sexta-feira, 25 de junho de 2010

MINHA JÓIA DE VIOLA

A marcha do Grupo de Baile da Canção Regional Terceirense saiu à rua na grande noite de S. João da cidade de Angra do Heroísmo.
Perante milhares de pessoas que enchiam literalmente as principais ruas da cidade património, a marcha "Minha Jóia de Viola", com cerca de 100 participantes e com acompanhamento musical da Filarmónica da Associação Cultural do Porto Judeu, desfilou e encantou, tendo recebido fortes e entusiásticos aplausos.
Mais uma louvável iniciativa que vem enriquecer o já valioso currículo do mais antigo grupo de folclore da ilha Terceira

sábado, 19 de junho de 2010

ANGRA JÓIA DO MUNDO

A fazer jus ao ditado "de poeta e de louco..."


Relicário com ametista
Meu pingente de opala
És cruz de pôr ao peito
Diadema de esmeralda

Minha medalha de âmbar
Meu bracelete de turquesa
Pulseira de jade e jaspe
És grinalda de princesa

És meu brinco de orelha
Pérola do meu colar
És a pedra que enfeita
O meu anel de noivar

És botão do meu punho
És fio de ouro e prata
És rubi do meu relógio
Meu alfinete de gravata

És capa real ornada
Com pedras de azeviche
És coroa de imperador
Ceptro de imperatriz

Tuas ruas são safiras
Tuas casas são brilhantes
Teus monumentos topázios
Tuas gentes diamantes

Ó Angra, és uma jóia
Que trago na minha mão
Para dar a toda a gente
Em noite de S. João

quarta-feira, 16 de junho de 2010

A NOSSA MARCHA É LINDA!

O Grupo de Baile da Canção Regional Terceirense organizou uma marcha de S. João para desfilar nas festas de Angra do Heroísmo deste ano. E, tal como hà 2 anos, com letra de Xico Batata e música de Jão Carocho.
Mais uma vez o "nosso" poeta teve o condão de construir uma letra com várias alusões às "modas" do folclore terceirense que constituem o "baile direito" e, como corolário e em perfeita consonância com o tema das festas, eleva a "VIOLA DA TERCEIRA" a "JÓIA DO MUNDO".

Aqui vai a letra

Refrão

Angra que brilha
marchando a compasso
a gente da ilha
vem ao teu regaço
as nossas cantigas
que são tradição
são joías antigas
do teu S. João

A dançar a "doce esperança"
Nos "braços" da maré cheia
Trazemos a nossa herança
Onde a história se passeia
"S. Macaio" naufragou
Pelos "mares" do "meu bem"
Só a "saudade" ficou
Nestes "bravos" de ninguém

O nosso "baile direito"
Dançado em chão de poesia
E o cantador a seu jeito
Vai rimando a nostalgia
Tocada à luz da fogueira
Com sentimento profundo
A "viola da Terceira"
É também joía do mundo

Para os mais distraídos o Xico Batata foi, pelo segundo ano consecutivo, o vencedor do concurso da marcha oficial das Sanjoaninas.

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terça-feira, 15 de junho de 2010

FESTAS "BATISTINAS"


Eis que estão de volta as "sanjoaninas". As maiores festas profanas dos açores, como fazem gala de propagandear os mais "terceiristas" e mentores do permanente despique entre as ilhas. Uma tradição secular a fazer fé em crónicas e relatos antigos. Certamente com outra dimensão e outro espírito mas, sempre que necessário, interrompidas pelas circunstâncias.

Um passeio a meados do século passado, pela pena de Armando Ávila, dá-nos conta de algumas curiosidades interessantes sobre esta festa que, quanto a nós, já conheceu dias melhores.

