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sexta-feira, 14 de setembro de 2007

GRUPO FOLCLÓRICO DA ILHA TERCEIRA


No ano de 1955, na freguesia de S. Bartolomeu dos Regatos, com o patrocínio da então Comissão Regional de Turismo, apareceu com o nome de “Grupo Folclórico da Ilha Terceira” o nosso primeiro agrupamento de “folclore”. Alguns anos mais tarde mudou o nome para “Grupo Folclórico Padre Tomás de Borba” sendo vulgarmente conhecido como “Grupo do Tio José da Lata”. Homens como o Dr. Henrique Brás, Eduardo Gomes da Silva, Leonilde Martins, Heldo Braga, Laureano Correia dos Reis, José da Rocha Mancebo e José de Sousa Martins (conhecido por todos como José da Lata e que foi seu mandador durante algum tempo) entre outros, foram responsáveis pelo seu aparecimento e manutenção durante os onze anos da sua existência.
A sua indumentária era uniforme e foi idealizada pelo “mestre” Maduro Dias, com base no traje de cerimónia de finais do Sec. XVII, que é vulgarmente conhecido como “de barrete de orelhas”, para os homens e no “vestido de chita com saia de ombros” para as mulheres.
Durante esse período apareceu na freguesia de S. Sebastião um grupo folclórico infantil, sob a orientação do Padre Coelho de Sousa, que teve um tempo de vida muito curto, não mais do que dois ou três anos.
Nessa altura, e estamos a falar de meados da década de cinquenta do sec. XX, todas as pessoas adultas tinham ainda bem presente, por terem participado ou apenas por terem visto, a forma como, pelos mais variados motivos, as pessoas se juntavam em roda e dançavam, cantando e tocando, as modas de tradição regional.
Estávamos num período de pós guerra. Tudo mudava de uma forma mais rápida do que se vira até então. E nós, Terceirenses, sentíamo-nos protagonistas dessa mudança, mercê da presença dos Ingleses, primeiro, depois dos Americanos e mesmo dos Portugueses do continente que, em grande número, constituíam as forças militares aqui estacionadas e que nos ofereciam, a cada momento, a mais diversificada gama de novidades que iam desde os hábitos alimentares, de vestir, de falar até a novos hábitos sociais, onde poderemos englobar os novos gostos musicais.
O contacto com estes novos valores era cada vez maior tanto quanto era o número de Terceirenses a trabalhar para estas forças. Mas os que com eles não tinham uma relação de trabalho encontravam-na, com relativa facilidade, mercê da proliferação dos clubes sociais e dos eventos que neles se realizavam, não só dentro da Base militar como também no seu exterior, nas suas zonas limítrofes, nomeadamente nas então Vila da Praia da Vitória e freguesia das Lajes.
Os bailes ao som de violas e das cantigas tradicionais que aconteciam nas casas de mordomia ou nos terreiros, começam a ser substituídos pelos que se iam realizando ao som de “swings” e “fox-trots” que as novas orquestras interpretavam com maior ou menor desembaraço. Em alguns cafés de Angra e Praia da Vitória são colocados à disposição dos clientes pianos que são tocados por mãos vindas de outras paragens e que deles tiram sons novos e ritmos modernos.
Para além destes, a vulgarização dos aparelhos receptores de rádio, o cinema e, de uma forma mais restrita, mas não menos significativa, a televisão americana da base aérea, foram também veículos de introdução de novos valores que competiam com demolidora desigualdade com os que caracterizavam a nossa ancestral cultura.
Não é de estranhar pois o rompimento brusco com o antigo (entenda-se fora de moda) e a assimilação rápida de novas e, quiçá, mais atraentes formas de estar e de comportamento colectivo.
Julgamos ver nesta época, de uma forma clara, a passagem do tempo de um período de relativo isolamento, em que tudo acontecia de uma forma naturalmente lenta, ao ritmo do próprio tempo, para outro de progressiva massificação, prenúncio da actual globalização de comportamentos.
Mas voltemos ao “Grupo Folclórico da Ilha Terceira”. A pergunta que se nos coloca de uma forma pertinente é: O que teria levado um grupo de pessoas, elas próprias intervenientes espontâneos dos “balhos” populares, músicos, cantadores e mandadores, a criarem um agrupamento “folclórico” que é, pela sua génese e características, o principal responsável pela adulteração da forma e do modo, das motivações e dos próprios objectivos do canto e da dança enquanto elemento da cultura popular? Teriam eles por objectivo substituir o povo? Ou antes teriam eles a consciência de que as transformações que decorriam à sua volta eram, inevitavelmente, um perigo eminente para a própria cultura de que eles eram elementos activos? E o grupo infantil de S. Sebastião: o que levaria o Padre Coelho de Sousa e seus colaboradores a assumirem a responsabilidade de pôr crianças a dançar as modas tradicionais dos adultos? Certamente que as motivações de então em nada seriam semelhantes àquelas que hoje estão na base da criação de novos grupos de “folclore”.
Na época em que estes agrupamentos aparecem, havia de uma forma mais ou menos generalizada no seio dos intelectuais locais alguma preocupação com os assuntos relacionados com a etnografia e o “folclore”. Sentia-se que, se nada fosse feito, estaria eminente a perca irremediável e irreversível de vectores importantes da nossa identidade cultural, cimentada em quase cinco séculos de permanente adaptação ao nosso meio, às várias influências exteriores e ao natural senso criativo que caracteriza qualquer povo.
Por providencial coincidência (ou talvez não), é nessa década que a BBC encomenda ao Prof. Artur Santos registos e estudos da música tradicional Açoriana. Esse trabalho, que também foi apoiado pela antiga Junta Geral do Distrito Autónomo de Angra do Heroísmo, só agora começa a ser convenientemente estudado e divulgado. É curioso notar que aí iremos encontrar como informadores alguns dos então elementos do “Grupo Folclórico da Ilha Terceira”, nomeadamente o José da Lata.
Outros tempos! Tempo em que a credibilidade de um Grupo de Folclore e dos seus elementos não era posta em causa.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

