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quarta-feira, 31 de março de 2010

DITADOS DE ABRIL

No princípio ou no fim
Abril só ser ruim

Abril frio:
Muito pão
Pouco vinho

Frio de Abril
Nas pedras vai ferir.

Altas ou baixas
Em Abril vêm as Páscoas

Não é cada dia
Páscoa nem vindima

Não há Entrudo sem lua nova
Nem Páscoa sem lua cheia

Em Abril
Guarda o gado
E vai onde tens de ir

sábado, 27 de fevereiro de 2010

PRESO POR TER CÃO...

No tempo em que os espanhóis governavam cá na nossa terra, era uma grande desgraça!
De cada tantos porcos, de cada tantas galinhas, ovelhas, reses ou chibos que a gente possuía tinha de dar um lance que era de cada quatro um.-Ninguém ajuntava pé de orelha. Era uma desgraça.E depois os moleiros eram obrigados a ter um cão, sob pena de ir para a cadeia. Mas um cão que não comesse farinha. E como não havia meio mais seguro de vigiar isso, era obrigação que o animal tivesse focinho preto.Uma certa vez, um moleiro que havia nesse tempo, tinha lá um canito que era muito bom, mas por infeliz sorte, tinha o focinho branco. Veio de lá a justiça um dia e bumba! Prende-o. O homenzinho tinha muito génio, e vai e mata o cão. Torna a justiça outra vez… o moleiro não tinha cão. E bumba! Cadeia outra vez com ele.
O homenzinho então costumava dizer:
- Isto é assim: preso por ter cão, preso por não ter cão.


sábado, 14 de março de 2009

PELO SIM, PELO NÃO...

“PELO SIM, PELO NÃO, LEVA O CHAPELÃO” ou “PELO SIM, PELO NÃO, LEVA O TEU GABÃO”

Diz-se para prevenir alguém que se acautele, para não ser iludido na sua boa fé.

As raparigas de certa aldeia eram todas bonitas, mas de reputação muito duvidosa. Por isso quando se efectuava algum casamento, o noivo levava na cabeça um enorme chapéu ( o chapelão) para ocultar os vestígios que o mau procedimento anterior da noiva pudesse produzir.
Na aldeia havia apenas uma rapariga tida por honesta e, como tal, respeitada por toda a gente.
Começou a cortejá-la um rapaz, a quem os outros todos olhavam com inveja, por ser o único da terra que não precisava de “chapelão”.
Chegado o grande dia, e estando os noivos já prontos para irem para a igreja, a noiva reparando que o rapaz, ao contrário do uso da terra, levava um chapéu muito pequeno, disse-lhe: “Pelo sim, pelo não, leva o chapelão”.

Outra variante deste aforismo terá por origem a seguinte história:

Um pároco, sabendo que na sua paróquia as mulheres “conspurcadoras” da honra de seus maridos se contavam às dezenas, disse à missa conventual que, por ordem superior, intimava os seus fregueses a quem as mulheres não fossem fiéis, a irem no domingo seguinte à missa, de capote, sob pena 10.000 réis de multa.
À noite, á lareira, José da Silva Ramos, disse à mulher:
-Já que temos vagar contemos os que irão de capa à missa, principiando na nossa rua: o José da Estima terá de levar capote, porque a mulher arreganha a taxa para o mestre-escola. O Manuel da Bernarda terá de levar capa, porque a mulher faz muitas festas ao boticário. O João da Henriqueta irá de capa, porque a mulher foi à feira e o estudante comprou-lhe lá um cordão. O Aniceto… (era o paroquiano que se seguia ao Ramos).
- E Ramos, observa a mulher.
- Então se erramos, diz o marido, contemos outra vez.
E começou de novo pelo José da Estima e, ao passar pela sua porta e dar o salto para a casa do Aniceto, diz outra vez a mulher:
-E Ramos.
Responde o marido:
-Tornemos a contar.
Três ou quatro vezes a mulher lhe disse – E Ramos – sem que o homem percebesse a alusão, até que ela lhe falou assim:
- Pelo sim, pelo não, leva o teu gabão, não queira o diabo que pagues alguma condenação.
No domingo seguinte lá foi José da Silva Ramos a caminho da igreja, diademado como o José da Estima, o Manuel da Bernarda, o João da Henriqueta e o Aniceto, e, como eles, levando nos ombros o seu capote.


Bohn, no seu livro “ A polyglot of foreign proverbs” cita esta forma espanhola, similar: Por si ó por no, senor marido, ponéos la capila – e explica que a mulher assim respondeu ao marido quando este lhe disse que uma lei nova determinava que todos os maridos “cucos” usassem capuz.
Pelo sim, pelo não, trago sempre o meu gabão.
Fonte: Revista Lusitana

sexta-feira, 13 de março de 2009

...LIVRAR O PAI DA FORCA



“Parece que vai livrar o pai da forca” diz-se de alguém que se apresenta muito açodado, que vai muito apressado.

