";

2 - atribuo, por merecimento, esta distinção aos seguintes blogues:
Conversando...
COISAS DO ARCO-DA-VELHA
MODULAR VIDEO
TRADICIONALIS
BAÚ DO CANTIGUEIRO

3 - e respondo à questão: Homo sapiens (prefiro homem sábio) é um título criado pela presunção humana colocando-se acima de todas as criaturas e de todas as sabedorias.

terça-feira, 30 de junho de 2009

JULHO E SEUS SANTOS ADVOGADOS

De uma lista coligida por Thomás Pires e publicada noVol. IV da Revista Lusitana:

Dia 5 - O Bemaventurado Miguel dos Santos - advogado contra os cancros e tumores.

22 - S. Platão - advogado e libertadoe dos captivos.

23 - S. Apollinario - advogado contra as quebraduras;
S. Libório - advogado contra a dor da pedra.

25 - S. Christovão - advogado contra o fastio;
S. Tiago - advogado contra os perigos da guerra.

28 - S. Anna - advogada contra a esterilidade dos casados.

29 - S. Martha - advogada contra a lagarta e pulgão das vinhas.

31 - S. Ignácio de Loyola - advogado contra os partos perigosos.

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quarta-feira, 20 de maio de 2009

OS TERÇOS


Nestas semanas que antecedem os “Bodos” temos andado por aí a “cantar o terço” ao Divino Espírito Santo. Esquecida durante muito tempo, esta tradição foi reavivada e reintroduzida no cerimonial das Festas ao Divino, aqui na ilha Terceira, pelo Grupo de Baile da Canção Regional Terceirense.
Esta tradição, a que já nos referimos em outro texto publicado a 11de Março de 2008, terá como provável responsável da sua introdução nos Açores o Padre António Vieira.
“Cantar o terço”não é uma tradição exclusiva dos Açores e, muito menos, da devoção ao “Divino”.
Na “Memória Histórica da Villa de Barcelos”, de Domingos José Pereira, Viana 1867, p.36, lê-se:
“Antigamente, e ainda há trinta anos, os vizinhos da Porta-Nova, e principalmente os mercadores por ali estabelecidos, todas as noites cantavam devotamente o terço, em culto público àquela imagem de Nossa Senhora da Abadia”.
Leite de Vasconcelos, nas suas inúmeras viagens pelo país, ouviu em Mondim, na Beira Alta, “cantar o terço” e dele faz a seguinte descrição:
“Para cantarem o terço, formam-se de noite, em certos sítios centrais, vários magotes de mulheres, nos quais às vezes também entram homens; um magote canta em coro o Padre-Nosso até ao meio, e o outro magote canta em resposta o resto; depois fazem o mesmo para a Ave-Maria: e assim se tem o terço inteiro. Isto dura toda a Quaresma”.
O “terço”, qualquer que seja a circunstância em que é rezado ou cantado, é um conjunto de cinco “mistérios” sendo que cada um consta de um “Padre-Nosso” e dez “Ave- Marias”. A forma de o cantar varia consoante a localidade, a motivação e a Ilha.
Seria um trabalho interessante proceder-se à recolha de todas as variantes conhecidas.
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segunda-feira, 4 de maio de 2009

CONSELHOS E CONCELHOS

Na edição de 1917 do “Almanaque dos Açores”, li o seguinte artigo com o título “Um Punhado de Conselhos” cujo objectivo era não só o de contribuir para uma vida mais saudável dos leitores mas também o de lhes moldar o carácter aproximando-os da perfeição:

“1º - Arranjar uma ocupação regular em coisas úteis.
2º - Não viver na ociosidade, nem levar o trabalho ou prazer até à fadiga.
3º - Evitar os desgostos fugindo das aventuras arriscadas.
4º - Quando, apesar de tudo, os desgostos vierem, nunca se deixe abater pela adversidade: mas lutar sempre contra ela encarando a situação pelo melhor lado. Não há desgraça que não tenha algum lado bom.
5º - Comer, moderadamente, coisas simples e fugir dos petiscos e dos cozinheiros bons.
6º - Deitar cedo e levantar cedo.
7º - Lavar todos os dias o corpo em água fria para melhor se habituar a resistir aos resfriamentos súbitos da atmosfera.
8º - Viver num ar puro, ventilando a habitação e o quarto de dormir.
9º - Apanhar um pouco de sol todos os dias, quando houver bom tempo.”

