quarta-feira, 17 de março de 2010

DIA DE CHUVA DIA DE PANCADAS

Era quase sempre assim.
Nas casas pequenas da minha criação, quando chovia, era inevitável andarmos "enriçados" debaixo dos pés dos adultos que, na rotina da faina doméstica, nos "enchotavam" para um canto qualquer.
Em cima da cama, de onde não saíamos, no "estrado" ou simplesmente em cima de uma "caixa"era aí que passávamos quase todo o dia reinventando jogos e brincadeiras que acabavam, invariavelmente, em palmadas distribuídas carinhosamente de forma justa e equitativa por todos.
De pernas "encruzadas", sentados em roda, sempre com grande algazarra, era escolhido um jogo qualquer, numa sequência aleatória, que se repetiria durante todo o dia e em todos os dias de chuva.
Bem podia ser o "lagarto pintado".
Com as mãos colocadas sobre os joelhos esperávamos a sentença da sorte que nos caberia após a recitação lenta

Lagarto pintado
quem te pintou
foi uma velha
que por aqui passou
no tempo da eira
fazia poeira
puxa lagarto
p'la ponta da orelha

em que a cada estrofe nos era apontado o dedo indicador do mandante.
Depois de cada um ter sido sentenciado com a última estrofe ficávamos todos agarrados às orelhas uns dos outros e, enquanto em uníssono gritávamos a lenga-lenga, puxávamos com quanta força tínhamos pelas orelhas dos parceiros do lado.
O resultado era sempre o mesmo: acabávamos com as orelhas roxas e em grandes discussões que eram serenadas com umas pancadas a fazer jus à chuva que caía lá fora.
.

1 comentário:

Francisco disse...

Caro amigo

Para não dizeres que nunca digo nada...