A origem deste ditado terá certamente relacionado com um milagre de Santo António.
Estando o taumaturgo a pregar um sermão em Pádua, soube, por inspiração do Espírito Santo, que seu pai acabava de ser, injustamente, condenado à morte acusado de ter assassinado um homem. Durante algumas horas o Santo ficou imóvel no púlpito, inclinado sobre a balaustrada. Ao mesmo tempo, e quando seu pai era encaminhado para o cadafalso, o pregador milagreiro apareceu em Lisboa. Fazendo com que a vítima se erguesse da sepultura, esta proclamou aos juízes e algozes a inocência do acusado que, assim, foi restituído à liberdade.

J. S. F. de Lacerda Carvalho, num artigo publicado na “Enciclopédia das Famílias” intitulado “ Das tradições populares de Santo António nos Açores”, inclui as seguintes quadras que mencionam o milagre:

Santo António que livraste
Da forca o vosso pai:
De quem perdeu a vergonha
N’este mundo nos livrai.

Santo António é bom filho
Que livrou seu pai da morte;
Bem pudera Santo António
Livrar-me de uma má sorte.

Santo António é bom filho
Que livrou seu pai da morte;
Ó, que ditoso pai
Ter um filho de tal sorte.

Também o “Romanceiro do Arquipélago da Madeira” inclui, pela pena do Dr. Álvaro Rodrigues de Azevedo, uma lenda relacionada com este milagre.

Daí a comparação popular: “ É como Santo António: está em toda a parte.”

LADRAR À LUA



Diz-se de quem vocifera contra pessoas a quem não se pode fazer mal; fazer ameaças vãs.

Este ditado tem origem na crença do povo de que os cães ladram à lua. Existe uma lenda que fundamenta esta crença e que vem publicada no Almanaque de Lembranças de 1867: “A lua tinha, em tempos antigos, duas faces: uma celeste e outra infernal. Os cães sabem isso, e sabem também que a irmã de Apolo era a deusa do Erebo, que Diana caçadora era a Hécate de cabeça de cão e à qual se sacrificavam cães. Esta hecatombe antiga excitou, como é fácil de supor, as iras da canzoada. Transmitiu-se o ódio de pais a filhos, e hoje, que já estão extintos os sacrifícios, ainda nas horas mortas da noite os cães erguem a voz para injuriar a tríplice deusa, e vingar, por essa forma, a sua velha ofensa.

Em França diz-se que os cães ladram à lua porque o seu brilho lhes turva a vista. Também se crê que os lobos uivam à lua, e por isso se diz: Dieu garde la lune des loups.
Quando a lua é encoberta por uma nuvem diz-se que foram os lobos que a comeram, para poderem entregar-se aos ataques e aos roubos.

Tal como os cães, ladrar à lua parece ser a nossa sina!




sábado, 25 de outubro de 2008

ADEUS CEGO, ADEUS VIOLA...

…diz-se quando algo está irremediavelmente perdido. Não sei precisar se este é um dito local mas bem poderia ter nascido de uma situação caricata protagonizada pelo Francisco Ceguinho, tocador de viola e cantador.
Nos finais do século XIX as festas do Império da Caridade das Figueiras do Paím da Praia da Vitória, que se realizavam, tal como hoje, no último domingo do mês de Setembro, terminavam invariavelmente com uma “toirada” à corda. Em determinado ano entenderam os mordomos substituir esta tradição por uma corrida de praça. Para tal o Largo das Figueiras do Paím foi transformado numa arena delimitada por palanques e camarotes que se encheram com pessoas da Vila e de fora dela.
O Francisco Ceguinho também não quis faltar à festa. Dentro do recinto, antes e no intervalo dos toiros, sempre guiado por um rapaz, parava o Cego em frente dos palanques cantando às pessoas de maior estatuto, começando sempre com a mesma cantiga, mudando apenas o terceiro verso onde cabia o nome do visado:

Fé, esperança e caridade
São três armas da virtude;
Senhor…fulano de tal
Lá vai à vossa saúde.

Entre cada quadra advertia o Cego o seu guia para que este tivesse atenção à saída do toiro.
Em determinada altura sai-se com esta:

Ò rapaz, toma cautela,
Repara bem p’rá gaiola;
Se eles soltam o bicho,
Adeus cego, adeus viola.

Isto dito rebenta um foguete e, no mesmo instante, sai para a arena um valente toiro puro que não vê mais ninguém à sua frente do que o nosso indefeso cantador. Resultado: Cego para um lado, viola para o outro feita em mil pedaços.
Até parece que estava a adivinhar!

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

"AMANHÃ JEJUA O PRETO"...

…diz-se a quem adia sucessivamente uma obrigação. Este ditado, que ouvimos em todo o país, tem, como muitos outros, uma história que o justifica.
Conta-se que “certa vez um preto foi à confissão e recebeu do padre como penitência jejuar no dia seguinte. O penitente, com medo de se esquecer, pediu ao padre que lhe escrevesse num papel o dia em que haveria de cumprir a penitência. O padre escreveu:
“Amanhã jejuará o preto!”
Todos os dias lia o preto o papel. Como nele dizia “amanhã” descansava o preto:
“Inda bem que nã ser hoje”.
E nunca jejuou.