E concluía o artigo:

“Tudo isto se resume ainda em alimentar, exercitar e defender o corpo no limite das suas forças.
Quem seguir à risca estes preceitos não pode ser mau.
Para criar boas pessoas (bons cidadãos, bons chefes de família, bons filhos e bons cristãos), preparemos bons higienistas práticos.”

Então lembrei-me do meu amigo Chico Chora.

Chico Chora, para quem não o conheceu, era um discípulo fanático de Baco: todos os dias lhe prestava homenagem até à exaustão. O dia para este meu amigo começava ao balcão do primeiro café a abrir as portas todas as manhãs em Angra: o “Aliança”. Certo dia muito cedo, ainda o sol não nascera, estava o Chico, como de costume, já com a folha de serviço adiantada. Com os óculos em equilíbrio na ponta do nariz e entre cada “golo” o Chico ia respondendo, de forma automática e com um som imperceptível, aos cumprimentos matinais dos habituais clientes.
- Oh Chico! A estas horas e já estás dessa forma! – Disse um a dar uma de moralista.
Com um gesto suave e meigo o Chico levou novamente o copo à boca e, parecendo dar-lhe um beijo, voltou a desce-lo até ao balcão. Com o indicador tentou recolocar os óculos no sítio. Deu meia volta e encarou de frente o “provocador”.
- Quem és tu para me vires dar conselhos? - disse o Chico com voz alta, pausada e pastosa.
Um silêncio inesperado invadiu o barulhento café.
Tomou folgo e, quando todos julgavam que a conversa ficava por ali, levantou novamente a voz e concluiu:
- Mas…se me quiseres dar algum concelho dá-me o de Santa Cruz da Graciosa porque é o que tem melhor vinho!

E lá voltou, com o seu ar bonacheirão, ao cerimonial interrompido enquanto uma estridente gargalhada perturbava o silêncio matinal da Praça Velha.

Até sempre, Chico!
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domingo, 3 de maio de 2009

DIA INTERNACIONAL DO SOL


A moda d' O Sol (ou "Lundum") é uma das mais belas do rico cancioneiro popular da Ilha Terceira.
Com ela, através das suas quadras, associamo-nos ao Programa das Nações Unidas para o Ambiente, que hoje comemora o "Dia do Sol".




O sol apareceu brilhando
Par fazer inveja à lua
Mas ao brilho dos teus olhos
A vitória foi só tua

O sol perguntou à lua
Se o queria namorar
Por não saber que o meu bem
Mais que ninguém sabe amar

Numa versão imortalizada pelo José da Lata mas também cantada por Adriano Correia de Oliveira e Zeca Afonso.

O sol "preguntou " à lua
Quando havia amanhecer
À vista dos olhos teus
Que vem o sol cá fazer?

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quinta-feira, 30 de abril de 2009

OBAMA NA TERCEIRA


O presidente dos Estados Unidos Barack Obama escolheu os Açores, e em particular a ilha Terceira, para comemorar o 1º de Maio. Fez-se acompanhar do seu inseparável Bo, o cão de água português inquilino da Casa Branca.

Perante a tranquilidade que encontrou nas ilhas o presidente dispensou todos os seus seguranças que aproveitaram para descansar à sombra de uma árvore (ao fundo na foto).

A tradição mantem-se na Escola Básica Integrada de Angra do Heroísmo.

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segunda-feira, 20 de abril de 2009

O INVENTOR DO TEAR


Estando Satanás às voltas em como ocupar o tempo, pôs-se a inventar. Foi engendrando várias peças que, juntas, formaram uma máquina esquisita que baptizou de "tear". Dispôs-se então belzebu a tecer o primeiro pano mas, todas as vezes que tentava passar a “lançadeira” por entre a “urdidura”, a “canela” saltava-lhe fora. Impaciente como é, e perante o insucesso da sua invenção, o mafarrico pô-la de parte e nunca mais pensou nela.
Um dia S. José, que era carpinteiro, foi chamado a uma casa para exercer a sua arte e deparou-se com uma armação estranha, que nunca antes tinha visto. Curioso, perguntou para que servia. Responderam-lhe qual a sua finalidade mas que não era possível executá-la porque…e lá explicaram a deficiência a S. José. Pôs-se então o Patrono dos carpinteiros a cismar. Desmontou todas as peças da “máquina”. Estudou-as uma a uma e, algum tempo depois encontrou a solução para o problema: a “broca” – uma pequena peça que, introduzida nos dois extremos da cavidade da “lançadeira”, impedia e saída da “canela”.
Ofereceu então S. José o tear a Nossa Senhora que, a partir de então, passou a utilizá-lo para tecer todos os panos que haviam de vestir Nosso Senhor.