Venham daí:

"As Festas de S. João tiveram fama, e, durante anos, marca­ram pelo seu brilhan­tismo. Eram anuncia­das em bandos, que percorriam as ruas principais, parando nos largos e centros das localidades.
Além dos banhos milagrosos, fogueiras, perfumes, canções, romarias, preces e sortilégios, com que o povo costu­mava comemorar estas datas, tanto em Angra como na Vila da Praia realizavam-se as festas “batistinas” com a mesma pompa.
Em praças improvisadas, nos largos mais cen­trais das localidades, realizavam-se as “cavalhadas”, as justas, os torneios, os jogos e as danças variadas e caprichosas, e as touradas, em que se chegaram a matar touros, segundo o uso de Espanha, talvez por influência da dominação filipina, que nos alvores do século XVII exerceu natural predomínio nos cos­tumes portugueses.
Para as festas de carácter religioso se edificou, na esquina da Rua de S. João, no prédio onde hoje existe a firma Vidal & C.a, Sues., uma pequena ca­pela, devotada ao venerando patrono dos fidalgos portugueses, S. João Baptista, por iniciativa de João Vieira, o Velho, ao tempo presidente do Senado Terceirense.
"Demorando um primeiro andar “sobradado”—diz o historiador Pinheiro Chagas, — era esta capela de­vassada da porta da rua, a que passou a dar-se o nome do santo, por um arco de volta inteira, enquanto que pela banda da Rua da Sé, (hoje Rua da República), era vista por outro arco de iguais di­mensões. De ambas as ruas, pois, se observava o altar, que se erguia no fundo, ou ponto mais orien­tal deste pequenino edifício religioso, onde por alguns séculos tão festejado foi o filho do incrédulo Zacarias, o preclaro precursor do Divino "Agnus Dei,,.
Tão aparatosas se faziam as festas “batistinas” na Ilha Terceira, que o jornal de Lisboa, A Nação, de 5 de Janeiro de 1681, se lhe referiu nestes termos:
"Admiraram-se os forasteiros que então se acha­vam em Angra, em tal forma, que disseram a voz pública que não poderia ser crido em parte nenhuma do mundo a muita riqueza que possuía em si a ci­dade de Angra; e não faltavam alguns que foram de opinião se não havia mostrar aqueles tão grandes cabedais com tanta publicidade em terra onde resi­diam moradores tantos estrangeiros de várias e di­versas nações e ainda em tempos de inimigos tão poderosos como eram os castelhanos,,.
Embora com menor número de diversões — entre as quais avultava a espera de gado bravo que atravessava as ruas da cidade – ainda há poucos anos se realizavam em Angra, as Festas de S. João.
Acabaram, infelizmente, por desaparecer, sendo de esperar que venham a reviver, ainda este ano."

Boas festas!
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segunda-feira, 31 de maio de 2010

A MULHER E A MODA

A moda destrói a beleza e destrói o espírito. Um cai­xeiro desenha a lápis, em Paris, um certo chapéu um certo corpete, umas certas mangas — e todas, magras e gordas, as louras e as triguei­ras, as altas e as pequeninas, se introduzem, se alojam, se enfiam naquele molde, sem se preocuparem se o seu corpo, a sua cor, o seu per­fil, a sua altura, o seu peito, condizem, harmoniza, vão bem com o molde decretado e chegado pelo correio. Abandonando-se servilmente ao figurino, abdicam a sua ori­ginalidade, o seu gosto. Acei­tam uma banalidade em seda — e um lugar comum com folhos. Uma senhora que não inventa e não cria os seus vestidos — é como um escri­tor que não acha e não in­venta as suas ideias. Ter a toilette do figurino é fazer como os merceeiros que têm a opinião da sua gazeta. Desabitua o espírito da inven­ção, da espontaneidade, da liberdade. É uma confissão tácita de que não tem espírito, nem fantasia. Seguir um figurino é aprender a ele­gância de cor, para ir recitar na rua; é o ter o gosto que se recebeu de encomenda; é alugar o chic ao mês; é mandar vir as ideias pelo correio; é o bom-tom por as­sinatura.
Que falta de espírito! e os maridos pagam-no.

