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segunda-feira, 3 de outubro de 2011
VIOLA DA TERRA - NEM TUDO ESTÁ PERDIDO
Porque se chegou a temer pelo seu desaparecimento eis que nos surgem novos entusiastas construtores de instrumentos de cordas e, em particular, de "violas da terra".
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sábado, 25 de outubro de 2008
ADEUS CEGO, ADEUS VIOLA...
…diz-se quando algo está irremediavelmente perdido. Não sei precisar se este é um dito local mas bem poderia ter nascido de uma situação caricata protagonizada pelo Francisco Ceguinho, tocador de viola e cantador.
Nos finais do século XIX as festas do Império da Caridade das Figueiras do Paím da Praia da Vitória, que se realizavam, tal como hoje, no último domingo do mês de Setembro, terminavam invariavelmente com uma “toirada” à corda. Em determinado ano entenderam os mordomos substituir esta tradição por uma corrida de praça. Para tal o Largo das Figueiras do Paím foi transformado numa arena delimitada por palanques e camarotes que se encheram com pessoas da Vila e de fora dela.
O Francisco Ceguinho também não quis faltar à festa. Dentro do recinto, antes e no intervalo dos toiros, sempre guiado por um rapaz, parava o Cego em frente dos palanques cantando às pessoas de maior estatuto, começando sempre com a mesma cantiga, mudando apenas o terceiro verso onde cabia o nome do visado:
Fé, esperança e caridade
São três armas da virtude;
Senhor…fulano de tal
Lá vai à vossa saúde.
Entre cada quadra advertia o Cego o seu guia para que este tivesse atenção à saída do toiro.
Em determinada altura sai-se com esta:
Ò rapaz, toma cautela,
Repara bem p’rá gaiola;
Se eles soltam o bicho,
Adeus cego, adeus viola.
Isto dito rebenta um foguete e, no mesmo instante, sai para a arena um valente toiro puro que não vê mais ninguém à sua frente do que o nosso indefeso cantador. Resultado: Cego para um lado, viola para o outro feita em mil pedaços.
Nos finais do século XIX as festas do Império da Caridade das Figueiras do Paím da Praia da Vitória, que se realizavam, tal como hoje, no último domingo do mês de Setembro, terminavam invariavelmente com uma “toirada” à corda. Em determinado ano entenderam os mordomos substituir esta tradição por uma corrida de praça. Para tal o Largo das Figueiras do Paím foi transformado numa arena delimitada por palanques e camarotes que se encheram com pessoas da Vila e de fora dela.
O Francisco Ceguinho também não quis faltar à festa. Dentro do recinto, antes e no intervalo dos toiros, sempre guiado por um rapaz, parava o Cego em frente dos palanques cantando às pessoas de maior estatuto, começando sempre com a mesma cantiga, mudando apenas o terceiro verso onde cabia o nome do visado:
Fé, esperança e caridade
São três armas da virtude;
Senhor…fulano de tal
Lá vai à vossa saúde.
Entre cada quadra advertia o Cego o seu guia para que este tivesse atenção à saída do toiro.
Em determinada altura sai-se com esta:
Ò rapaz, toma cautela,
Repara bem p’rá gaiola;
Se eles soltam o bicho,
Adeus cego, adeus viola.
Isto dito rebenta um foguete e, no mesmo instante, sai para a arena um valente toiro puro que não vê mais ninguém à sua frente do que o nosso indefeso cantador. Resultado: Cego para um lado, viola para o outro feita em mil pedaços.
Até parece que estava a adivinhar!
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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008
CADA UM ESTÁ P'RÓ QUE NASCE
Francisco Lacerda (1869-1934), maestro das fajãs, Jorgense do mundo, teve como um dos seus ídolos um tal Francisco Ceguinho, terceirense, tocador de viola. E de tal modo o tinha em consideração que o fez seu hóspede durante uma visita que o Ceguinho efectuou a S. Jorge em altura que o genial músico se encontrava a espairecer na sua Ribeira Seca natal.No silêncio da Ilha ouviram-se por esses dias, diz-se, as mais belas melodias alguma vez retiradas das cordas de uma viola.
Lacerda, na sua visão universal da música, tinha pelas cantigas simples do povo e pelos seus executantes uma grande paixão e um enorme respeito.