Assim reza a lenda!
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sexta-feira, 17 de abril de 2009

MESTRE SERAFIM


Serafim Tomás do Canto nasceu em Angra do Heroísmo a 12 de Março de 1844.
Mestre Serafim, como era conhecido, foi aquilo a que podemos chamar um "homem bom". Senhor de uma inteligência acima da média viveu sempre à margem dos cânones sociais vigentes e do “politicamente correcto”. Este facto não o impedia de ser merecedor do respeito, admiração e da atenção de todos.
Mestre Serafim, artista multifacetado, autodidacta, destacou-se principalmente como construtor e animador de fantoches e como “músico-afinador” e construtor de instrumentos musicais.

Como “bonecreiro” ficaram famosos três conjuntos que provocavam o delírio das assistências, maioritariamente constituídas por crianças: o presépio, a praça de touros e o circo.
Para além das inevitáveis figuras, o presépio era constituído por diversos “quadros” que, por si só, eram uma atracção: “os dançarinos” representando oito pares que, ao som das “modas” de então, executavam um movimento circular, marcando o compasso com os pés; o “grupo dos três cegos” dois executando viola e o terceiro guitarra; a “procissão do triunfo”, onde não faltavam as imagens da praxe com o Anjo do Triunfo à frente, o padre e as restantes personagens; “o homem dos sete instrumentos” que tocava “bandurra”, gaita de boca, caixa de rufos, bombo, pratos e guizos, tudo accionado de forma habilidosa para produzir som em simultâneo. Todo este conjunto era accionado por uma manivela que, ligada às figuras por complicadas engrenagens, lhes conferia os movimentos pretendidos.
A “praça de touros” era um espectáculo de fantoches sempre muito aplaudido. Aqui não faltava nada: um cavaleiro, três toureiros, um forcado toiros e o público, e eram representadas todas as sortes, todas elas coroadas com fortes e entusiásticos aplausos.
Por essa altura havia passado em Angra, com muito sucesso, a Companhia de Cavalinhos Nava, uma companhia de circo. Logo Mestre Serafim, elegendo aqueles artistas que mais agrados haviam deixado, tratou de lhes fazer cópia e montou, ele próprio, o seu circo, onde não faltavam números de acrobatas, trapezistas, equilibristas e os inevitáveis palhaços.

Mestre Serafim será para sempre lembrado como um genial construtor de instrumentos. Os de cordas eram verdadeiras obras-primas: a divisão da escala era feita com mestria inultrapassável proporcionando um afino impecável; as madeiras e as colas, aliadas, porventura, a segredos intransmissíveis, proporcionavam às caixas de ressonância excelentes resultados acústicos. Construía também, com bom desempenho, realejos de manivela e afinava qualquer instrumento musical com a perícia própria dos mais entendidos.

Viveu Mestre Serafim com o seu inseparável companheiro – um velho realejo – distribuindo alegria a troco de sorrisos.

Até que a morte os separou a 26 de Janeiro de 1925.
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terça-feira, 14 de abril de 2009

OUTRA VEZ LACERDA

Em 1899, na cidade de Paris, foi criada a Associação Internacional de Folcloristas. A novel associação tinha como principal objectivo a “recolha da música popular de todos os países civilizados”. Foi seu fundador e principal entusiasta, nem mais nem menos, o açoriano jorgense Francisco Lacerda.