Eça de Queiroz

sexta-feira, 28 de maio de 2010

A LIÇÃO

foto roubada a "Bagos d'Uva"

O Grupo Folclórico Fontes da Nossa Ilha – GFFNI- completou, recentemente, 25 anos de actividade, comemorando assim as suas “bodas de prata”.

Se a efeméride se tivesse resumido à simples lembrança da data, com uma palestra, um comes e bebes da praxe e um artigo para os jornais com uma foto do grupo, sobejaria a palavra “parabéns” e eventualmente os desejos de “outros tantos anos de vida”. Mas o que aconteceu obriga-nos, por uma questão de justiça e pudor, a dizer mais duas ou três palavras.

Logo a primeira com um pedido de desculpas pelo facto de, e apesar de atempadamente ter-mos recebido convite para participar na festa do Divino Espírito Santo de 16 a 23 de Maio, imperativos que não interessam aqui, impediram-nos de estar presentes. Certamente que ficamos nós a perder.

Confesso que as expectativas criadas não eram, também, muito elevadas e, excepção feita às duas palestras agendadas, primeiro pela matéria e, sobretudo, pelo orador Padre Hélder, estudioso e profundo conhecedor da temática do Espírito Santo, o restante, pensava-mos nós, seria igual a tantas outras mordomias e “brianças” para as quais temos sido convidados.

Diariamente, mercê de um trabalho (excelente, diga-se) de informação que nos foi proporcionado de forma apaixonada pelo blog “Bagos d’Uva”, que fez o acompanhamento de todos os momentos desta semana especial, fomos tendo a percepção que afinal estávamos enganados.

O que o GFFNI se propunha fazer era, afinal, muito mais do que preencher uma semana com uma mordomia banal.
O que o GFFNI se propunha fazer, e estava fazendo com o envolvimento e orgulho da comunidade onde está inserido, era trazer de volta aos olhos de todos, os verdadeiros valores da Festa e a beleza de todo o cerimonial, fazendo de cada pormenor o seu ponto alto.
O que o GFFNI se propunha fazer, e estava fazendo era, afinal, trocar o trabalho fácil de fazer a Festa “comprando tudo feito” por muito trabalho feito com muito saber, amor e paixão.
O que o GFFNI se propunha fazer e estava fazendo a cada dia que passava, era mostrar a todos que a Festa, a autentica, é ainda possível com toda a sua riqueza cerimonial e com a preservação de todos os seus valores.
A dignidade posta em cada uma dos momentos da Festa foi sinónima do respeito pela sua simbologia: desde o receber as “insígnias”, a sua colocação em lugar previamente decorado, o terço participado, a abundância e apresentação da “mesa” para as visitas, o ir buscar o vinho, o preparar as flores para os bezerros, a folia que culmina com a bênção do gado pelos seus criadores, a “amassadura” e cozedura do pão e da “massa”, a ceia dos criadores, a partilha permanente, e entreajuda espontânea, a alegria saudável, as sopas, a organização do cortejo da “coroação”, com a entrega das “insígnias” com as devidas distinções, a cerimónia da “coroação”, o bodo, o pão, o vinho, o regresso, a entrega de esmolas, a função, o regresso ao “império”, o arraial, enfim, tudo o que o GFFNI se propôs fazer, fê-lo como deve ser feito e provou, assim, que pode ser feito sem ter que se recorrer aos efeitos perniciosos de uma representação “folclórica”.
O que o GFFNI fez, sem grandes alaridos e parangonas, foi dar uma lição de como se deve trabalhar e dinamizar a cultura popular, evitando a todo o custo a sua “folclorização”.

O “folclore” é um fóssil da cultura popular (que o Divino Espírito Santo me proteja!).

O que nós sempre defendemos, e por vezes de uma forma solitária, é uma cultura popular viva, em que todos se revejam e se identifiquem com ela, sem adereços de faz de conta, sem medos de parecer fora de moda, num esforço permanente de a alimentar com o nosso empenho desinteressado, utilizando-a em nosso proveito e prazer sem a desvirtuar, partilhando-a sem preconceitos e deixando-a orgulhosamente como uma herança digna e apetecível aos nossos vindouros.