Vitorino Nemésio (1901-1978) inventor da açorianiedade, catedrático dos saberes do povo, homem de paixões exuberantes e arrebatadoras, também tinha por ídolo o popular José da Lata, bravo pastor de cantigas e de gado, “mandador de bailes”, dono de uma voz de anjo, doce e escorreita e que, embora com menos desembaraço, também “rasgava” à viola. Por ele revelava uma admiração imensa.
Nemésio e Lacerda nutriam um fascínio indisfarçável pela “viola da terra”.
Se para Lacerda a viola fosse apenas mais um veículo revelador dos seus dotes musicais, para o Professor constitui-se sempre como um obstáculo ao seu saber universal. Apesar disso nunca se inibiu de a tanger sempre com a benevolente complacência dos circunstantes, mau grado a sua frequência em 1964 na Classe de Viola do Prof. Emilio Pujol (1886-1980) do Conservatório Nacional. Lá diz o velho ditado: “cada um está p'ró que nasce”.
domingo, 28 de outubro de 2007
A VIOLA DE ARAME DA ILHA TERCEIRA

PEQUENO CONTRIBUTO PARA O ESTUDO DA ORIGEM E EVOLUÇÃO
O primeiro tratado escrito sobre um novo instrumento, denominado expressamente “Guitarra Espanhola”, data de 1586 e é da autoria de JUAN CARLOS AMAT . Este novo instrumento tem 5 ordens de cordas e afina “lá ré sol si mi” do grave para o agudo.
No séc. XVII está largamente difundido em Portugal.
Em 1789 publica-se em Coimbra a nova arte da viola, de MANUEL DA PAIXÃO RIBEIRO. Segundo ele, a viola tem 5 ordens de cordas, armando com 12, com a afinação do agudo para o grave mi si sol ré lá, sendo as três primeiras duplas e as duas últimas triplas.
“A viola, devido às suas possibilidades e regularidade cromática e maleabilidade de afinação, acompanhou e adaptou-se facilmente às transformações que a música sofreu no decurso dos séc. XVII e XVIII, apresentando-se hoje como o instrumento popular próprio da música do tipo recente, mais acessível ao gosto actual do povo, contrapondo-se aos instrumentos do ciclo pastoril - a gaita de foles, o tamboril, a flauta e o adufe, especificamente ajustados às escalas e exigências rítmicas da música arcaica, austera e cerimonial ou mesmo festiva.” (ERNESTO VEIGA DE OLIVEIRA)
A viola chega aos Açores provavelmente em finais do sec. XVI ou princípios do sec. XVII. No arquipélago toma características comuns a todas as ilhas, o que nos leva, com toda a certeza, a considerar a existência de uma “viola tradicional açoriana” e englobá-la na grande família das violas Portuguesas, - eventualmente uma irmã gémea da viola coimbrã. Esta viola manteve as suas características fundamentais primitivas em todas as Ilhas, mas aqui e acolá foi adquirindo particularidades estéticas diferenciadas, sabendo-se por elas a sua origem A afinação foi sofrendo também algumas alterações, prevalecendo no entanto na maioria das ilhas a afinação original.
É apenas na Ilha Terceira que nos aparece, provavelmente na segunda metade do séc. XIX, um instrumento semelhante às violas Açorianas, exibindo no entanto algumas diferenças fundamentais: é acrescentada às suas cinco parcelas mais uma ordem de 3 cordas que afinam em mi; a caixa de ressonância é aumentada, assim como o braço, aumentando simultaneamente o número de pontos – trastes - dando-lhe mais potencialidades para a execução dos exigentes temas musicais tradicionais terceirenses.
A forma de tocar assume aqui uma componente muito relevante: passa-se do rasgar puro e simples, quase sempre com o polegar, de cima para baixo, como acontece ainda hoje por exemplo nas ilhas de S. Miguel ou das Flores para um dedilhar de baixo para cima, utilizando o indicador, reservando o polegar para eventuais acompanhamentos nas cordas graves. Esta nova forma de tocar aumenta de executantes à medida que vão desaparecendo as motivações pelas quais as pessoas se juntavam e dançavam as modas tradicionais em que era bastante marcar, rasgando, o compasso e os tons da música que era cantada por todos, sem se dar grande importância à voz realçando-se acima de tudo o texto das quadras ou sextilhas que eram “atiradas” em permanente despique.