Francisco Inácio da Silveira de Sousa Pereira Forjaz de Lacerda nasceu na Ilha de São Jorge, Açores, 1869 e faleceu em Lisboa a 18 de Julho de 1934). Frequentou o Liceu de Angra do Heroísmo e o do Porto tendo acabado por se fixar em Lisboa onde se matriculou no Conservatório Nacional. Em 1895 parte para Paris como bolseiro do Estado. Passa pelo Conservatório, trabalha com Pessard (harmonia), Bourgault-Ducoudray (história da música), Liber (contraponto) e Widor (contraponto e orgão). Em 1897 dá-se o importante ingresso na Schola Cantorum, o que significa o prosseguimento dos estudos de composição com Vincent d'Indy, e de orgão com Guilmant. Descobrindo no discípulo excepcionais qualidades de maestro, Vincent d'Indy escolhe-o para seu substituto na classe de orquestra.
Depois de uma estada nos Açores, onde faz as primeiras recolhas folclóricas, Francisco de Lacerda volta para a capital francesa, em 1900. Membro do júri da Exposição Universal, colabora com Ressano Garcia, comissário régio, e António Arroio, delegado do Ministério do Fomento, na organização da representação portuguesa. Em 1904 foi nomeado Director dos Concertos do Casino de La Baule. Em 1905 funda a Associação dos Concertos históricos de Nantes, que dirige até 1908. Em 1912-1913 dirige os Grandes Concertos Clássicos de Marselha, cargo que torna a exercer de 1925 a1928. O período de1913 a 1921 é passado principalmente nos Açores onde continua os seus estudos de folclore e se dedica à composição. Em 1921 fixa-se em Lisboa, onde funda a Filarmonia de Lisboa com a qual realiza concertos memoráveis no Teatro de São Carlos e também no Teatro de São João no Porto. No entanto o clima político da época não é propício e a breve trecho é sustida a acção da Filarmonia, mesmo contra o protesto de personalidades como: António Sérgio, António Arroio, Raul Brandão, Raul Proença, Columbano, Oliveira Ramos, Lopes Vieira, Malheiro Dias, Aquilino Ribeiro, Eugénio de Castro, Reinaldo dos Antos, Pulido Valente e Trindade Coelho, que subscrevem o manifesto, de solidariedade para com o músico, intitulado “Um Crime”. Desgostoso Lacerda parte para França tendo aí continuado a sua actividade de regente em Paris, Nantes, Toulouse, Angers e, sobretudo, Marselha. Em 1928, doente, abandona Marselha e regressa a Lisboa. Prossegue o seu trabalho de folclorista e de investigador da música popular portuguesa. O legado de Francisco Lacerda inclui os quadros sinfónicos “Almourol” e “Álcacer”, música de cena para “A Intrusa”, de Maeterlink, música de bailados, peças para órgão, piano, guitarra, prelúdios para trio e quarteto de cordas, além de uma série de “ Trovas” para voz e piano, entre outras.

terça-feira, 7 de abril de 2009

REQUIEM POR UMA TORRE OU O ILHÉU, AS MOSCAS E O HOMEM DAS PENEIRAS

A casa do meu avô, virada a oeste, tinha uma vista privilegiada para o “ilhéu grande” a que outros chamam “das cabras”. Era para lá que meu avô dirigia o olhar quando, logo aos primeiros alvores da manhã, dava inicio à sua rotina diária invariavelmente preenchida com actividade agrícola. Desse olhar dependia a organização dos afazeres: se as “grotas” do ilhéu “luzissem” era previsível que, mais hora menos hora, chovesse. Esta previsão podia ser corroborada pela minha avó que, já de véspera, havia notado que as moscas andavam “pegajosas” ou que o lume não queria pegar.
Não vou garantir, porque não me lembro, se estas previsões eram mesmo infalíveis. Agora o que posso afiançar é que se a tudo isto se juntasse o pregão “meeerca as peneeeiras” aí já não restavam dúvidas: era chuva de os cães beberem em pé.
Nunca cheguei a saber que pacto é que o “homem das peneiras” tinha com S. Pedro. Como também não sei se só funcionava quando vinha da Agualva ao Porto Judeu vender aquilo que ele próprio fabricava.
O “homem das peneiras” morreu, julgo eu, sem deixar quem o substituísse neste serviço de utilidade pública, as moscas foram dizimadas pelo DDT dos americanos e o petróleo, primeiro, depois o gás, vieram apagar as últimas brasas do fogão da minha avó. Só resta o “ilhéu” como memória desta sabedoria que a ciência não consegue explicar.
Até ao dia em que alguém o mande derrubar.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

O ABALO


Desta feita foi em Abril. No primeiro dia, passavam 5 minutos das 6. Um forte safanão fez-me saltar da cama com a sensação de ter levado um valente choque eléctrico. Ainda pensei ser uma peta. Mas não. Era mesmo um abalo de terra, daqueles que nos fazem sismar.
Impotente perante as forças da natureza e, tal como me tinham ensinado, pus as mãos, fechei os olhos e recitei em voz baixa:

Oh! São Francisco de Borja
Pelo vosso condão
Peça a Jesus
Que não trema o chão.
O chão não trema
Nem há-de tremer
A Virgem Maria
Nos há-de valer.
Oh! Virgem tão boa
Oh! Virgem tão bela
Livrai-nos do fogo
E dos abalos da terra.

E fiquei à espera das réplicas.
Nem uma!


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