O que o GFFNI fez durante a semana de 16 a 23 de Maio de 2010 foi, com muita humildade, dar o seu contributo.

Que todos saibam, ao menos, tirar o proveito desta eloquente Lição!
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quarta-feira, 19 de maio de 2010

O RATEIRO

Há dias li no jornal “A UNIÃO” o respigo da seguinte notícia publicada 100 anos antes, que transcrevo ipsis verbis:
“Liga contra os ratos
Não chegará a dusentos mil reis o dinheiro que a Liga contra os ratos tem em cofre para premiar os caçadores d’estes nefastos roedores.
A direcção d’esta benemérita instituição, vendo-se prestes a ter de suspender o seu patriótico mister, acaba de pedir a intervenção do sr. governador civil a fim de que tal não succeda. S. ex.ª immediatamente telegraphou para Lisboa, ao governo, e o mesmo vae hoje fazer a direcção da Liga.”


A propósito ocorreu-me o seguinte acontecimento:

O “rateiro” era um personagem de arrepiar: andrajoso, de aspecto nojento, fazia gala de ser mal amado. Ninguém se aproximava dele sem sentir asco e náusea. Uma saca de serapilheira às costas, suspensa na ponta de um pau de “carrete” que trazia sobre o ombro esquerdo já calejado, era o seu único adereço. Especulava-se sobre o seu conteúdo que jamais alguém vira mas, no entanto, quase todos o adivinhavam. O peso da saca e o desequilibro provocado por uns “calcinhos” de água ardente eram ajudados por um tosco bordão que trazia na mão direita. Deambulava pela cidade sem rumo nem pressa.
Certo dia deu-se um roubo num estabelecimento comercial localizado na Rua do Galo e que era alvo de frequentes visitas dos amigos do alheio: O Falcão.
Dada a notícia à polícia logo os agentes receberam instruções para terem atenção a qualquer indivíduo suspeito. Um guarda que, havia pouco tempo, tinha chegado à Terceira como reforço da esquadra de Angra, ao cruzar-se numa das ruas da cidade com o “rateiro”, abordou-o perguntando o que ele trazia na saca. O nosso homem nem queria acreditar:
- O quê?
- O que tem dentro desse saco? Já disse!
Na rua toda a gente parava. O “rateiro” olhou para a direita, depois para a esquerda e, muito calmamente, respondeu o que para ele era óbvio:
- São ratos!
- Não brinque comigo! – gritou o guarda sentindo que estava a ser desrespeitado por um indigente perante uma crescente assembleia. E fazendo uso do estatuto que a farda lhe conferia e colocando a voz em tom autoritário ordenou:
- Acompanhe-me à esquadra!
O “rateiro” que, apesar do aspecto, não era homem de faltar ao respeito a ninguém, acatou serenamente a ordem da autoridade e lá foi atrás do sr. Guarda a caminho do Largo do Colégio onde se situava, então, o Comando e a esquadra da PSP.
À entrada, a sentinela de mãos suspensas pelos polegares no largo cinturão preto, um guarda antigo conhecedor do meio e que, por ser cliente habitual do “Gadanha”, da “Gruta do Norte”, do “Gaspar”, do “Machado”, do “Escondidinho”, da “Casa do Pico”, do “Avião”, da “Fonte dos Passarinhos” e de todas as outras tascas da cidade quando fazia ronda, ali estava de castigo. Não conseguiu disfarçar o seu espanto. Rodando sobre si foi acompanhando com o olhar incrédulo os dois personagens que, subindo a escadaria se perderam na penumbra do corredor da esquadra.
- O meu subchefe dá licença? – disse o guarda aprumando-se numa continência como “manda a sapatilha” - Tenho aqui um suspeito do roubo do Falcão!