AS QUADRAS

Com o título “O MEIO ALQUEIRE” o meu amigo e distinto cronista Francisco dos Reis Maduro Dias escreveu a 3 de Setembro de 2000, no seu lugar semanal do Diário Insular "VELA DE ESTAI", um artigo no qual comentava o facto de se ter “construído” bem no meio da praça Velha, sobre a soberba manta de tear terceirense que ali se representa (por sinal da autoria de seu pai Mestre Maduro Dias), um “cerrado” onde decorreu uma “encenação” sobre o “ciclo do milho”.
Lá estavam as paredes de pedra bem tapada a delimitarem o cerrado, a terra, depois uns pés de milho e por fim decorreu a desfolhada.
Mais recentemente, por altura das Sanjoaninas de 2007, uma nova encenação desta feita a que chamaram o “ciclo da vinha”, em que se pretendia reconstituir na rua da Sé toda a faina agrícola que é inerente à cultura da vinha. Para tal apanharam uns pés de vinha e para compor o cenário uns araçaleiros e uns ramos de figueira, colocaram-nos ao longo do percurso e lá foram simulando todos os passos que o homem (ainda) dá desde a plantação da vinha até à colheita da uva.
Em qualquer uma destas reconstituições quem já sabia ficou a saber o mesmo, quem não sabia nada aprendeu. É que estas coisas, para terem o mínimo de credibilidade, e para atingirem os objectivos que se anunciam não podem ser só de faz de contas: faz de contas que estou a lavrar, faz de contas que o milho está a nascer, faz de contas que estou a sachar, faz de contas que aqui tem uvas, faz de contas que estou a vindimar, faz de contas…, faz de contas… .

Vem isto a propósito desta nova tendência que os grupos de folclore têm de recorrer às reconstituições.
Nada me move contra elas, antes pelo contrário, sou um forte defensor desta metodologia, desde que se tenham em linha de conta dois aspectos fundamentais: a "quadra" e o lugar.
Os “antigos” regulavam toda a sua actividade anual pelas “quadras” mais do que por qualquer folhinha do ano ou almanaque. Todas as coisas cabiam certinhas nos seus lugares e no seu tempo, na sua “quadra", numa sucessão harmoniosa de acontecimentos. Nada se repetia no mesmo ano. Por isso tudo era apetecível e aguardado sempre com entusiasmo e elevado grau de ansiedade. E isto tanto era verdade para as actividades de lazer como para as actividades agrícolas; para as épocas de reflexão e recolhimento como para as de exaltação e alegria.
Reconstituir é voltar a constituir, é repor, é voltar a fazer da mesma forma, nos mesmos ambientes, nos mesmos lugares, com o mesmo sentido, na mesma “quadra”, de uma forma coerente. Não faz sentido fazer uma reconstituição de uma vindima se não houver uvas; de uma matança de porco no pico do verão; de uma desfolhada na altura das sementeiras; de uma tosquia na força do Inverno. Matar o porco no Alto das Covas é tão falso como o “cerrado” da Praça Velha ou a vindima em pleno mês de Junho: nada faz sentido. Da mesma maneira que não faz sentido pôr um “maio” à janela no 1º de Abril, dizer petas no 1º de Maio, celebrar o Natal no 1º de Novembro ou pedir “pão-por-Deus a 25 de Dezembro. Se o objectivo é mostrar a quem nos visita estas actividades, e como não se consegue mostrá-las todas de uma só vez, então que se reconstitua cada coisa no seu tempo certo e em sítios adequados para cada situação.
Infelizmente hoje assistimos à generalização desta conduta: o “Entrudo” tanto se antecipa a ele próprio como entra pela Quaresma dentro; o S. João com as suas marchas invade todos os outros padroeiros; o próprio Espírito Santo está tão desorientado que também já perdeu a sua “quadra” e o seu lugar: já O temos visto, por aí, em desfiles e cortejos etnográficos.
Para além da minha preocupação como individuo e como cidadão, acresce a do “folclorista”: é que todas estas tropelias acontecem com a chancela dos Grupos de Folclore. São eles ou é a partir deles que quase todas estas coisas acontecem. Com todo o empenho e a melhor das intenções dos seus elementos, é certo, mas também com muita ignorância e ligeireza dos seus responsáveis.
Os Grupos de Folclore são agentes culturais que têm, entre outras, a função de perpetuar as características que nos identificam e nos diferenciam dos outros: primeiro para que nós não as esqueçamos. Só depois para que os outros as vejam. Mas sempre no mais escrupuloso respeito pela verdade.