Mas é sobretudo com o aparecimento dos modernos meios de retenção e difusão áudio, que aparecem os virtuosos executantes deste instrumento. Retirados de todo o contexto, eles assumem aqui um papel de topo, tal como os cantadores. O que é importante agora é a execução musical e a voz do cantador. Às músicas simples do povo são acrescentados magníficos rendilhados tantos quantos o poder de criatividade do executante lhe permitissem.
É esta forma de tocar e este instrumento que nos é deixado como herança, e é sobre ele que recai hoje em dia toda a responsabilidade melódica das músicas populares terceirenses, dançadas e recriadas pelos grupos de Folclore.
O primeiro tratado escrito sobre um novo instrumento, denominado expressamente “Guitarra Espanhola”, data de 1586 e é da autoria de JUAN CARLOS AMAT . Este novo instrumento tem 5 ordens de cordas e afina “lá ré sol si mi” do grave para o agudo.
No séc. XVII está largamente difundido em Portugal.
Em 1789 publica-se em Coimbra a nova arte da viola, de MANUEL DA PAIXÃO RIBEIRO. Segundo ele, a viola tem 5 ordens de cordas, armando com 12, com a afinação do agudo para o grave mi si sol ré lá, sendo as três primeiras duplas e as duas últimas triplas.
“A viola, devido às suas possibilidades e regularidade cromática e maleabilidade de afinação, acompanhou e adaptou-se facilmente às transformações que a música sofreu no decurso dos séc. XVII e XVIII, apresentando-se hoje como o instrumento popular próprio da música do tipo recente, mais acessível ao gosto actual do povo, contrapondo-se aos instrumentos do ciclo pastoril - a gaita de foles, o tamboril, a flauta e o adufe, especificamente ajustados às escalas e exigências rítmicas da música arcaica, austera e cerimonial ou mesmo festiva.” (ERNESTO VEIGA DE OLIVEIRA)
A viola chega aos Açores provavelmente em finais do sec. XVI ou princípios do sec. XVII. No arquipélago toma características comuns a todas as ilhas, o que nos leva, com toda a certeza, a considerar a existência de uma “viola tradicional açoriana” e englobá-la na grande família das violas Portuguesas, - eventualmente uma irmã gémea da viola coimbrã. Esta viola manteve as suas características fundamentais primitivas em todas as Ilhas, mas aqui e acolá foi adquirindo particularidades estéticas diferenciadas, sabendo-se por elas a sua origem A afinação foi sofrendo também algumas alterações, prevalecendo no entanto na maioria das ilhas a afinação original.
É apenas na Ilha Terceira que nos aparece, provavelmente na segunda metade do séc. XIX, um instrumento semelhante às violas Açorianas, exibindo no entanto algumas diferenças fundamentais: é acrescentada às suas cinco parcelas mais uma ordem de 3 cordas que afinam em mi; a caixa de ressonância é aumentada, assim como o braço, aumentando simultaneamente o número de pontos – trastes - dando-lhe mais potencialidades para a execução dos exigentes temas musicais tradicionais terceirenses.
A forma de tocar assume aqui uma componente muito relevante: passa-se do rasgar puro e simples, quase sempre com o polegar, de cima para baixo, como acontece ainda hoje por exemplo nas ilhas de S. Miguel ou das Flores para um dedilhar de baixo para cima, utilizando o indicador, reservando o polegar para eventuais acompanhamentos nas cordas graves. Esta nova forma de tocar aumenta de executantes à medida que vão desaparecendo as motivações pelas quais as pessoas se juntavam e dançavam as modas tradicionais em que era bastante marcar, rasgando, o compasso e os tons da música que era cantada por todos, sem se dar grande importância à voz realçando-se acima de tudo o texto das quadras ou sextilhas que eram “atiradas” em permanente despique.
Mas é sobretudo com o aparecimento dos modernos meios de retenção e difusão áudio, que aparecem os virtuosos executantes deste instrumento. Retirados de todo o contexto, eles assumem aqui um papel de topo, tal como os cantadores. O que é importante agora é a execução musical e a voz do cantador. Às músicas simples do povo são acrescentados magníficos rendilhados tantos quantos o poder de criatividade do executante lhe permitissem.
É esta forma de tocar e este instrumento que nos é deixado como herança, e é sobre ele que recai hoje em dia toda a responsabilidade melódica das músicas populares terceirenses, dançadas e recriadas pelos grupos de Folclore.
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