Seguiu-se um silêncio quase eterno. O “Comandante da Guarda” acabou de ler “ União” que levantava com ambas as mãos à sua frente, deu a última fumaça no “comercial de rolo” que lhe tingia os dedos de ocre velho, atirou certeiro a beata para o escarrador de louça colocado estrategicamente junto à velha secretária, e dirigiu o olhar para os vultos à sua frente. A luz peneirada que entrava pela janela virada para o claustro do velho convento iluminava-lhes as faces, realçando a serenidade de um e a ansiedade do outro.
- Com que então temos um suspeito? – disse o subchefe como se estivesse programado para o fazer, enquanto tentava identificar o cheiro que lhe feria a pituitária.
- Sim meu subchefe! Este homem, além de ter um ar suspeito, ainda por cima gozou comigo à frente de toda a gente!
O subchefe colocou-se em posição favorável perante a luz para se certificar do que a sua intuição de lhe sugeria.
Os olhares do “rateiro e do graduado fixaram-se e, sem uma palavra, ambos expressaram um indelével quanto comprometedor sorriso.
- Diz-me então que o suspeito lhe faltou ao respeito à frente de muita gente! – disse o subchefe, enquanto se afastava ligeiramente dos dois homens que permaneciam imóveis lado a lado. – De que forma? – concluiu.
- Quando lhe perguntei o que trazia na saca respondeu-me que eram ratos, meu subchefe.
- Ratos? – retorquiu o graduado evitando, com custo, uma gargalhada aprisionada na garganta.
- Sim, meu subchefe, ratos!
- Isso é grave! É mesmo uma falta de respeito à autoridade!
- Claro, meu subchefe! – disse o guarda experimentando já uma sensação de dever cumprido.
Um novo e interminável silêncio se instalou no escuro corredor.
- Ouve lá! – disse o subchefe dirigindo-se ao suspeito – Não sabes que podes ir parar ao calabouço por falta de respeito à autoridade?
Sem esperar resposta e levantando a voz, enquanto se afastava para a larga porta que separava o corredor da antecâmara dos calabouços, ordenou:
- Mostre ao sr. Guarda o que tem dentro da saca!
O rateiro não hesitou. Desembaraçou com destreza e rapidez o laço que fechava a boca da velha saca de lona e, pegando-lhe pelo fundo, despejou todo o seu conteúdo aos pés do agente, qual rainha Santa Isabel perante o seu Senhor e Rei D. Diniz:
- São ratos, sr. Guarda! São ratos! Eu não lhe dizia?
Por toda a esquadra ecoaram gritos assustadores. Pelas portas dos gabinetes atropelavam-se, curiosos, os agentes de serviço. O jovem guarda desceu os vários lances da escada que o separava da rua sem tocar num único degrau, a acreditar no testemunho da sentinela que, adivinhando o sucedido, ria a bandeiras despregadas enquanto o via desaparecer no canto do correio.
E quando tudo voltava á normalidade dentro da esquadra ainda se ouviam as gargalhadas do velho subchefe que, refugiado num dos calabouços, enxugava as lágrimas que lhe escorriam em cascata pela face.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

O DIA MUNDIAL DA DANÇA

Aconteceu no passado dia 7, no grande auditório do Centro Cultural e de Congressos de Angra do Heroísmo, um espectáculo alusivo ao Dia Mundial da Dança.
De entre as várias formas e estilos de dança, a organização entendeu incluir o "folclore". Embora receosos da reacção do público a esta "provocação", o resultado final veio dar crédito a quem acreditava e acreditou na aposta.
Quanto a nós, que aceitamos o desafio, julgamos ter dignificado a "dança" no seu conceito global, sem desvirtuar as particularidades deste "estilo".

Como enquadramento da nossa apresentação produzimos e demos a ler o seguinte texto:

O RITMO e o GESTO – dois elementos básicos da dança - foram o meio a que o homem primitivo, muito naturalmente, se serviu para dialogar, orar, trabalhar e comunicar.

Surgida assim por razões orgânicas e espirituais, a dança passou a ter motivações de ordem sensorial, religiosa, metafísica e social.

Historicamente as danças de sedução, as danças sagradas e as danças de diversão surgiram e desenvolveram-se em paralelo, integradas nas actividades de trabalho, no diálogo de amor, no ritual ou nos vários rituais do grupo social primitivo. Elas passaram a estar presentes em quase todos os instantes da vida do clã e da tribo – nos momentos de alegria ou tristeza, de vitória ou de derrota, de perplexidade e de temor.
E do ritual à festa é um passo, até porque, em muitos aspectos, ritual e festa se confundem.

Povoados por homens e mulheres oriundos, na sua maior parte, do continente português, mas também do norte e centro da Europa, os Açores estiveram, desde o seu povoamento, expostos a influências culturais externas de tal grandeza cuja marca permanece de forma indelével nas diferentes manifestações da sua cultura popular, onde se incluí, obviamente, a música e a dança.

A gama de funções cumpridas pela música e pela dança, na vida social açoriana, não se resume ao simples entretenimento. Antes porém tem um papel integrador e de atenuamento de conflitos.
Dançar é aqui, como em todo o lado, um acto eminentemente social onde a comunidade se empenha e se exprime como tal.
Não só os que dançam na roda, os que cantam e os que tem a responsabilidade do acompanhamento musical, mas também quem, em redor, sente como sua a beleza melódica de uma “Charamba” a sensibilidade de uns “Olhos Pretos” ou a alegria de uma “Chamarrita”.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

O JUDEU ERRANTE


A figura do Tio Chico S. Miguel sempre me intrigou.
Conheci-o velho embora só muitos anos depois tivesse morrido de velhice.
Era um homem alto mas, curvado como andava por mor da habituação ao cabo da enchada, parecia de estatura mediana. Por baixo da barba, sempre por fazer, adivinhava-se o rasto do tempo.
Dava dias para fora.
A voz rouca e cavernosa impunha respeito.
Tinha feito a tropa no castelo como cozinheiro, onde conheceu muita gente das outras ilhas e até do continente. Uma passagem, embora fugaz, a trabalhar na "base" permitiu-lhe conhecer gente vinda do outro lado do mundo.
As histórias que contava, algumas reais, tinham sempre um enquadramento misterioso.

A figura do Tio Chico S. Miguel sugeria-me a do Judeu Errante que, a acreditar na sua convicção, ainda anda por aí.
Jurava mesmo já ter ouvido o barulho das suas pesadas botas: - "O fogo me pegue se isto não é verdade!"

" Um sapateiro de Jerusalém, chamado Ahasverus, estava na sua tenda trabalhando quando Jesus passou à sua porta a caminho do calvário. Deixou o que estava a fazer, veio para a rua e, juntando-se aqueles que insultavam Cristo, gritou: - "Vai! Vai-te embora daqui!" Jesus olhou para ele e sentenciou: - "Eu vou! Mas tu ficarás até minha volta!" E Ahasverus ficou, até hoje, errando pelo mundo, sem caminho certo, sem morrer, sem descanso, esperando a volta do Senhor."

O Judeu Errante é um velho alto e magro, andrajoso, com barba e cabelos compridos, que aparece durante a Quinta-Feira Maior e a Sexta-Feira da Paixão quando se celebra a morte de Jesus.

Hoje, sem querer, dei comigo a cismar com ele.

quarta-feira, 31 de março de 2010

DITADOS DE ABRIL

No princípio ou no fim
Abril só ser ruim

Abril frio:
Muito pão
Pouco vinho

Frio de Abril
Nas pedras vai ferir.

Altas ou baixas
Em Abril vêm as Páscoas

Não é cada dia
Páscoa nem vindima

Não há Entrudo sem lua nova
Nem Páscoa sem lua cheia

Em Abril
Guarda o gado
E vai onde tens de ir

O TEMPO

PREVISÕES DO TEMPO

No tempo em que não havia rádio, televisão, serviços de metereologia e de protecção civil; em que a palavra "windguru" poderia ser ofensiva; em que o meu irmão Eduardo ainda nem sonhava com o projecto "climaat" nas suas brincadeiras de cientista; em que o "tempo" era assim porque Deus o mandava e era preciso não O ofender para não vir castigo; em que era natural chover no inverno e fazer sol no verão; nesse tempo o "tempo" era previsível de forma individual.

Aqueles que podiam, faziam-no pelo barómetro aneróide:

Abaixo de 736 milímetros: tempestade; de 736 a 745 milímetros: muita chuva; de 745 a 754 milímetros: chuva ou vento; de 754 a 763 milímetros: variável; de 763 a 772 milímetros: bom tempo; de 772 para cima: muito bom e seco

N, B. — A numeração nos mostradoras dos aneróides vem marcada em centímetros: assim é que 76 = 760 milímetros. Devem ser regulados de tempos a tempos por um de Tortin, para o que têm um parafuso especial. Se o ponteiro sobe ou desce lentamente, indica que mudança do tempo será durável e que será de pouca duração no caso de saltos bruscos.

Os outros pelo estado do céu


- Céu azul-claro e brilhante indica bom tempo.
- Amarelo ao pôr-do-sol anuncia chuva.
- Nuvens cor-de-rosa ou céu brumoso ao nascer do Sol, anunciam bom tempo.
- Nuvens vermelhas de madrugada, amarelas e brilhantes ao ocaso indicam vento ou chuva.
- Os “cirrus”, anunciam e precedem a mudança de tempo.Se são muitos e se duram por alguns dias os “cirrus” produzem borrasca.
- Os “cúmulos” permanecendo todo o dia, indicam chuva ou tempestade.
- Os “cúmulos-stractos”, a oeste no horizonte, quando o céu está encoberto, produzem bom tempo.
- Os“nimbos” indicam chuva.
- Nevoeiro sombrio anuncia chuva; nevoeiro transparente revela bom tempo.

Outros tempos!

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sexta-feira, 26 de março de 2010

O CASAMENTO DA FILHA DA GALINHA

LENGALENGA



Diz o galo
para a galinha:
-Vamos casar
A nossa filhinha

- A nossa filhinha
casada está
o enxoval
de onde virá?

Diz a aranha,
qua está no aranhal,
que está pronta
para dar o enxoval

- O enxoval
já nós temos cá;
o padrinho
de onde virá?

Diz o rato,
que está no buraquinho,
que está pronto
para ser o padrinho,

- O padrinho
já nós temos cá;
a madrinha
de onde virá?

Diz a cabra,
que estava na vinha
que está pronta
para ser a madrinha.

- A madrinha
já nós temos cá
a dançarina
de onde virá?

Diz a mosca,
que anda no ar,
que está pronta
para dançar.

- A dançarina
já nós temos cá;
o gaiteiro
de onde virá?

Diz o burro,
que está no palheiro,
que está pronto
para ser o gaiteiro

- O gaiteiro
Já nós temos cá;
o casamento
vai-se fazer já.

quarta-feira, 17 de março de 2010

... MAS QUE AS HÁ, HÁ!

As feiticeiras, crê o povo, celebram as suas reuniões nocturnas em numerosos sí­tios de S. Miguel e pretende que esses sítios se reconhe­cem ao longe pelas mui­tas luzinhas que lá brilham na escuridão da noite, assim como pelas risadas estri­dentes das feiticeiras. Atribui-lhe todo o género de prodígios, inclusivamente a faculdade de ir á China e voltar em um barco de pes­ca entre a meia-noite e a madrugada do dia seguinte.
Em questões de amor, por exemplo, as suas façanhas são frequentes. Eis uma delas contada por uma ra­pariga dos Mosteiros que declarou conhecer muito bem as pessoas que inter­vieram no seguinte drama, do qual a feiticeira saiu “codilhada”.
A filha de certa mulher, muito sabida em artes de feitiçaria, namorava um ra­paz do sítio, que se demo­rava em pedi-la em casa­mento. A mãe para obrigá-lo a declarar-se, procedeu do seguinte modo: fez um bolo de massa sovada acabando de amassa-lo sobre o peito desnudado da filha. Uma vez cozido, a rapariga ofereceu ao seu conversado uma fatia do bolo, mas este, em vez de a comer, guar­dou-a no bolso porque an­dava desconfiado da malí­cia da feiticeira; ao chegar a casa deu-a a comer ao seu burro. O animal logo se mostrou agitadíssimo, re­bentou o cabresto e fugiu á desfilada em direcção da casa da rapariga, começan­do a zurrar desesperadamente diante da sua janela, com tal violência que alvoro­çou a vizinhança. O desgra­çado animal estava doida­mente apaixonado.
O rapaz, feliz de ter esca­pado á manobra desleal da feiticeira, exclamava para a mãe e para a filha: «Era assim que vocês me que­riam ver!
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DIA DE CHUVA DIA DE PANCADAS

Era quase sempre assim.
Nas casas pequenas da minha criação, quando chovia, era inevitável andarmos "enriçados" debaixo dos pés dos adultos que, na rotina da faina doméstica, nos "enchotavam" para um canto qualquer.
Em cima da cama, de onde não saíamos, no "estrado" ou simplesmente em cima de uma "caixa"era aí que passávamos quase todo o dia reinventando jogos e brincadeiras que acabavam, invariavelmente, em palmadas distribuídas carinhosamente de forma justa e equitativa por todos.
De pernas "encruzadas", sentados em roda, sempre com grande algazarra, era escolhido um jogo qualquer, numa sequência aleatória, que se repetiria durante todo o dia e em todos os dias de chuva.
Bem podia ser o "lagarto pintado".
Com as mãos colocadas sobre os joelhos esperávamos a sentença da sorte que nos caberia após a recitação lenta

Lagarto pintado
quem te pintou
foi uma velha
que por aqui passou
no tempo da eira
fazia poeira
puxa lagarto
p'la ponta da orelha

em que a cada estrofe nos era apontado o dedo indicador do mandante.
Depois de cada um ter sido sentenciado com a última estrofe ficávamos todos agarrados às orelhas uns dos outros e, enquanto em uníssono gritávamos a lenga-lenga, puxávamos com quanta força tínhamos pelas orelhas dos parceiros do lado.
O resultado era sempre o mesmo: acabávamos com as orelhas roxas e em grandes discussões que eram serenadas com umas pancadas a fazer jus à chuva que caía lá fora.
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segunda-feira, 15 de março de 2010

"ANGRA JÓIA DO MUNDO" JÁ TEM MARCHA


Já está escolhida a "marcha oficial" das Sanjoaninas 2010 "Angra Jóia do Mundo".

Pelo segundo ano consecutivo, e após concurso público, foi vencedora a letra da autoria do "Xico Batata", meu prticular amigo e cúmplice de muitas (an)danças.

Aqui vai:

ANGRA JÓIA DO MUNDO

Angra menina vaidosa
É tão belo o teu trajar
És uma jóia preciosa
Vestida de rendas de mar
Tua baía visitada
Outrora por muitos veleiros
Cidade pelo mundo amada
Foste ventre de marinheiros

Tuas ruas são colares
Realçam teu corpo bem feito
As tuas casas seculares
São jóias feitas a preceito
No mundo tens diamantes
Levaram de ti a ternura
Bem hajam os teus emigrantes
Espalhando a tua cultura

São João é o primeiro
A saltar alegre e contente
O poeta vem a terreiro
E dá-lhe a marcha de presente
Marcha descendo a calçada
Dançando marés de alegria
Angra donzela mimada
Por versos dizendo poesia

REFRÃO

Angra partilha
A sua paixão
Abraçando a ilha
No seu São João
Pela minha cidade
Sinto amor profundo
És minha vaidade
És jóia do mundo

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